Cineasta Karim Aïnouz: "Por que uma pessoa beijar outra é algo polêmico?"

Por Luísa Pécora , iG São Paulo | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Em entrevista ao iG, diretor de "Praia do Futuro" destaca importância do homossexualismo na trama do filme: "É importante e bonito falar disso no cinema"

Os atores Wagner Moura, Jesuíta Barbosa e Clemens Schick têm se esforçado para impedir que o rótulo de "filme gay" seja dado a "Praia do Futuro", longa sobre um salva-vidas que deixa a família no Brasil para viver um romance homossexual em Berlim. No início do mês, em entrevista coletiva em São Paulo, se incomodaram com questões sobre a preparação para viverem gays e as vantagens e desvantagens de um ator se assumir. 

Cenas do filme . Foto: Divulgação / California FilmesCenas do filme "Praia do Futuro". Foto: Divulgação / California FilmesCenas do filme . Foto: Divulgação / California FilmesCenas do filme "Praia do Futuro". Foto: Divulgação / California FilmesCenas do filme "Praia do Futuro". Foto: Divulgação / California FilmesCenas do filme "Praia do Futuro". Foto: Divulgação / California FilmesCenas do filme "Praia do Futuro". Foto: Divulgação / California FilmesCenas do filme "Praia do Futuro". Foto: Divulgação / California Filmes

Crítica: Inspirado em Bowie, "Praia do Futuro" tem Wagner Moura como herói humano
Entrevista: "É mais do que o filme do cara gay", diz Wagner Moura

Como as perguntas tinham sido direcionadas ao elenco, o diretor Karim Aïnouz preferiu não interferir. Mas depois, em entrevista ao iG, deixou claro que o homossexualismo é ponto fundamental, e não um detalhe de "Praia do Futuro". "O cara não teria sumido desse jeito se não fosse gay. Nem teria sentido existir este filme se ele fosse hétero", diz o diretor. "A gente vive no país que mais mata gays no mundo. Não é que a gente vive num momento do pós-gay, entendeu? É um assunto seríssimo, que causa suicídio. Acho importante e bonito falar disso."

Para o diretor, o que incomoda não é o rótulo de filme gay, mas a ideia de que exista uma polêmica em torno do filme. "Polêmica é o (presidente Bashar al) Assad não sair do poder na Síria. Por que uma pessoa beijar outra é polêmico? Por que isso incomoda?"

Thiago Duran/AgNews
Karim Aïnouz lança 'Praia do Futuro' em São Paulo (10/05/2014)

Leia também: "Redes sociais são 'Caras' autoeditada", diz Wagner Moura

Aos 48 anos, Aïnouz, que nasceu em Fortaleza, se divide entre o Brasil e a Europa. Na entrevista a seguir, fala sobre a vontade de contar uma história de super-herói, diz ser um diretor intuitivo e declara sua confiança no poder do cinema, mesmo que às vezes seja difícil chegar ao público. "Cada filme é um desafio, mas acho que está tudo bem."

iG: O filme foi inspirado em "Heroes", de David Bowie, e mostra um herói que falha logo no início. Houve alguma vontade de brincar com os filmes de super-herói?
Karim Aïnouz: Completamente. O cinema do mundo é muito pautado pelos estúdios norte-americanos, e neste filme quis conversar com isto. Tinha vontade de me apropriar de gêneros diferentes, de entrar num território do risco, de sair um pouco do universo naturalista e flertar com o melodrama, o filme de ação. Não é um território só deles, a gente também sabe fazer. Mas queria fazer o herói de carne e osso, que já na largada tivesse esta falha. É bacana quando o herói tem medo, quando não tem apenas poderes. O Felipe (Bragança, co-roteirista) foi bacana neste sentido, porque eu tinha uma rechaça a essas categorias. Ver os filmes do Christopher Nolan e o Heath Ledger como Coringa foi importante.

iG: "Praia do Futuro" não é apenas sobre ser gay, assim como "Tatuagem" ou "Azul é a Cor Mais Quente", mas...
Aïnouz: (Interrompendo) Mas é também. Esse menino foi embora - aliás, não foi embora, sumiu - porque ficava olhando o mar e imaginando o que tinha do outro lado, mas também porque tinha vergonha. O irmão fala que ele foi dar o cu escondido no Pólo Norte, e ele foi dar o cu escondido no Pólo Norte, sim. O cara não teria sumido desse jeito se não fosse gay. Nem teria sentido existir este filme se ele fosse hétero. O que acho bonito, o que me emociona muito, é que metade do filme é sobre um cara que teve medo, mas oito anos depois o medo dele não faz sentido para o irmão. Tanto faz se ele foi dar o cu ou não, ele não precisava ter se escondido. O que isto foi para um personagem não é para o outro. Então o filme fala sobre o que aconteceu nos últimos dez anos, que foram importantíssimos. Mas há coisas horrorosas ainda. A gente vive no país que mais mata gays no mundo. Não é que a gente vive um momento do pós-gay, entendeu? Talvez em Nova York ou não sei onde, mas aqui não vive. É um assunto seríssimo, que causa suicídio na infância, na terceira idade. Acho importante e bonito falar disto.

iG: De forma natural, sem estereótipos.
Aïnouz: Me interessava fazer o que "Brokeback Mountain" fez: mostrar que veado não é quem fica comendo criancinha. (Ser gay) Não é mole, não, é barra pesada. Acho que tem efeitos muito sérios nas pessoas e é importante viver o que esse cara viveu, sentir a dor e a vergonha dele. É bonito falar disto no cinema. Por que não? Este assunto fica complicado quando é só isso. É chato quando vira polêmica. Polêmica para mim é o Assad não sair do poder na Síria. Outro dia um jornalista me perguntou sobre a polêmica do filme. E eu disse: 'Por que uma pessoa beijar outra é polêmico? Por que isso incomoda?' É uma pena que incomode, e por isso é importante falar.

Divulgação / California Filmes
Clemens Schick, Jesuíta Barbosa e Wagner Moura: trio de atores de "Praia do Futuro"

iG: "Praia do Futuro" é seu quinto filme. Sente que lançá-los no circuito comercial está ficando mais fácil ou mais difícil?
Aïnouz: O cruel da distribuição, hoje em dia, é que se o filme não sai gigantesco na primeira semana, não fica a segunda em cartaz. Tem uma coisa do impacto da estreia que é muito diferente de quatro ou cinco anos atrás, quando os filmes tinham uma vida mais longa nas salas. Mas não sei se cada lançamento está sendo mais complicado, não. Acho que o público está aí, as pessoas estão curiosas. Temos que tentar entender que público é este e como se comunicar com ele, porque cinema não é uma coisa estanque. Cada filme é um desafio, mas acho que está tudo bem. Se dissesse que não está tudo bem, estaria com falta de fé no cinema, e acho o cinema muito potente.  

iG: Serviços on demand e via streaming podem ajudar os filmes a chegar no público?
Aïnouz: São outros espaços e que bom que eles existem. Mas não substituem as salas, apenas a complementam. Defendo muito o cinema como experiência coletiva. Acho importante, humano estar numa sala. O teatro nunca acabou e o cinema nunca vai acabar.

Divulgação / California Filmes
'Praia do Futuro' é o quinto filme de Karim Aïnouz

iG: Você parece ser um diretor que usa muito a intuição. É verdade?
Aïnouz: Total. Não tenho formação em cinema (ele fez arquitetura) e vou sempre aprendendo, mas confio muito na minha intuição. O cinema é uma arte industrial, mas se você não confia na intuição, às vezes dá errado. Parte do nosso trabalho é saber quando a nossa vontade se comunica com o público ou não. Se for apenas vontade, não dá certo. Mas acho que o cinema brasileiro permite a intuição e tem de recuperar isto. Nosso cinema não é o do cálculo absoluto. É bonito que seja mais impuro neste sentido.

iG: Você disse que durante o filme discutiu muito com o compositor da trilha sonora (Volker Bertelmann) e o diretor de fotografia (Ali Olcay Gözkaya). É um cineasta brigão?
Aïnouz: Não sou brigão, mas coloco as coisas do jeito que vejo. Acho o embate importante em qualquer trabalho que envolva subjetividade. Mas gosto muito de ouvir, até mais do que falar. É claro que na hora de filmar não dá tempo de debater. Cinema é uma democracia até o primeiro dia de filmagem. Depois, não é mais. Mas até lá, tem de ser. Seria bobo não ser.

iG: Você já falou sobre como seus filmes sempre têm estradas e personagens em movimento. O mar também tem uma presença muito forte. Por quê?
Aïnouz: Um crítico me disse isto em uma retrospectiva de meus filmes na França, que todos os meus filmes têm mar, praia. Até então, não tinha me dado conta. Acho que algumas imagens te assombram para sempre, e talvez esta seja uma delas. Talvez seja a coisa da intuição. Fui criado em uma cidade de praia e ficava sempre imaginando o que tinha do outro lado. Acho que o mar para mim é isto, esta fronteira que permite que você imagine o que vem depois. É uma possibilidade de futuro mesmo, de porvir.

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas