Iraniano Jafar Panahi resiste à proibição de filmar em “Cortinas Fechadas”

Por Reuters |

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Banido do cinema por 20 anos, diretor filma em sua própria casa história de duas pessoas que precisam se esconder

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De várias maneiras, o docudrama "Cortinas Fechadas”, que estreia em São Paulo, dá sequência a “Isto Não é um Filme” (2011), aquela que foi a primeira investida cinematográfica do cineasta iraniano Jafar Panahi depois de sua condenação a uma inimaginável proibição de filmar por 20 anos, além da prisão domiciliar por outros seis, imposta em 2010.

Ainda que reduzido, como ele mesmo disse, a um “mundo de melancolia” – numa desafiadora manifestação enviada via Skype ao Festival de Karlovy Vary, em julho de 2013 -, na prática Panahi, sempre em parceria com algum colega corajoso, tem dado um jeito de continuar ativo. Invariavelmente, seus parceiros são punidos.

Cena de 'Cortinas Fechadas', de Jafar Panahi. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Cortinas Fechadas'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Cortinas Fechadas'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Cortinas Fechadas'. Foto: Divulgação

O co-diretor de “Cortinas Fechadas”, Kamboziya Partovi e a atriz Maryam Moghadam, ambos intérpretes no filme, tiveram seus passaportes cassados pelo governo iraniano assim que voltaram do Festival de Berlim, em 2013, que acabara de conceder à obra um prêmio de melhor roteiro.

Autor de uma cinematografia de crítica e reflexão, em que se destaca “O Círculo”, Leão de Ouro em Veneza 2000, e agora também engajada numa desobediência civil, Panahi assina o roteiro de um relato centrado na falta de liberdade.

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A história começa com a chegada de um roteirista (Partovi) a uma casa próxima de uma praia. Ao entrar, ele se apressa em fechar todas as cortinas e trancar as portas. De uma maleta, retira um cachorro, animal que é alvo de perseguições no Irã, por ser supostamente “imundo”.

Veja o trailer de "Cortinas Fechadas":

Com a única companhia desse cão, que se preocupa em esconder, o escritor tenta concluir uma obra. Sons externos introduzem um clima de agitação e perseguição. E a casa é misteriosamente invadida por um casal jovem, que se diz perseguido político. O rapaz logo parte, mas a moça (Moghadam) fica, um tanto contra a vontade do escritor.

Entre os dois desenvolve-se uma relação tensa, conflituosa, que remete a um contexto mais abstrato. O próprio Panahi acaba aparecendo em cena e a narrativa assume um aspecto cada vez mais metafórico.

“Cortinas Fechadas” é um filme sobre fazer um filme, sobre artifício e aparência, sobre uma representação que se arma e desarma. Em última análise, sobre pessoas que se valem de todas as armas para continuarem se expressando.

É visível, até pelo semblante de Panahi, que ele está mais triste, mais tenso. Mas é uma amargura que se debate, mesmo diante das câmeras, como afirmando: “Vocês me proíbem, mas eu falo, de algum modo eu falo. Alguma coisa eu consigo falar”.

E neste embate em que festivais do mundo inteiro pedem a suspensão da arbitrária punição de Panahi, o público não tem muito mais a fazer do que participar ativamente desta cerimônia que se recusa a permanecer secreta, atravessando os continentes.

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