Com o filme "Jersey Boys", Clint Eastwood leva sucesso da Broadway ao cinema

Por Luísa Pécora , iG São Paulo | - Atualizada às

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Musical narra a trajetória de Frankie Valli and The Four Seasons, sucesso do soul norte-americano nos anos 1960

É ao mesmo tempo surpreendente e comprensível que Clint Eastwood, 84 anos, tenha decidido dirigir "Jersey Boys: Em Busca da Música", filme que estreia nesta quinta-feira (26) e leva ao cinema o musical da Broadway sobre Frankie Valli e a banda Four Seasons.

Surpreendente porque Eastwood, ícone de faroestes e filmes policiais, não é o primeiro nome que vem à mente quando se fala em musical. Mas compreensível porque, desde que redefiniu a imagem de ator machão e se transformou em um respeitado diretor de dramas emocionais, Clint deixou claro que gosta de fazer o que não se espera dele.

Veja também: Os números de "Jersey Boys: Em Busca da Música"

Imagem do filme 'Jersey Boys', de Clint Eastwood. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Jersey Boys: Em Busca da Música'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Jersey Boys: Em Busca da Música'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Jersey Boys: Em Busca da Música'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Jersey Boys: Em Busca da Música'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Jersey Boys: Em Busca da Música'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Jersey Boys: Em Busca da Música'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Jersey Boys: Em Busca da Música'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Jersey Boys: Em Busca da Música'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Jersey Boys: Em Busca da Música'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Jersey Boys: Em Busca da Música'. Foto: Divulgação

Desde 2003, quando inaugurou a nova fase da carreira com "Sobre Meninos e Lobos", o diretor ganhou o Oscar pelo sensível "Menina de Ouro"; lançou, em pequeno intervalo, dois filmes sobre o mesmo tema ("A Conquista da Honra" e "Cartas de Iwo Jima"), um deles falado em japonês; atingiu o recorde de bilheteria da carreira aos 78 anos com "Gran Torino"; e mostrou seu lado espiritual em "Além da Vida".

Eastwood já dirigiu outros filmes marcados pela música - "Perversa Paixão" (1971), "Honkytonk Man" (1982) e "Bird" (1988) são alguns exemplos -, mas "Jersey Boys" é seu primeiro musical de fato, uma celebração à carreira de uma das bandas norte-americanas de maior sucesso nos anos 1960, com hits como "Sherry", "Big Girls Don't Cry" e "Walk Like a Man".

Reprodução
Frankie Valli e the Four Seasons são tema de 'Jersey Boys'

A história começa em 1951, quando Tommy DeVito (Vincent Piazza), Nick Massi (Michael Lomenda), Bob Gaudio (Erich Bergen) e Frankie Valli (John Lloyd Young) são jovens moradores de uma Nova Jersey marcada pela atuação da máfia, e termina em 1990, vinte anos após o fim da formação original, quando os quatro são homenageados pelo Rock and Roll Hall of Fame.

Foi a trajetória de transformação que atraiu Eastwood: como jovens criados em um ambiente difícil, que faziam pequenos trabalhos para a máfia e chegaram a ser presos, se transformaram em estrelas. E como, mesmo famosos, permaneceram ligados às regras e relações do antigo bairro.

Neste sentido, "Jersey Boys" aborda muitos dos temas que marcam a obra de Eastwood, como a perda da inocência e o impacto do passado no presente. O filme também carrega as marcas de estilo do diretor: ritmo lento, bom desenvolvimento de personagens, cor acinzentada e cenas escuras que nunca se revelam por inteiro.

Veja o trailer de "Jersey Boys: Em Busca da Música":

Como a maior parte dos números musicais acontece no palco, mesmo quem não é fã de musicais pode gostar de "Jersey Boys": não há falas cantadas nem cenas excessivamente teatrais. Por outro lado, são os personagens quem contam a história do grupo, muitas vezes olhando diretamente para a câmera, como se falassem com o espectador.

O recurso causa incômodo e culmina em um final desastroso, com muita verbalização do que poderia ser mostrado ou mesmo subentendido, algo surpreendente em se tratando de um mestre da síntese narrativa como Eastwood. "Jersey Boys" peca pela irregularidade: alterna cenas boas e ruins a todo momento, sobretudo porque tenta ser vários gêneros em um só.

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No início, Eastwood se divide entre um filme de máfia e o musical que retrata a ascensão do Four Seasons. Mais para o fim, revelam-se os problemas trazidos pelo estrelato: brigas entre integrantes, problemas de dinheiro, mulheres traídas, filhos deixados em casa.

Esperava-se que Eastwood se saísse bem especialmente nesta última parte, mas é justamente nela que o diretor derrapa, nunca chegando provocar a emoção de filmes como "Menina de Ouro" e "Além da Vida". Aqui, o drama familiar é retratado em cenas rasas, apressadas e quase desnecessárias.

Getty Images
Christopher Walken e Clint Eastwood na estreia de 'Jersey Boys'


"Jersey Boys" funciona melhor, e muito bem, quando se distancia do peso emocional. Salvo pelo terço final, o filme é leve e bem-humorado, com direito a uma engraçada "cameo" do próprio Eastwood em uma cena de "Rawhide", o seriado que o revelou a Hollywood. Fazia tempo que Clint não se mostrava tão "light", e é bom vê-lo se divertindo.

O humor também se deve a Christopher Walken, que engrandece o filme a cada aparição como chefe da máfia e dá peso a um elenco de jovens atores da Broadway que se sai melhor cantando do que atuando. No papel de Valli, Lloyd Young só impressiona no palco, imitando o marcante falsete do cantor de "Can't Take My Eyes Off Of You".

No saldo final, a maior qualidade de "Jersey Boys" é manter a suavidade e a leveza das canções do Four Seasons, evitando os excessos de outros musicais. "Dreamgirls", por exemplo, foi sucesso de bilheteria e recebeu indicações ao Oscar, mas reduziu as deliciosas canções da Motown a um festival de gritos. Clint pode não ser um grande diretor de musicais, mas sabe honrar o material.

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