Em entrevista ao iG, Marianne Slot fala da versão sem cortes do polêmico filme e conta como é trabalhar com o diretor dinamarquês: "Ele é um explorador"

Por trás dos filmes polêmicos e sombrios do dinamarquês Lars von Trier há uma mulher animada e sorridente: Marianne Slot produziu desde "Ondas do Destino", de 1995, a "Ninfomaníaca" , o longa mais polêmico de 2014, cuja versão sem censura está na programação da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo .

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Como jurada da Mostra, Slot faz sua primeira visita ao Brasil, um dos países em que "Ninfomaníaca" fez sucesso: foram mais de 250 mil espectadores só para o primeiro longa, recorde de Von Trier no País. Agora, ela espera que o público volte ao cinema para a versão mais longa, sem cortes e, segundo ela, a única que representa a visão do diretor.

"Será possível entender completamente para onde Lars quer ir, a reflexão que faz sobre os temas. Sim, algumas cenas de sexo vão mais longe ou são mais violentas, mas isto não é o principal. O principal é o assunto em si, as discussões mais profundamente exploradas", afirma a produtora, em entrevista ao iG .

Aos 46 anos, a dinamarquesa é presidente do Fundo de Apoio ao Cinema Mundial pelo Centro Nacional do Cinema e da Imagem em Movimento (CNC) da França, e comanda a Slot Machine, produtora que fundou em Paris em 1993. Além de Von Trier, trabalhou com diretores como Susanne Bier, Bent Hamer, Lisandro Alonso e Paz Encina.

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ars von Trier: Sexo, violência e mulheres protagonistas são marca do diretor

Na entrevista a seguir, Slot fala sobre a colaboração com Von Trier e discute os limites da pornografia no cinema comercial, a participação das mulheres na indústria e o espaço para filmes inovadores: "Acredito na inteligência das pessoas."

iG: Por que as pessoas devem ver a cópia sem cortes de "Ninfomaníaca"?
Marianne Slot: Eu chamo [a versão sem cortes] de "o filme", porque este é o filme que Lars fez. O outro é uma versão editada, e mesmo se você gostou dela, será interessante ver a versão mais longa. Será possível entender completamente para onde Lars quer ir, a reflexão que faz sobre os temas. Sim, algumas cenas de sexo vão mais longe ou são mais violentas, mas isto não é o principal. O principal é o assunto em si, as discussões mais profundamente exploradas em cenas que não estão na outra versão, e que são muito importantes. É possível ver a versão editada e depois a completa, mas o contrário não funciona: quem viu sem censura primeiro não acha a edição muito boa.

iG: Houve alguma participação sua ou de Von Trier nos cortes? Vocês disseram, por exemplo, o que não poderia ficar de fora?
Slot: Não. Os editores fizeram [o corte]. Nós [os produtores] sempre deixamos Lars fazer o que queria. Mas ele sabia que o tema era difícil, por questão de censura. Para financiar um filme assim precisamos assinar contratos dizendo que ele passaria no circuito normal. [O corte] foi uma necessidade, foi o que precisávamos fazer para o filme chegar aos cinemas.

Marianne Slot na Mostra Internacional de Cinema de SP
Claudio Pedroso/Agência Foto
Marianne Slot na Mostra Internacional de Cinema de SP

iG: Você chegou a sugerir outra solução a Von Trier, como cortar algumas cenas ou fazer um filme de quatro e não cinco horas, por exemplo?
Slot: Não, nunca colocaria limites. Apoio muito o trabalho autoral e não diria isso a nenhum artista, sobretudo não para Lars, que é um mestre de seu próprio trabalho.

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iG: O filme teve uma campanha de marketing muito forte, digna de blockbuster. Como ela foi planejada e qual a participação de Von Trier?
Slot: Os filmes de Lars são sempre muito aguardados. É preciso algum trabalho [de marketing], mas também é fácil conseguir atenção. A campanha promocional foi preparada por uma empresa especializada na Dinamarca. Foi a maior para um filme dele, ainda que sempre tenhamos esse planejamento. Lars é muito esperto com isso. Ele não cria tudo, mas não fazemos nada que ele não aprove. 

iG: Como é trabalhar com ele?
Slot: Você precisa estar bem acordada e alerta, porque ele é muito afiado. Trabalhamos juntos há 20 anos e é maravilhoso. Ele trabalha sempre com as mesmas pessoas, é muito leal e aberto, dá espaço a todos, confia, ouve o que as pessoas dizem. Ele é um explorador. Ele explora e você vai com ele. Há muitos mal-entendidos sobre Lars e seu jeito de ser. Só posso dizer que você precisa estar alerta para segui-lo.

iG: Houve alguma ocasião em que achou que ele estava indo longe demais?
Slot: Não, nunca. Eu sempre me acho sortuda por poder ser parte do trabalho dele.

iG: No filme sem cortes há uma cena de aborto muito gráfica e difícil de assistir. Qual é o propósito de Von Trier ao mostrar este tipo de cena? Ele gosta de chocar?
Slot: Não. É claro que é muito chocante, mas o objetivo não é chocar. O que Lars sempre faz é ir à essência da questão. No caso, o aborto, como é feito, quem decide, quais são as questões morais, como outras pessoas impõem os limites a você. Ele toca em todas as questões, expõe tudo, vai até o fundo. Sim, é chocante e difícil falar destes assuntos. Mas ele te coloca numa posição em que você realmente vê aquilo e começa a fazer perguntas difíceis.

Lars Von Trier na foto que deu início à campanha de marketing de 'Ninfomaníaca': ele mesmo, de boca fechada
Divulgação
Lars Von Trier na foto que deu início à campanha de marketing de 'Ninfomaníaca': ele mesmo, de boca fechada

iG: O filme provocou discussão sobre os limites entre pornografia e cinema comercial. Como vê essa questão?
Slot:  Muita gente dizia que Lars estava fazendo um filme pornô - era pornografia intelectual, e as pessoas gostam disso porque têm uma desculpa para assistir [risos] Mas na verdade o filme não tem o propósito de ser pornô, ao contrário, não é nada estimulante. Quando fala de sexo e sexualidade, Lars vai até o fim na questão. E acho que hoje chegamos a um ponto em que não há mais limites. Não há limites porque [a sexualidade] não está só no cinema, está em todo lugar: na moda, na propaganda, na internet, onde se tem acesso a coisa muito mais hard core . Então onde está o controle? Qual é o limite? É um debate complexo, mas acho que o mais importante e interessante como artista é explorar completamente o que você quer explicar, dentro da mídia com a qual trabalha.

iG: Há espaço no mercado para um cinema inovador ou transgressor?
Slot : Acredito realmente que as pessoas desejam e precisam de arte. É uma parte importante da vida - para mim, é como comida. É claro que algumas pessoas gostam do que é antigo e seguro, mas muitos querem ser inpirados e desafiados no seu jeito de ver as coisas - mesmo se for de um jeito chocante. Acredito no público e na inteligência das pessoas. Acho que elas querem explorar novas coisas.

Imagem do filme 'Os Idiotas', de Lars von Trier, produzido por Marianne Slot
Divulgação
Imagem do filme 'Os Idiotas', de Lars von Trier, produzido por Marianne Slot

iG: Você preside um fundo de financiamento para produções internacionais e no Brasil há um debate sobre se o investimento em cinema por parte do governo vale a pena, especialmente se o filme não dá resultado comercial. Como vê essa discussão?
Slot: É claro que o governo deve investir: é sua herança cultural. Num país grande como o Brasil, acredito que existam filmes comerciais capazes de se pagarem sozinhos. Mas é preciso ter diversidade, porque vem daí a renovação e o futuro de qualquer cinema. Para a Dinamarca, por exemplo, é extremamente importante ter um diretor como Lars. É importante para a indústria, mas para o país também. [O cinema] promove o país, cria espaço para ele em outras áreas. Sou grande defensora de fundos para cineastas. Vale todo o dinheiro.

iG: Você produziu muitos filmes dirigidos e/ou protagonizado por mulheres. Acha que a participação feminina na indústria tem melhorado?
Slot: Comecei minha carreira em Paris, sendo mulher, jovem e estrangeira. É uma combinação muito dura: é preciso trabalhar o dobro. Não estou reclamando, mas foi uma luta. Acho que a situação está mudando e vai mudar muito nos próximos anos. Mas, como mulher, sou muito vigilante e preocupada com a posição feminina, especialmente no caso das diretoras, que ainda faltam. Produzo muitos filmes de mulheres, e claro que o primeiro critério é o artista, o talento. Ao mesmo tempo, é preciso se perguntar: de onde começamos? É fácil dizer que os melhores se destacam, mas a verdade é que em comissões e festivais, muitas vezes os homens simplesmente são mais escolhidos. Acho que temos de fazer um esforço, dar mais chance às mulheres. Mesmo que o filme não tenha nos satisfeito completamente, mas se ainda é interessante, explorador, ousado. Em toda seleção há escolhas, e as escolhas podem ser diferentes. 

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