Sucesso em Hollywood, Carlos Saldanha diz que ser estrangeiro é "desafio a mais"

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

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Diretor fala ao iG sobre "Rio 2" e o bom momento da animação nacional: "Falta mais incentivo, investimento e confiança"

Quando lançou "Rio 2" nos cinemas, o diretor Carlos Saldanha sabia que a pressão para ao menos igualar o sucesso do primeiro filme era grande. Se a crítica reagiu com menos entusiasmo, a venda de ingressos não decepcionou: a sequência superou a bilheteria do original, arrecadando quase US$ 490 milhões (R$ 1 bilhão) pelo mundo.

O faturamento deve aumentar a partir desta quarta-feira (23), quando a segunda aventura do pássaro Blu chega às lojas do Brasil em formato DVD e Blu-ray, com mais de uma hora de extras. Os lucros já motivam negociações sobre um possível terceiro longa, que esbarra na movimentada carreira de Saldanha, um dos brasileiros mais bem-sucedidos em Hollywood.

Imagem do filme 'Rio 2'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Rio 2'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Rio 2'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Rio 2'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Rio 2'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Rio 2'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Rio 2'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Rio 2'. Foto: Divulgação

Membro do prestigiado estúdio de animação Blue Sky Studios, responsável por filmes como "A Era do Gelo" e "Robôs", Saldanha, 49 anos, será o diretor de "Story of Ferdinand", adaptação para o cinema de um popular livro infantil do norte-americano Munro Leaf sobre um touro que prefere flores a touradas.

O diretor também se prepara para o lançamento de "Rio, Eu Te Amo", em setembro, no qual deixa a animação de lado para contar a história de amor de dois bailarinos, interpretados por Rodrigo Santoro e Bruna Linzmeyer.

Mais: Pelo segundo ano consecutivo, Brasil é premiado em maior festival de animação

Na entrevista a seguir, Saldanha fala sobre os desafios de recriar a Floresta Amazônica, cenário de "Rio 2", e comenta o bom momento da animação brasileira, premiada nas duas últimas edições do Festival de Annecy, na França, com "Uma História de Amor e Fúria", de Luiz Bolognesi, e "O Menino e o Mundo", de Alê Abreu.

iG: "Rio 2" deixa a capital carioca e leva Blu e sua família para a Amazônia. Como foi recriar a floresta usando a animação?
Carlos Saldanha: No primeiro filme, levei a equipe [do Blue Sky Studios] para o Rio de Janeiro, porque ninguém conhecia o Brasil. Agora foi a minha vez de vir conhecer o País para poder fazer o trabalho. Tinha o sonho ir à Amazônia, e fui um pouco como o Blu: levei minha família comigo. Foi muito inspirador estar em um lugar que, como o Rio de Janeiro, é um símbolo muito forte do Brasil, uma área incrível, única. Com isso vieram os desafios, não só a criação de uma boa história, mas a tarefa de recriar o mundo da floresta. No primeiro filme, grande parte da animação foi feita a partir da reconstituição de prédios, avenidas. É um pouco mais simples do que recriar natureza.

AgNews
Carlos Saldanha, diretor de 'Rio 2'

iG: Se sentiu pressionado a repetir o sucesso do filme anterior?
Saldanha: Pressão sempre existe, em todo filme. No primeiro a pressão era forte também, porque ninguém conhecia, ninguém sabia o que era Rio de Janeiro. Não tínhamos a certeza de que ia dar certo. Depois que [o primeiro filme] faz sucesso, pensei que a pressão fosse diminuir, mas aumentou, porque o segundo tinha de fazer sucesso também. E é preciso criar personagens novos, incluir os antigos...sempre tem pressão. Não existe filme fácil.

iG: A música é parte fundamental de "Rio". Você se envolve neste processo?
Saldanha: Me envolvo completamente. Não toco nenhum instrumento, mas me envolvo muito para encontrar formas de a música se conectar à história. Musicalmente, este filme é mais complexo. No primeiro focamos em samba, bossa nova e funk. No segundo, quis espalhar um pouco mais, criar uma brasilidade maior, com carimbó, maracatu, crianda. Tive mais liberdade para usar diferentes grupos e ritmos, e trabalhei bastante com o Sérgio Mendes e o Carlinhos Brown para criar uma linguagem musical mais brasileira.

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iG: Sente uma responsabilidade de retratar a cultura do Brasil e fugir de estereótipos?
Saldanha: Mesmo morando fora, sempre gostei muito de falar do Brasil. Sou genuinamente apaixonado pelo Rio, tenho muito carinho, uma conexão muito forte com o País, e sempre quis transformá-lo em inspiração. Ficava frustrado em ver a falta de percepção, de noção do que é o Brasil. Claro que é preciso mostrar as coisas clássicas brasileiras, mas temos de ir um pouco além. Como o filme alcança principalmente crianças e famílias, quis dar uma noção [do que é o Brasil]. Não é um documentário, mas criar curiosidade já é uma grande coisa. 

iG: Sente que a abertura de Hollywood a artistas brasileiros vem aumentando?
Saldanha: Acho que os Estados Unidos dão muito valor ao talento, à qualidade, independentemente da nacionalidade. Ser estrangeiro é um desafio a mais, mas não torna as coisas impossíveis. Os talentos que estão no exterior chegaram lá por méritos próprios. Ser brasileiro não influencia em nada. Eles são bem-vistos pelo trabalho que fazem, e isso é muito legal. Há respeito e admiração pelo talento internacional.

Divulgação
Imagem do segmento do filme 'Rio, Eu Te Amo' dirigido por Carlos Saldanha; filme reúne vários cineastas

iG: Duas animações brasileiras receberam prêmios importantes recentemente e se fala muito de um "boom" do gênero no Brasil. Como vê este momento?
Saldanha: Acho muito legal e gratificante ver que os longas estão sendo feitos e, apesar de independentes, estão tendo respeito e projeção mundial. Isto dá um incentivo para que outros sejam feitos. O que não existe no Brasil é continuidade, não há vários filmes acontecendo ao mesmo tempo. Mas estes projetos incentivam outras pessoas a correr atrás. São filmes bem feitos, bonitos. Eu estava em Annecy quando "O Menino e o Mundo" foi premiado e todos comentavam sobre ele. Quem sabe vai dali para o Oscar? Acho que tudo isso ajuda a criar vontade, a deixar as pessoas motivadas.

iG: O que falta para o gênero ganhar força no Brasil?
Saldanha: Falta incentivo, um investimento e uma confiança maiores. A produção ainda é muito independente, isolada. Nos Estados Unidos é uma continuidade, uma indústria, você pula de um filme para o outro. Aqui a produção é muito individual, autoral, artística, o que é legal, mas ainda limitada. É o princípio, é válido. Não dá para comparar com os EUA.

iG: Como foi a experiência de filmar "Rio, Eu Te Amo", no Brasil, em português e saindo do formato animação?
Saldanha: Foi muito legal e bem mais tranquilo. Animação é muito mais complexo, o processo é longo e tem várias etapas, tudo demora. A equipe do "Rio, Eu Te Amo" foi incrível.

iG: Pensa em dar continuidade à franquia "Rio"?
Saldanha: O segundo filme superou a bilheteria do primeiro, então a tendência natural é que as pessoas queiram mais. Estamos conversando, mas o problema maior é a logística, por já estou em outro projeto ["Story of Ferdinand"]. Não decidimos quando fazer, em que lugar, qual a ideia. Não decidimos nada ainda.

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