Afiado, "Abutres" une drama e denúncia

Thriller estrelado pelo argentino Ricardo Darín deixa público com nó no estômago

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Divulgação
Ricardo Darín e Martina Gusman em "Abutres": rotina de acidentes em Buenos Aires
O diretor argentino Pablo Trapero tem um interesse especial por temas que não estão na primeira página do jornal. Expoente do novo cinema produzido em seu país, já foi contundente com a polícia portenha ("Do Outro Lado da Lei") e expôs a vida surreal das mães presas com seus filhos ("Leonera"). Agora, desencavou em "Abutres" ("Carancho", no original), com estreia neste final de semana, a surpreendente rotina de advogados que ficam à espreita de vítimas de acidentes de trânsito e suas polpudas indenizações. Transformou isso num thriller encabeçado pelo astro Ricardo Darín e o resultado, além de sucesso de bilheteria, teve impacto até no Congresso argentino.

O filme começa com dados alarmantes sobre o trânsito: morrem todo ano 8 mil pessoas na Argentina e 120 mil ficam feridas. Na sequência, somos apresentados a Sosa (Darín), espancado por um grupo de homens furiosos por ele estar rondando um velório. É o território em que ele atua: hospitais sem recursos, necrotérios e rodas de curiosos nas ruas da periferia de Buenos Aires. Simplória e vulnerável, a maioria dos clientes se deixa levar pela conversa mole de que alguém precisa pagar pela tragédia – em geral, as seguradoras –, assina a papelada e acaba com uma migalha do que deveria receber.

A polícia e os enfermeiros também levam sua parte na história, num universo em que quase todo mundo é corruptível e o sistema, podre. Ameaçado de perder a licença para exercer a profissão, Sosa está cansado, prestes a entregar os pontos. E aí ele conhece a médica Luján (Martina Gusman, mulher do diretor), nova socorrista de uma ambulância. Alheia a esse mundo cão, ela parece ser a tábua da salvação, apesar de ter seus próprios problemas – emendando um plantão no outro, usa drogas injetáveis para aguentar o tranco. Sosa quer cair fora do esquema, organizado como a máfia, e terá que aguentar as sequências.

Até então partidário de um cinema de observação, curioso pelos personagens, Trapero flertou com os produtos de gênero e dotou "Abutres" de uma dose de adrenalina inédita em sua carreira. A violência, os conflitos morais e a trajetória errática dos personagens deixam a tensão em primeiro plano. Há um respiro ou outro, boa parte deles para mostrar a relação de Luján e Sosa, mas o clima geral é de nó no estômago. A sequência final, sem cortes, surpreende – se para alguns é moralista, não deixa de evidenciar a excelência e o rigor de Trapero como cineasta. Uma paulada, que chamou atenção em Cannes, vai representar a Argentina no Oscar e em breve deve ganhar um remake em Hollywood.

Garoto-propaganda do cinema argentino, Darín desfila a competência habitual, auxiliado por uma boa camada de sangue e cicatrizes (a maquiagem, aliás, tem se destacado nos longas de Trapero). Seu rosto no cartaz ajudou o filme a acumular 700 mil espectadores na Argentina – número muito expressivo – e chamou a atenção do governo para o papel de terceiros nos processos indenizatórios. Como o ator chegou a declarar, uma vitória para o projeto que era, no início, apenas uma história de amor .

"Abutres", no entanto, vai, obviamente, além disso. Expor a corrupção e falência dos serviços públicos como pano de fundo da trama só potencializa os dramas expostos na tela e confere nuances poderosas à construção dos personagens, perdidos num emaranhado de conflitos e sentimentos – solidão, dor, moral, sobrevivência. Amparado por um belo trabalho de pesquisa, o filme soa ainda mais autêntico e envolvente. "Abutres" é afiadíssimo.

Assista ao trailer de "Abutres":

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