Walter Carvalho: "Para fazer cinema é preciso ler Machado de Assis"

Por Luísa Pécora , iG São Paulo | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Diretor de fotografia, um dos principais do País, é tema de mostra no Cine Belas Artes, em SP; leia entrevista ao iG

Um dos principais diretores de fotografia do Brasil, Walter Carvalho é tema de ampla retrospectiva que fica em cartaz até 15 de outubro no Cine Caixa Belas Artes, em São Paulo.

A mostra inclui alguns dos mais de 70 filmes fotografados por Carvalho, além de títulos marcantes de sua carreira como diretor, como "Budapeste", "Janela da Alma", "Cazuza - O Tempo Não Para". Retrata, ainda, a evolução do próprio cinema brasileiro nos últimos 40 anos, período em que Carvalho trabalhou com cineastas tão diferentes quanto Claudio Assis, Julio Bressane, Walter Salles, Ruy Guerra e Karim Aïnouz.

O cineasta e diretor de fotografia Walter Carvalho. Foto: Divulgação'A Febre do Rato' (2012), de Cláudio Assis, tem fotografia de Carvalho. Foto: Divulgação'Heleno' (2011), de José Henrique Fonseca, tem fotografia de Carvalho. Foto: Divulgação'Budapeste' (2009), dirigido por Walter Carvalho. Foto: Divulgação'Cazuza - O Tempo Não Para' (2004), dirigido por Carvalho em parceria com Sandra Werneck. Foto: Divulgação'Carandiru' (2003), de Hector Babenco, tem fotografia de Carvalho. Foto: Divulgação'Abril Despedaçado' (2001), de Walter Salles, tem fotografia de Walter Carvalho. Foto: Divulgação'Madame Satã' (2001), de Karim Aïnouz, tem direção de Carvalho. Foto: Divulgação'Quilombo' (1984), de Cacá Diegues, tem fotografia de Carvalho. Foto: Divulgação

Nascido em João Pessoa (PB), em 1947, Carvalho deve muito de seu interesse por cinema ao irmão, o diretor Vladimir Carvalho. Foi ele quem o levou para o set pela primeira vez, no início da década de 1970, para as filmagens de "O País de São Saruê".

Carvalho se lembra de quando era ainda mais jovem, e olhava com fascínio para um prato de porcelana decorado com uma foto de sua família. "Ficava intrigado em como aquela foto tinha ido parar ali", afirma, em entrevista ao iG. "Acho que essas coisas todas, da infância e da relação com meu irmão, criaram meu interesse por imagem."

Herdeiro do Cinema Novo, Carvalho considera que o período foi responsável pela maior revolução da produção brasileira, que hoje avança pouco em linguagem. "A velocidade com que a tecnologia se modifica faz com que não dê tempo de ela ser testada, desenvolvida", diz. "Na minha cabeça o digital ainda não é uma linguagem, é um sintoma."

Ele também acredita que a formação humana e o diálogo com outras artes - literatura, música, pintura - podem ser mais importantes do que a formação técnica. "A câmera está cheia de botão, de plugues, vem com um manual grosso que explica tudo. Linguagem não tem manual", diz. "Para fazer cinema tem que ler Machado de Assis."

Leia os principais trechos da entrevista:

iG: Como seu irmão o influenciou a fazer cinema e direção de fotografia?
Walter Carvalho: Meu irmão filmava, chegava em casa com equipamento. Eu era bem garoto e ficava escutando os papos dele. Um dia ele me deu um livro com imagens tiradas do filme "O Balão Vermelho" [de Albert Lamorisse, lançado em 1956]. Era lindo, tinha um lirismo incrível, fiquei encantado. Talvez não tenha definido minha vida, mas me estimulou, me deixou inquieto. Depois assisti ao filme, e aquilo bateu ainda mais forte, porque não havia palavras, informação verbal, diálogo. Era uma narrativa imagética. Aí meu irmão me chamou para ajudá-lo a filmar no sertão. Era ajudante mesmo, carregava mala, bateria. Acho que nessa viagem ele introduziu em mim uma substância subcutânea e eu virei dependente de cinema.

Divulgação
Walter Carvalho opera a câmera durante filmagem de 'Entreatos', de João Moreira Salles

iG: Como o cinema brasileiro mudou nestes 40 anos de carreira?
Carvalho: Mudou muito, e está mudando neste momento. Já começou mudando, com "Limite", do Mario Peixoto [lançado em 1931] e até os anos 1950 se modificou muito em função da tecnologia, da descoberta de equipamentos melhores e menores. Nos anos 1960 e 1970, a grande mudança foi de linguagem. O Cinema Novo, para mim, é a grande revolução. De lá para cá, mudou a forma de produção, o modo como esse cinema está contexualizado. O Brasil se plugou no mundo, nos festivais e lançamentos internacionais. Mas nosso cinema avança pouco enquanto linguagem. Avança a passos curtos, porque houve uma mudança radical, sobretudo nos últimos anos, com as novas tecnologias. E elas são fundamentais, revolucionárias em certo sentido, mas trazem um novo problema: a velocidade com que essa tecnologia se modifica faz com que não dê tempo de ela ser testada, desenvolvida. Enquanto estamos conversando, um japonesinho está desenvolvendo um novo chip que vai revolucionar a imagem. Mas ele será velho em pouco tempo. Há processos eletrônicos, digitais, softwares que não chegaram a ser conhecido porque foram superados antes.

iG: O que mudou com a passagem para o cinema digital?
Carvalho: Na minha cabeça o digital ainda não é uma linguagem, é um sintoma. É preciso tempo, como a arte precisa de tempo. Não é possível dizer se o que está sendo feito agora é revolucionário. É preciso que o tempo diga. É como essa quantidade de cantorinhas que aparecem com a mesma velocidade com que desaparecem. É por que cantam mal? Por que são bonitinhas demais? Não, é porque não resistem ao tempo. Não têm substância pra isso. A única coisa que resiste ao tempo é a arte, no sentido de que não morre. Giotto [di Bondone, pintor e arquiteto italiano] não morre, Glauber Rocha não morre...

Divulgação
'Central do Brasil' (1998), de Walter Salles, tem fotografia de Walter Carvalho

iG: Walter Carvalho morre?
Carvalho:
Não tenho como dizer. Fotografei durante 30 anos com película, fiz mais de 50 filmes, mas não conseguir terminar o que queria fazer com ela. Não deu tempo. Eu precisava de mais tempo para mexer com a estrutura molecular, a sensibilidade, a temperatura de cor do filme. Fiz algumas experiências, mas não todas. E hoje não consigo mais fotografar em película. Não vai parar no digital, vai aparecer uma outra história aí. Mas como se renova a cada momento, o sistema volta para a própria cauda e vai se comendo. Daqui a pouco engole a si mesmo.

iG: Faltam bons diretores de fotografia no Brasil? É possível ter boa formação?
Carvalho: Para ser um bom diretor de fotografia é preciso ler Machado de Assis.

iG: Por quê?
Carvalho: Porque a câmera está cheia de botão, de plugues, vem com um manual grosso que explica tudo. Linguagem não tem manual. Linguagem está na cabeça e no coração. É a vida de cada um. Para fazer cinema tem que ler Machado de Assis, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Érico Veríssimo e por aí vai. Tem que ir ao teatro, ler os poetas. É um perigo ler poesia. Você abre um livro e pode mudar sua vida. Sabe o que o manual da câmera vai mudar? Nada. Até porque, se eu não souber como ligar a câmera, ligo para um amigo que sabe, pergunto e o cara diz. Um monte de gente sabe ligar esse negócio.

iG: Você costuma citar escritores e pintores como influências. De que forma as outras artes influenciam seu trabalho no cinema?
Carvalho: Influenciam completamente, sobretudo a pintura. A descoberta da perspectiva está na literatura, na pintura, na música. O [afresco de] Giotto na Capela de Pádua [ou Capela Arena, localizada na cidade italiana] diz tudo sobre montagem, quadro, pictórico, composição, luz, cor, movimento. O que está contado e registrado ali, como imagem, é definitivo. Você não pode ficar desatento a isso. Quando fiz "Filme de Amor", do Júlio Bressane, trabalhei muito em cima do [artista francês] Balthus. Sempre gostei dele, daquela coisa sensual e bonita. Copiei o Balthus inteiro, desenhei quase que página por página. Não é que copiei, mas parti muito mais da pintura do que da própria fotografia. Não estava pensando em que câmera usar e sim na forma, na tridimensionalidade daquilo. Fiz um processo de abstrair pela pintura, não pela técnica de iluminar uma cena.

"A Luz (Imagem) de Walter Carvalho"
Data: 2 a 15 de outubro
Local: Caixa Belas Artes - Rua da Consolação, 2.423, São Paulo (SP)
Entrada: R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)
Informações:  (11) 2894-5781 ou pelo site oficial

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas