'Amor a Toda Prova' é comédia romântica feita para homens

Com Steve Carell e Julianne Moore, filme agrada ao concentrar o roteiro dentro de um círculo familiar

Tiago Agostini, especial para o iG São Paulo |

O amor é um clichê que ignora idades. Há a angústia do começo da paixão, a incerteza se o sentimento é correspondido, a felicidade com a ligação no cair da noite para conversar sobre nada, a confiança após a primeira transa, a fossa descomunal ao ser rejeitado seguida de um desejo de vingança ardente. Tal qual o amor, uma comédia romântica também é um amontoado de clichês. “Amor a Toda Prova”, que estreia nesta sexta-feira, não foge à regra. No entanto, apoia-se em um roteiro consistente para destoar da média das produções recentes do gênero.

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Steve Carell e Julianne Moore em "Amor a Toda Prova"

Cal Weaver (Steve Carell) vê seu casamento de 25 anos ruir quando sua mulher, Emily (Julianne Moore), sufocada pela rotina da vida a dois, transa com um colega de trabalho e, em meio à crise da meia-idade, pede o divórcio no meio do restaurante. Sendo Emily sua primeira e única namorada, Cal precisa reaprender a lidar com o sexo oposto para superar a traição. Enquanto isso, inspira a paixão platônica de Jéssica (Analeigh Tipton), de apenas 17 anos - e babá de seus filhos - que, por sua vez, é o amor não tão secreto de Robbie (Jonah Bobo), filho de 13 anos de Cal.

De cara, “Amor a Toda Prova” se destaca por ser uma comédia romântica feita para homens. Recém-separado, Cal precisa enfrentar uma jornada em busca da masculinidade perdida e compreender a arte da sedução. Ele será auxiliado por Jacob (Ryan Gosling), um garanhão incorrigível que, à mestre Myiagi, ensinará o quarentão a se vestir, a beber e dará aulas de cantadas em garotas bonitas. Em pouco tempo, Cal se transforma no canalha perfeito, para só então perceber que, na verdade, tudo o que ele quer é a mulher de volta - enquanto o mentor se apaixona pela misteriosa Hannah (Emma Stone), uma garota capaz de mudar vidas.

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Ryan Gosling e Emma Stone em "Amor a Toda Prova"
O relacionamento de Cal e Emily é o foco central, mas as histórias paralelas têm força quase igual. Limitado a um pequeno círculo familiar, o filme realça o poder de influência que fatos têm entre si. O roteiro de Dan Fogelman acerta ao conduzir as diversas tramas sem maniqueísmo entre os personagens.

Mergulhados, todos, na bagunça do amor, nenhum tem certeza absoluta do que está fazendo. Entre tentativas e erros, o enredo caminha de forma natural para o clímax, em que as tramas se unem em apenas uma – e um segredo bem escondido até então dá uma boa virada na história.

O humor politicamente incorreto da última década, iniciado pelos irmãos Farrelly ( "Passe Livre" ) e aperfeiçoado por Judd Apattow, dá o tom do filme. As piadas são pontuadas por diversas referências sexuais, mesmo que não tão desbocadas quanto as de Jennifer Aniston em “Quero Matar Meu Chefe” . O desconforto de Jessica ao fazer um ensaio sensual em um quarto repleto de pôsteres adolescentes mostra como um tema polêmico pode ser tratado com sutileza e continuar engraçado.

Analeigh Tipto, aliás, é uma boa descoberta do filme, conseguindo sintetizar as dúvidas da descoberta tardia da sensualidade da insossa Jessica. “Amor a Toda Prova” é um filme onde brilham os novatos. Jonah Bobo, por exemplo, imprime veracidade ao inocente e sonhador Robbie. No entanto, o grande destaque é Emma Stone. Em suas mãos, a estudante CDF de direito Hannah ganha leveza e um charme juvenil irresistível. Não à toa a atriz é uma das sensações da nova geração de Hollywood, com papel destacado em “Vidas Cruzadas” e gravando o próximo "Homem-Aranha" .

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Mas talvez o segredo de “Amor a Toda Prova” seja a câmera invasiva dos diretores Glenn Ficarra e John Requa. Eles certamente leram “O Corpo Fala”, livro de Roland Tompakow que ensina como um gesto simples esconde as intenções de uma pessoa. Todas as viradas importantes do roteiro são precedidas por closes de gestos certeiros, assim como as partes da cantada que Jacob ensina a Cal.

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Mais do que as interpretações dos atores, é o olhar aguçado e próximo da câmera que marca os momentos de insegurança ou confiança dos personagens – um simples abotoar de paletó ou um ombro erguido falam mais do que minutos de diálogo. É assim que, já na cena inicial, ele consegue mostrar magistralmente o fim de um relacionamento apenas filmando um par de pés embaixo de uma mesa.

“Amor a Toda Prova” é recheado de clichês – chove na noite em que os personagens têm a revelação de seus anseios amorosos, para citar apenas um. No entanto, o que diferencia o filme dentro do gênero é que ele se utiliza dos clichês para passar uma mensagem mais realista do que o normal.

Há, sim, o otimismo de que o amor eterno existe, porém, não há certezas absolutas em momento algum. Pode ser que existam almas-gêmeas, mas nada garante que elas ficarão juntas. “Amor a Toda Prova” mostra que existe final feliz, com um porém: a vida não é um conto de fadas.

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