"Nunca colocaria limites a Lars von Trier", diz produtora de "Ninfomaníaca"

Por Luísa Pécora , iG São Paulo | - Atualizada às

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Em entrevista ao iG, Marianne Slot fala da versão sem cortes do polêmico filme e conta como é trabalhar com o diretor dinamarquês: "Ele é um explorador"

Por trás dos filmes polêmicos e sombrios do dinamarquês Lars von Trier há uma mulher animada e sorridente: Marianne Slot produziu desde "Ondas do Destino", de 1995, a "Ninfomaníaca", o longa mais polêmico de 2014, cuja versão sem censura está na programação da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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Parte 1: Em "Ninfomaníaca", Lars von Trier discute sexo, mas inova pouco
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Como jurada da Mostra, Slot faz sua primeira visita ao Brasil, um dos países em que "Ninfomaníaca" fez sucesso: foram mais de 250 mil espectadores só para o primeiro longa, recorde de Von Trier no País. Agora, ela espera que o público volte ao cinema para a versão mais longa, sem cortes e, segundo ela, a única que representa a visão do diretor.

"Será possível entender completamente para onde Lars quer ir, a reflexão que faz sobre os temas. Sim, algumas cenas de sexo vão mais longe ou são mais violentas, mas isto não é o principal. O principal é o assunto em si, as discussões mais profundamente exploradas", afirma a produtora, em entrevista ao iG.

Cena do filme 'Ninfomaníaca', com Shia LeBeouf e Stacy Martin. Foto: DivulgaçãoImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesImagens do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Christian GeisnaesUma Thurman em cena de 'Ninfomaníaca'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: DivulgaçãoElenco de 'Ninfomaníaca', que conta com nomes como Uma Thurman e Willem Dafoe. Foto: DivulgaçãoCharlotte Gainsbourg em cena de "Nymphomaniac", novo filme de Lars Von Trier. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Ninfomaníaca'. Foto: Divulgação

Aos 46 anos, a dinamarquesa é presidente do Fundo de Apoio ao Cinema Mundial pelo Centro Nacional do Cinema e da Imagem em Movimento (CNC) da França, e comanda a Slot Machine, produtora que fundou em Paris em 1993. Além de Von Trier, trabalhou com diretores como Susanne Bier, Bent Hamer, Lisandro Alonso e Paz Encina.

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ars von Trier: Sexo, violência e mulheres protagonistas são marca do diretor

Na entrevista a seguir, Slot fala sobre a colaboração com Von Trier e discute os limites da pornografia no cinema comercial, a participação das mulheres na indústria e o espaço para filmes inovadores: "Acredito na inteligência das pessoas."

iG: Por que as pessoas devem ver a cópia sem cortes de "Ninfomaníaca"?
Marianne Slot: Eu chamo [a versão sem cortes] de "o filme", porque este é o filme que Lars fez. O outro é uma versão editada, e mesmo se você gostou dela, será interessante ver a versão mais longa. Será possível entender completamente para onde Lars quer ir, a reflexão que faz sobre os temas. Sim, algumas cenas de sexo vão mais longe ou são mais violentas, mas isto não é o principal. O principal é o assunto em si, as discussões mais profundamente exploradas em cenas que não estão na outra versão, e que são muito importantes. É possível ver a versão editada e depois a completa, mas o contrário não funciona: quem viu sem censura primeiro não acha a edição muito boa.

iG: Houve alguma participação sua ou de Von Trier nos cortes? Vocês disseram, por exemplo, o que não poderia ficar de fora?
Slot: Não. Os editores fizeram [o corte]. Nós [os produtores] sempre deixamos Lars fazer o que queria. Mas ele sabia que o tema era difícil, por questão de censura. Para financiar um filme assim precisamos assinar contratos dizendo que ele passaria no circuito normal. [O corte] foi uma necessidade, foi o que precisávamos fazer para o filme chegar aos cinemas.

Claudio Pedroso/Agência Foto
Marianne Slot na Mostra Internacional de Cinema de SP

iG: Você chegou a sugerir outra solução a Von Trier, como cortar algumas cenas ou fazer um filme de quatro e não cinco horas, por exemplo?
Slot: Não, nunca colocaria limites. Apoio muito o trabalho autoral e não diria isso a nenhum artista, sobretudo não para Lars, que é um mestre de seu próprio trabalho.

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iG: O filme teve uma campanha de marketing muito forte, digna de blockbuster. Como ela foi planejada e qual a participação de Von Trier?
Slot: Os filmes de Lars são sempre muito aguardados. É preciso algum trabalho [de marketing], mas também é fácil conseguir atenção. A campanha promocional foi preparada por uma empresa especializada na Dinamarca. Foi a maior para um filme dele, ainda que sempre tenhamos esse planejamento. Lars é muito esperto com isso. Ele não cria tudo, mas não fazemos nada que ele não aprove. 

iG: Como é trabalhar com ele?
Slot: Você precisa estar bem acordada e alerta, porque ele é muito afiado. Trabalhamos juntos há 20 anos e é maravilhoso. Ele trabalha sempre com as mesmas pessoas, é muito leal e aberto, dá espaço a todos, confia, ouve o que as pessoas dizem. Ele é um explorador. Ele explora e você vai com ele. Há muitos mal-entendidos sobre Lars e seu jeito de ser. Só posso dizer que você precisa estar alerta para segui-lo.

iG: Houve alguma ocasião em que achou que ele estava indo longe demais?
Slot: Não, nunca. Eu sempre me acho sortuda por poder ser parte do trabalho dele.

iG: No filme sem cortes há uma cena de aborto muito gráfica e difícil de assistir. Qual é o propósito de Von Trier ao mostrar este tipo de cena? Ele gosta de chocar?
Slot: Não. É claro que é muito chocante, mas o objetivo não é chocar. O que Lars sempre faz é ir à essência da questão. No caso, o aborto, como é feito, quem decide, quais são as questões morais, como outras pessoas impõem os limites a você. Ele toca em todas as questões, expõe tudo, vai até o fundo. Sim, é chocante e difícil falar destes assuntos. Mas ele te coloca numa posição em que você realmente vê aquilo e começa a fazer perguntas difíceis.

Divulgação
Lars Von Trier na foto que deu início à campanha de marketing de 'Ninfomaníaca': ele mesmo, de boca fechada

iG: O filme provocou discussão sobre os limites entre pornografia e cinema comercial. Como vê essa questão?
Slot: Muita gente dizia que Lars estava fazendo um filme pornô - era pornografia intelectual, e as pessoas gostam disso porque têm uma desculpa para assistir [risos] Mas na verdade o filme não tem o propósito de ser pornô, ao contrário, não é nada estimulante. Quando fala de sexo e sexualidade, Lars vai até o fim na questão. E acho que hoje chegamos a um ponto em que não há mais limites. Não há limites porque [a sexualidade] não está só no cinema, está em todo lugar: na moda, na propaganda, na internet, onde se tem acesso a coisa muito mais hard core. Então onde está o controle? Qual é o limite? É um debate complexo, mas acho que o mais importante e interessante como artista é explorar completamente o que você quer explicar, dentro da mídia com a qual trabalha.

iG: Há espaço no mercado para um cinema inovador ou transgressor?
Slot: Acredito realmente que as pessoas desejam e precisam de arte. É uma parte importante da vida - para mim, é como comida. É claro que algumas pessoas gostam do que é antigo e seguro, mas muitos querem ser inpirados e desafiados no seu jeito de ver as coisas - mesmo se for de um jeito chocante. Acredito no público e na inteligência das pessoas. Acho que elas querem explorar novas coisas.

Divulgação
Imagem do filme 'Os Idiotas', de Lars von Trier, produzido por Marianne Slot

iG: Você preside um fundo de financiamento para produções internacionais e no Brasil há um debate sobre se o investimento em cinema por parte do governo vale a pena, especialmente se o filme não dá resultado comercial. Como vê essa discussão?
Slot: É claro que o governo deve investir: é sua herança cultural. Num país grande como o Brasil, acredito que existam filmes comerciais capazes de se pagarem sozinhos. Mas é preciso ter diversidade, porque vem daí a renovação e o futuro de qualquer cinema. Para a Dinamarca, por exemplo, é extremamente importante ter um diretor como Lars. É importante para a indústria, mas para o país também. [O cinema] promove o país, cria espaço para ele em outras áreas. Sou grande defensora de fundos para cineastas. Vale todo o dinheiro.

iG: Você produziu muitos filmes dirigidos e/ou protagonizado por mulheres. Acha que a participação feminina na indústria tem melhorado?
Slot: Comecei minha carreira em Paris, sendo mulher, jovem e estrangeira. É uma combinação muito dura: é preciso trabalhar o dobro. Não estou reclamando, mas foi uma luta. Acho que a situação está mudando e vai mudar muito nos próximos anos. Mas, como mulher, sou muito vigilante e preocupada com a posição feminina, especialmente no caso das diretoras, que ainda faltam. Produzo muitos filmes de mulheres, e claro que o primeiro critério é o artista, o talento. Ao mesmo tempo, é preciso se perguntar: de onde começamos? É fácil dizer que os melhores se destacam, mas a verdade é que em comissões e festivais, muitas vezes os homens simplesmente são mais escolhidos. Acho que temos de fazer um esforço, dar mais chance às mulheres. Mesmo que o filme não tenha nos satisfeito completamente, mas se ainda é interessante, explorador, ousado. Em toda seleção há escolhas, e as escolhas podem ser diferentes. 

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