Almodóvar homenageia terror clássico com "A Pele que Habito"

Espanhol injeta estilo próprio, sem muito sucesso, numa espécie de "O Médico e o Monstro"

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Se a cinefilia de Pedro Almodóvar parecia cada vez mais intensa da última década para cá, desta vez o diretor espanhol resolveu brincar explicitamente com seus gostos e fazer um filme de gênero. Não que ele não tenha criado um gênero para si mesmo ao longo da carreira, mas "A Pele que Habito", que estreia nesta sexta-feira (4) no Brasil, é o primeiro suspense da carreira do cineasta.

Por mais que quisesse homenagear mestres do passado, Almodóvar não conseguiu deixar de injetar seu estilo nesse flerte com o horror. O curioso é que o híbrido fruto da mistura, baseada no romance "Tarântula", de Thierry Jonquet (recém-lançado no Brasil), tem tanto de Frankenstein quanto a própria trama.

Em vídeo: As musas de Pedro Almodóvar

Divulgação
Elena Anaya e Antonio Banderas em "A Pele que Habito": experimentos e relação dúbia
O papel do cientista maluco coube a Antonio Banderas, trabalhando de novo com Almodóvar depois de 20 anos. Ele encarna o médico Robert Ledgard com dureza e canastrice. Ledgard é um cirurgião plástico obcecado em encontrar um novo tipo de pele, resistente a queimaduras e picadas de insetos. Ele conduz seus experimentos com liberdade na afastada mansão El Cigarral, usada como moradia, laboratório e clínica. Ao seu lado está Marília (Marisa Paredes), governanta com um quê materno.

Os experimentos têm como alvo a belíssima Vera (Elena Anaya, nova musa de Almodóvar, com quem ele já havia trabalhado em "Fale com Ela"). Usando sempre um macacão cor da pele que a cobre dos pés ao pescoço, a garota alimenta uma relação dúbia com seu captor – está trancada num quarto, mas não se sabe até que ponto o cativeiro é voluntário.

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Isso porque o filme começa da metade para o final. Mais tarde, um longo flashback trata de situar a história e revela o passado traumático do médico, cuja mulher morreu queimada num acidente de carro.

As obsessões são explicadas de forma bastante didática nesse prólogo atrasado que é, também, um dos principais problemas do filme – embora tenha, ao mesmo tempo, talvez a melhor vingança de um pai contra o agressor da filha.

Almodóvar assumidamente usou influências de Alfred Hitchcock, Dario Argento, Luis Buñel e do horror "Os Olhos Sem Rosto" (1960), do francês Georges Franju. O tom sombrio e fantástico desses empréstimos é combinado com o kitsch tão caro a Almodóvar, aos melodramas clássicos que orientam sua obra, ao sexo e a uma comédia absurda – o bandido fantasiado de tigre e com sotaque brasileiro (!) é bom exemplo disso.

Qualquer tentativa de criar medo ou suspense, portanto, perde força enquanto "A Pele que Habito" tenta ser várias coisas ao mesmo tempo. Almodóvar talvez quisesse fazer um típico filme B, para não ser levado a sério, mas a rigidez com que leva boa parte das sequências, até para tratar da identidade sexual, tema recorrente em sua filmografia, deixa claro que o diretor tem ambições maiores para o projeto. Uma opção equivocada e frustrante para quem esperava um thriller genuíno.

A salvação se deve à reviravolta rumo ao final. A puxada de tapete consegue dar novo ânimo à história e prende a atenção até o desfecho, ainda assim mais longo do que deveria – digno de novela, e não de "O Médico e o Monstro". Pouco para alguém do porte e do culto do "polêmico" Almodóvar, como anuncia o cartaz brasileiro.

Em vídeo: As musas de Pedro Almodóvar

Verdade que há muito de coragem e radicalidade na tentativa do cineasta de conferir personalidade a um gênero consagrado. Só que, assim como "Abraços Partidos", apesar das boas intenções e de momentos iluminados, o resultado é tão e somente irregular.

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