Jake Gyllenhaal protagoniza "O Homem Duplicado", baseado em livro de Saramago

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Adaptação para os cinemas foi dirigida por Denis Villeneuve e se passa em Toronto, no Canadá

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Um plano geral de um horizonte não muito definido de Toronto. Um telefonema de uma mãe preocupada, enquanto o filho está pensativo dentro de um carro estacionado. Uma mulher grávida seminua espera sentada em uma cama. Uma frase enigmática. Um homem adentra uma sala, algo como uma boate de luxo secreta, em que outros “machos” observam as performances sensuais femininas e as tarântulas.

Cenas de O 'Homem Duplicado', adaptação de Saramago. Foto: DivulgaçãoCenas de O 'Homem Duplicado', adaptação de Saramago. Foto: DivulgaçãoCenas de O 'Homem Duplicado', adaptação de Saramago. Foto: DivulgaçãoCenas de O 'Homem Duplicado', adaptação de Saramago. Foto: DivulgaçãoCenas de O 'Homem Duplicado', adaptação de Saramago. Foto: Divulgação

Assim é o início caótico de “O Homem Duplicado” (2013), livre adaptação cinematográfica, porém, não menos respeitosa, do livro homônimo de José Saramago, realizada por Denis Villeneuve.

Do mesmo modo que o autor português logo avisou que sua obra literária não era uma ficção científica, o cineasta do Canadá apresenta ao espectador seu thriller essencialmente psicológico, mas como algo bem longe do comum.

O diretor, que ganhou reconhecimento após “Incêndios” (2010), indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e o hollywoodiano “Os Suspeitos” (2013), exercita uma construção fílmica mais baseada em simbologias do que em grandes ações propriamente ditas, nesta coprodução hispano-canadense.

Permanece a história do entediado professor de História que um dia vê um tipo igual a ele em um filme e se lança a uma investigação desenfreada sobre o ator de terceira categoria, desencadeando uma série de mudanças nas vidas deles.

No entanto, há muitas mudanças em relação ao material original. Algumas alterações eram necessárias, a exemplo da tradução de nomes do português para o inglês, pois não havia como o docente permanecer como “Tertuliano Máximo Afonso” em pleno Canadá.

Na tela, ele se chama Adam Bell e seu duplo, o intérprete Anthony Claire, tem como pseudônimo de trabalho Daniel Saint-Claire (ambos vividos por Jake Gyllenhaal), junto à namorada do primeiro, Mary (Mélanie Laurent), e à esposa do segundo, Helen (Sarah Gadon).

Também era preciso adaptar-se aos novos tempos, já que, no livro de 2002, um procura o outro assistindo várias fitas VHS que, mais de dez anos depois no cinema, dão lugar ao DVD, ao notebook e à busca no Google.

Contudo, além de outros ajustes, o roteiro do espanhol Javier Gullón, de “El Rey de la Montaña” (2007) e “Invasor” (2012), introduz novos elementos de caráter referencial ou simbólico na teia do filme.

Durante uma sequência inicial que mostra a rotina de Adam praticamente em “looping”, o professor fala algumas vezes, a vários alunos que não prestam atenção, sobre um ciclo histórico que se reproduz, citando até conceitos de Hegel e Marx sobre a repetição de grandes eventos.

Talvez até tomando essa ideia do padrão que se repete, seja justificada a opção de Helen estar grávida, como se simbolizasse o reinício de um ciclo.

É apenas uma das adições feitas aos significados da história que o livro traz. Saramago queria falar da perda da identidade em um mundo globalizado que pasteuriza a todos, ao mesmo tempo em que exige individualidade.

Villeneuve mantém a importância do discurso de que existem muitas personas dentro de um único indivíduo, advindo da própria ideia do “doppelganger” – figura lendária germânica que assume as mesmas características de alguém, segundo alguns, como sinal de mau agouro, ou para outros, como uma versão mais negativa do “copiado” –, e que há sempre no ser humano o desejo de ser outra pessoa.

A bela fotografia de Nicolas Bolduc, de “A Feiticeira da Guerra” (2012), com iluminação bem amarelada demonstra isso, já que a cor, além de ser considerada símbolo de alegria, também representa o poder, a ira e a inveja, por exemplo.

O contraste entre tons pastéis e escuros visto na paleta de cores da produção também marca tal dualidade. Entretanto, ao entrar nesta questão, é impossível não notar o bom trabalho de Jake Gyllenhaal ao imprimir uma personalidade a cada um dos dois tipos, igualmente diferentes na sua maneira de lidar com uma inusitada situação, que mostra o quanto estão ligados um ao outro.

Uma dessas conexões diz respeito aos seus impulsos sexuais, que os impelem a cruzar o caminho de seu semelhante. É uma das razões que poderiam explicar a inserção das aranhas, na pitada surreal que o cineasta dá à obra. Seria uma metáfora à sexualidade feminina que os encanta e os assusta, tendo em vista os dois protagonistas como representação de todos os homens?

Além do viés da sexualidade e da perda de identidade, acentuados pela utilização da figura da chave como indício de que o longa abrirá a mente de seu(s) personagem(ns), outros caminhos podem ser traçados.

Os planos de prédios bege-acinzentados, de arquitetura muito semelhantes entre si, apresentam uma sufocante Toronto sob a névoa – sensação acentuada pela trilha sonora de Danny Bensi e Saunder Jurriaans, dupla de “Martha Marcy May Marlene” (2011), que, apesar dos excessos em alguns momentos, é eficiente ao criar a tensão necessária ao thriller.

Estaria a “cidade” sob algum controle ditatorial, prenunciando a urgência de mudanças que retirassem a sociedade de um ciclo contínuo de protótipos a serem reproduzidos?

Ou será que tudo não passa de uma fábula usada para Villeneuve falar do próprio cinema, aludindo a um cineasta que tenta assumir outra identidade para fugir do “padrão que se repete” ou da lógica do “pão e circo” comentada por Adam?

Por isso, assim como o epílogo do livro, apresentado no começo do filme, fala que “o caos é uma ordem por decifrar”, “O Homem Duplicado” é uma obra que, inevitavelmente, clama por explicações ao seu final. Dependerá muito do espectador se ele estará disposto a decifrar este caos ou se preferirá deixá-lo como está.

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