Em "O Homem das Multidões", a solidão vira protagonista

Por Reuters |

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Filme é exibido em uma imagem quadrada, e não retangular, para reproduzir "uma mistura de estéticas do Instagram e de uma polaroide", segundo o diretor

Reuters

Divulgação
Imagem do filme 'O Homem das Multidões'

Baseado em um conto homônimo de Edgar Allan Poe, o filme “O Homem das Multidões” consolida uma parceria entre dois diretores de estilos distintos dentro do cinema brasileiro.

De um lado, está o mineiro Cao Guimarães, com um percurso ligado à videoarte e filmes ensaísticos, como “Acidente” (07), “Andarilho” (07) e “A Alma do Osso” (04). Do outro, o pernambucano Marcelo Gomes, traçando seu caminho sobre filmes calcados na vivência de seus personagens, caso de “Cinema, Aspirinas e Urubus” (05) e “Era Uma Vez Eu, Verônica” (12), sem contar outra parceria, com o cearense Karim Ainouz, no poético “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” (09).

Os dois estilos se complementam à perfeição em “O Homem das Multidões”, que teve sua première mundial na seção Panorama do Festival de Berlim, iniciando ali a circulação por vários outros festivais, como Guadalajara, Toulouse e Rio (dos quais saiu premiado).

Construindo sua narrativa sobre silêncios e imagens, bem mais do que sobre diálogos, o filme arma um enredo em que a solidão é protagonista, a tônica da vida de dois personagens: o condutor de metrô Juvenal (Paulo André, ator do grupo teatral mineiro Galpão) e sua supervisora, Margô (Sílvia Lourenço, de “Contra Todos”).

Juvenal mora sozinho num pequeno apartamento em Belo Horizonte, num ambiente asséptico como um laboratório: poucos móveis, sem enfeites, uma geladeira quase vazia. Fora do trabalho, ele se debate com a insônia, passando as noites olhando a cidade do alto pela varanda, ouvindo rádio e fazendo faxina.

Nenhum amigo, nenhuma namorada, nem mesmo um computador pessoal. Na maior parte do tempo, ele fala mesmo sozinho. Eventualmente, procura a companhia de uma prostituta.

No trabalho, Margô é praticamente sua única amiga. Embora ela seja aparentemente mais falante e sociável, ambos são solitários, cada um à sua maneira.

As relações de Margô são praticamente todas virtuais, exceto o pai (Jean-Claude Bernardet), com quem ela ainda mora. Até o noivo ela conheceu num chat na Internet. Seus “animais de estimação” são peixes digitais, que ela “alimenta” na tela do computador.

Telas de computador, linhas de metrô e seus trens, ruas, prédios e carros formam o cenário urbano deste filme, que usa uma janela atípica, quadrada ao invés da convencional, alongada, reproduzindo, na descrição do diretor Marcelo Gomes “uma mistura de estéticas do Instagram e de uma polaroide”.

O formato causa uma certa estranheza inicial ao espectador, mas também concentra o foco do olhar no cotidiano miúdo destes poucos personagens. No fim, “O Homem das Multidões” é um filme de sensações, que anseia por criar uma cumplicidade com o público a partir de uma esfera dramatúrgica bem minimalista.

A saber: Margô vai se casar e quer que Juvenal seja o padrinho; ele hesita. Há muito de não-dito neste afeto entre os dois, que se expressa por olhares, por falas aparentemente sem muita força, mas que mantém aceso um compartilhamento de sensações e sentimentos. A tecnologia muda mais do que a natureza humana, é o que o filme parece dizer.

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