Filmes de desastre abordam aquecimento global e levam "cli-fi" a Hollywood

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

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Mais usado na literatura, termo começa a ser aplicado ao cinema após produções como "Noé", "Godzilla" e "No Olho do Tornado"; saiba mais sobre a "ficção climática"

Desastres naturais estão há décadas entre os temas favoritos de Hollywood. Mas uma nova onda de filmes aponta para um gênero em ascensão: o "cli-fi", ou ficção climática, que aborda temas ligados ao aquecimento global.

O termo é mais usado na literatura - aplicado, por exemplo, a "Solar", de Ian McEwan e "Finitude", de Hamish MacDonald. Mas o cli-fi vem aparecendo também nos cinemas, em filmes como "Godzilla", "Noé", "Expresso do Amanhã", "No Olho do Tornado", que  está em cartaz no Brasil, e "Interestelar", com estreia prevista para este ano. 

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'No Olho do Tornado' (2014) cita tragédias naturais como os furacões Katrina e Sandy. Foto: Divulgação'Interstellar' (2014), de Christopher Nolan, ainda não estreou, mas há rumores de que também se encaixa no gênero cli-fi. Foto: DivulgaçãoO novo 'Godzilla' (2014) discute o desequilíbrio ambiental causado pelo homem e o uso de energia nuclear. Foto: DivulgaçãoEm 'Noé' (2014), de forte mensagem ambientalista, só os animais são inocentes no processo de destruição da Terra. Foto: Divulgação'Expresso do Amanhã' (2013) é ambientado em um futuro devastado pelo fracasso de um experimento para impedir o aquecimento global. Foto: Divulgação'O Dia Depois de Amanhã' (2004), de Roland Emmerich, é considerado um dos primeiros exemplos do cli-fi no cinema. Foto: Divulgação

Se não tratam diretamente do aquecimento global, como "O Dia Depois de Amanhã" (2004), todos incorporam algum tipo de mensagem ambientalista e esboçam comentários sobre o impacto da ação do homem na natureza. 

Acredita-se que o termo "cli-fi" tenha sido criado pelo blogueiro ambientalista Dan Bloom em 2008. "Achei que a literatura e os filmes poderiam ajudar a levar mensagens a um grande número de pessoas - e mensagens que fossem emocionais, não tabelas e estatísticas científicas", afirma, em entrevista ao iG.

Mais: "Somos fascinados por coisas que nos assustam", afirma o diretor de "No Olho do Tornado"

Desde então, Bloom vem tentando popularizar a expressão na internet e em Hollywood. Recentemente, conseguiu emplacar um debate sobre o tema no site do jornal norte-americano "The New York Times".

Divulgação
Russel Crowe em 'Noé'

"Embora o termo seja novo e desconhecido para a maior parte das pessoas, ele está pegando aos poucos e a indústria cinematográfica está ouvindo", diz. "É o começo de um novo capítulo. 2014 é o ano do cli-fi em Hollywood."

Cli-fi real

Os acadêmicos são um pouco mais cautelosos, dizendo que poucos filmes além de "O Dia Depois de Amanhã" podem ser considerados cli-fi, e não apenas retratos de desastres.

"A diferença básica entre cli-fi e filmes que apenas dramatizam catástrofes naturais é o potencial de pensarem criticamente sobre a natureza da mudança climática, suas causas e origens", diz Tracey Heatherington, professora do Departamento de Antropologia da Universidade de Milwaukee. "O cli-fi real é a crítica a um sistema que gera desigualdades fundamentals e injustiça ambiental em escala global."

Para o pesquisador Gregers Andersen, que prepara um livro sobre cli-fi após fazer PhD sobre o assunto na Universidade de Copenhagen, até agora a referência ao aquecimento global no cinema tem sido mais simbólica - do Noé vegetariano vivido por Russell Crowe às condições climáticas desiguais para ricos e pobres em "Elysium".

"Os filmes basicamente mostram uma humanidade que precisa desesperadamente mudar seu jeito de viver e pensar", comenta.

"No Olho do Tornado"

As referências sobre o aquecimento global são pontuais em "No Olho do Tornado", filme de Steven Quale sobre uma cidade arrasada por uma série de tempestades. O roteiro sugere que a maior frequência e poder de destruição dos tornados em questão se devem à ação humana, e em uma cena uma meteorologista fala sobre como comportamentos climáticos estranhos vêm se repetindo, citando fenômenos reais como os furacões Katrina e Sandy.

Em entrevista ao iG, Quale afirmou que a ideia era acenar para uma discussão sobre o aquecimento global sem colocá-la no centro do filme. "Não queria ficar batendo o tema na cabeça das pessoas", afirma. "Mas se o assunto está ali ao fundo e você pode apresentá-lo para que as pessoas falem sobre isso, acho que é algo positivo."

Divulgação
Imagem do filme 'No Olho do Tornado'

Para o diretor, o cli-fi tem tudo para dar certo em Hollywood. "Acho que o gênero pegou e que vamos ver muitos mais filmes assim", aposta. "As coisas estão ficando mais intensas e as pessoas gostam disso. Somos fascinados pelo que mais nos assusta."

Política e espetáculo

Para Hollywood, o cli-fi pode representar tanto uma oportunidade quanto um risco. Por um lado, falar sobre o aquecimento global pode afastar parte do público, já que o assunto ainda provoca polêmica e divisão, sobretudo nos Estados Unidos. Por outro, o tema é prato cheio para cenas de ação e o uso de efeitos visuais e 3D, que têm sido apostas dos estúdios.

"Hollywood busca eventos espetaculares porque pode mostrar os recursos que tanta gente espera nos blockbusters", diz Heatherington. "Mas os filmes que focam em grandes efeitos especiais podem nos distrair das evidências mais banais, porém crescentes, que confirmam a mudança nos padrões climáticos. Se esperarmos um cenário como o de 'O Dia Depois de Amanhã', não vamos agir."

Para Andersen, o cli-fi pode ser positivo como "suplemento" aos relatórios científicos, representando possíveis cenários de um futuro com o aquecimento global.

"Ainda achamos extremamente difícil entender o que a mudança climática vai significar", afirma. "O cli-fi pode servir de inspiração ao funcionar como uma espécie de laboratório mental, mostrando novos modelos para as sociedades e os indivíduos."

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