"Tive a sensação de enterrar meu pai", diz filho de Tim Lopes sobre documentário

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

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Ao iG, Bruno Quintella fala sobre "Tim Lopes - Histórias de Arcanjo", filme em cartaz no Brasil que narra a trajetória do jornalista assassinado por traficantes em 2002

Junho é um mês difícil para o jornalista Bruno Quintella desde 2002, quando seu pai, o também repórter Tim Lopes, foi sequestrado e morto por traficantes cariocas. Este ano, dois motivos tornam a saudade maior do que nunca: como em 2002, estamos às vésperas da Copa do Mundo; e nesta semana Quintella lança "Tim Lopes - Histórias de Arcanjo", documentário realizado em parceria com o diretor Guilherme Azevedo.

"Tem sido bem complicado, mas, ao mesmo tempo, libertador", define Quintella, em entrevista ao iG. Roteirista do documentário, ele tinha a intenção de celebrar a vida de um jornalista que ficou conhecido pela morte. "Meu pai vivia sorrindo, era de bem com a vida, vascaíno, adorava carnaval, torcia pela Mangueira. Sempre achei uma injustiça ele ter ficado estigmatizado como o repórter que morreu torturado."

Bruno Quintella em cena do filme 'Tim Lopes - Histórias de Arcanjo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Tim Lopes - Histórias de Arcanjo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Tim Lopes - Histórias de Arcanjo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Tim Lopes - Histórias de Arcanjo'. Foto: DivulgaçãoO diretor Guilherme Azevedo. Foto: Divulgação

A ideia de fazer um filme sobre Tim Lopes foi de Azevedo, que era repórter cinematográfico e trabalhara com ele na Rede Globo. Em 2004, quando Quintella também entrou na emissora, os dois se encontraram nos corredores e Azevedo fez a proposta. Quintela gostou, mas achava cedo demais para "remexer a história". Cinco anos depois, topou.

O documentário narra a trajetória de Lopes desde a infância no Rio Grande do Sul, resgata sua passagem pelo jornalismo impresso, mostra bastidores e personagens de suas principais reportagens e aborda as circunstâncias de sua execução, enquanto fazia reportagem sobre abusos sexuais em bailes funks cariocas.

O "Arcanjo" do título indica a intenção de fazer um retrato pessoal que vá além do jornalista: Arcanjo Antonino Lopes do Nascimento era o nome de batismo de Tim Lopes, que recebeu o apelido pela semelhança com o cantor Tim Maia.

Divulgação
Bruno Quintella, filho de Tim Lopes (Foto: Mauren McGee)

Além de roteirista, é Quintela quem conduz as entrevistas e visita os principais lugares pelos quais o pai passou. "É um filme que só eu posso fazer. Busquei tentar descobrir o jornalista, com quem tinha pouco contato, através do pai", afirma.

"Enterrando meu pai"

Lopes desapareceu dez dias antes do aniversário de 20 anos do filho, que na época se preparava para prestar vestibular para jornalismo. O pai planejava um churrasco e disse que pagaria a carne, mas deixaria a cerveja por conta dos amigos.

Quintella realizou a festa mesmo em meio à tristeza. "Sabia que, vivo ou não, ele não ia querer me ver para baixo."

Quando a morte de Lopes foi confirmada, em 5 de julho, Quintella participou apenas de uma cerimônia em sua homenagem. Não compareceu ao enterro e até hoje nunca foi ao cemitério. Mas durante as filmagens, ao visitar o descampado onde o pai foi torturado e morto no Complexo do Alemão, sentiu que encerrava uma etapa.

"Tive a sensação de estar enterrando meu pai", afirma. "Foi um momento de catarse, de sentar um pouco, fazer orações, pensar no meu pai e nos momentos que tive com ele na infância. Mexeu muito comigo, mas não tive medo."

Reprodução
Tim Lopes foi morto em junho de 2002 na Favela da Grota, no Complexo do Alemão

As filmagens na Vila Cruzeiro, onde Lopes foi capturado, foram mais tensas. "Senti um clima diferente, as pessoas não queriam falar...era estranho voltar com uma câmera no lugar em que meu pai foi morto por causa de uma câmera."

Coragem social

A tragédia não fez com que Quintella hesitasse em seguir a carreira de jornalista. "Ao contrário, só me deixou com mais vontade", afirma.

"Aquilo foi uma tentativa de calar a imprensa, de dar um recado que estão dando até hoje, não só os traficantes mas também a polícia. Santiago Andrade [jornalista que teve morte cerebral após ser atingido por um rojão em protesto no Rio, em fevereiro de 2014] morreu com bomba na cara, eu mesmo fui ameaçado e xingado cobrindo as manifestações do ano passado. O jornalista ainda está desprotegido."

Com planos de continuar fazendo cinema, Quintella diz que o documentário lhe ensinou que o jornalismo investigativo não se limita à cobertura policial.

"Meu pai fazia um jornalismo social, fazia algo que não vejo muito hoje, que é contar em primeira pessoa, sentir na pele a história do outro. Ele dormia com moradores de rua, se internava em clínicas clandestinas para denunciar maus-tratos, mostrava as condições de trabalho dos operários do metrô", afirma. "Tudo isto também era arriscado. Ele não deixava de ser destemido porque não estava entre traficantes. Era uma coragem social."

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