"A Montanha" mostra participação do Brasil na Segunda Guerra

Filme de Vicente Ferraz retrata atuação da FEB e deserção durante o conflito

Guss de Lucca, iG São Paulo |

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O ator Daniel de Oliveira como um pracinha da Força Expedicionária Brasileira (FEB) no filme "A Montanha"
É difícil associar o Brasil à Segunda Guerra Mundial. A maioria dos filmes sobre o conflito retrata a participação dos Aliados (França, Rússia, Inglaterra e Estados Unidos) e do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), inquestionavelmente os grandes envolvidos nas batalhas.

Com "A Montanha", longa-metragem dirigido por Vicente Ferraz e estrelado por Daniel de Oliveira, Julio Andrade, Thogun e Francisco Gaspar, o país entra para a lista de nações que, nos últimos anos, tiveram seu papel no conflito exibido nos cinemas - exemplos famosos incluem a Argélia com "Dias de Glória", de Rachid Bouchareb, e a Tchecoslováquia com "Num Céu Azul Escuro", de Jan Sverák.

Com o término das filmagens na Itália, o diretor conversou com o iG sobre o filme. Em fase de produção, "A Montanha" ainda não tem data de estreia definida.

iG: O fato de filmar na Itália, retratando um ambiente hostil, o surpreendeu em algum momento?
Vicente Ferraz: Fazer um filme próximo dos Alpes, quase todo rodado na neve, com temperatura que às vezes chegava a menos 10 C, foi muito difícil. Mas enfrentei esse desafio sem pensar que poderia afetar negativamente o trabalho. A neve e o frio eram elementos indispensáveis para contarmos a história. Afinal, os soldados brasileiros lutaram em condições bem piores.

iG: Como você lida com a responsabilidade de dirigir uma produção internacional e fazer jus aos relatos dos pracinhas brasileiros?
Vicente Ferraz: Quase todos os filmes que fiz foram co-produções filmadas fora do país (Cuba, Portugal, Nicarágua, EUA e Costa Rica), talvez por isso tinha alguma segurança ao filmar na Itália com uma equipe mista.

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O diretor brasileiro Vicente Ferraz
Tenho uma relação com a FEB igual a qualquer outra história que quero contar, o que me importa é o ser humano. Nesse caso, o que me comoveu foram as vivências dos jovens brasileiros que estiveram na Itália há quase 70 anos e lutaram no maior conflito do século 20, durante um dos piores invernos da história.

iG: Por que não há filmes sobre a Segunda Guerra feitos no Brasil?
Vicente Ferraz: Não estou fazendo um filme de gênero. Pelo menos essa é a minha intenção. Entre as minhas referências cinematográficas, estão os russos "Vá e Veja", de Elen Klimov, e "Ascensão", de Larissa Sepko, o norte-americano "Sem Novidades no Front", de Lewis Milestone, e o alemão "A Queda", de Oliver Hirshbiegel, e apesar de todos serem filmes ambientados na guerra, nenhum poderia ser classificado assim.
Minha geração ficou profundamente marcada pela ditadura militar. E a percepção que eu tenho é a de que durante muito tempo a participação do Brasil na Segunda Guerra ficou longe dos civis e ligada apenas a um exército golpista, fascista e antidemocrático. Muito diferente da postura das forças armadas na atualidade, que são totalmente legalistas e prestam um grande serviço à cidadania.

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O ator alemão Richard Sammel interpreta um oficial nazista que deserta em plena Segunda Guerra
iG: Vocês pretendem explicar no filme o contexto da criação da FEB?
Vicente Ferraz: O filme não tem a pretensão de fazer uma análise histórica da FEB. Acho que esse trabalho, de analisar a criação e o papel da FEB, deve ser feito na academia. E isso está acontecendo, jovens historiadores têm feito um trabalho de revisão desse período de maneira brilhante.
Eu trabalho com outro material que é a ficção e o audiovisual. O que eu tenho pela frente é o mesmo desafio que outros diretores enfrentam quando ambientam seus filmes em um momento específico da história. Isso se aplica num filme passado na Segunda Guerra ou em qualquer outro momento histórico.
O importante é ser justo e respeitar os que viveram aquele momento e também emocionar aqueles que estão agora querendo saber um pouco do que aconteceu no passado. Me interessa muito mais fazer essa viagem através da memória afetiva do que realizar um sumário dos acontecimentos reais.

iG: Como surgiu o roteiro do filme? Até que parte ele é baseado em fatos reais e o que foi criado em cima disso?
Vicente Ferraz: Antes de escrever o roteiro, pesquisei muito sozinho e depois com a ajuda de historiadores. Li vários livros e conversei com ex-combatentes. Mas o que mais me emocionou foram os relatos que muitos deles tinham guardados na memória. Uma coisa é analisar a guerra, outra é vivê-la. E através dessa memória afetiva vi os diversos lados dessa guerra. Do mais trágico e violento ao mais humano e inusitado, às vezes até bem humorado. Havia de tudo nos “causos” dos ex-combatentes.

iG: Como você avalia a jornada dos personagens?
Vicente Ferraz: O filme narra um ataque de pânico dos meus personagens durante o final da Segunda Guerra na Itália, que vivia naquele momento uma verdadeira guerra civil também. Existe um oficial alemão cansado da guerra que deserta.
O medo e o pânico são sentimentos extremamente humanos e vividos por todos os exércitos em todas as guerras. De Cártago ao Iraque dos dias atuais você lê relatos de soldados que viveram situação traumática. O pânico é um instinto natural de sobrevivência. Meu filme é sobre sobreviventes de uma grande tragédia que é a Segunda Guerra, mas que se encontram.
A grande ironia e tristeza de fazer esse filme foi ter filmado perto da base da Otan em Aviano. Muitas vezes as filmagens eram interrompidas pelos rasantes dos aviões que iam bombardear a Líbia.

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