Philippe Barcinski: "Ainda dá para assistir a um filme sem atender o celular"

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

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Em entrevista ao iG, diretor de "Entre Vales" fala sobre o cinema em tempos de atenção fragmentada: "Ficar duas horas numa sala, vendo uma única coisa na frente, faz bem à sanidade"

Depois de uma boa estreia no longa-metragem com "Não Por Acaso" (2007), o diretor Philippe Barcinski volta aos cinemas com "Entre Vales", delicado filme que conta, através do lixo, as transformações de um homem que perdeu tudo.

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Ângelo Antônio interpreta Vicente, empresário responsável por avaliar o potencial econômico de aterros sanitários, que após duras perdas passa a ser um dos homens que caminha por estes mesmos aterros coletando material reciclável.

Imagem do filme 'Entre Vales'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme "Entre Vales". Foto: DivulgaçãoImagem do filme "Entre Vales". Foto: DivulgaçãoImagem do filme "Entre Vales". Foto: DivulgaçãoÂngelo Antônio no set de 'Entre Vales'. Foto: DivulgaçãoImagem das filmagens de 'Entre Vales'. Foto: Divulgação

O eixo narrativo apareceu enquanto Barcinski, carioca que há 20 anos vive em São Paulo, pesquisava sobre o "universo paralelo" do lixo - primeiro para um documentário que nunca chegou a ser feito, e depois para o roteiro de "Entre Vales".

"A história veio naturalmente: de um lado os lixões e as histórias de perda, de outro as cooperativas e as histórias de reconstrução. Me veio o 'clique' de falar sobre um cara que perde tudo e depois se desconstrói", diz Barcinski, em entrevista ao iG.

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Coprodução de Brasil, Alemanha e Uruguai, "Entre Vales" é um filme de silêncios, que se desenvolve lentamente e no qual as imagens têm mais força do que os diálogos.

"Acho que existe um nicho de pessoas que acredita que ainda dá para assistir a um filme de duas horas sem atender o telefone celular", afirma. "Vivemos anos de atenção fragmentada, hedonistas, narcisistas, de hiperconectividade e excesso de informação. Ficar numa sala fechada, vendo uma única coisa na frente, faz bem para a sanidade mental e emocional."

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O diretor Philippe Barcinski no set de 'Entre Vales'

Leia os principais trechos da entrevista:

iG: "Entre Nós" é um filme de ritmo lento numa época em que o cinema, sobretudo comercial, é marcado pela rapidez. Como chegar ao público?
Philippe Barcinski: Acho que existe um nicho de pessoas que acreditam que ainda dá para assistir a um filme de duas horas sem atender o telefone celular; que um filme não precisa ser todo mastigado, que pode ter enigmas e tempos nos quais entramos; que a nossa relação com um filme é mais livre do que uma montanha-russa na qual voce sabe onde é o susto, onde é o riso, onde é o choro, na qual a música indica tudo isto. Nos últimos anos houve uma retração no mercado de arte e muitas salas fecharam. É algo mundial no cinema: a grande distribuição é muito focada em poucos títulos, muito caros, com retorno imediato, voltados primordialmente para o público adolescente ou para a família. É um sinal dos tempos, de anos muito controversos, acelerados e estressantes em que o cinema acaba ocupando, em grande escala, um espaço de alienação, conforto e descanso.

iG: Em que sentido?
Barcinski: O cinema ocupa diferentes papéis ao longo dos anos. Na década de 1970 era contestatório, fruto de uma sociedade em ebulição. Hoje vivemos anos de atenção fragmentada, hedonistas, narcisistas, de hiperconectividade e excesso de informação. Para mim, ficar duas horas numa sala fechada, vendo uma única coisa na frente, faz bem para a sanidade mental e emocional. Essa coisa de as pessoas irem ao cinema e não conseguirem não twittar no meio do filme, ou assistir a um longa durante dias, parando e voltando...este tipo de coisa é sinal dos tempos, mas não conduz à felicidade. A onda de ansiolíticos e antidepressivos e a quantidade de crises pessoais fazem parte deste grande pacote. Se recolher por duas horas num universo ficcional e viajar nele, ter no filme um tempo para ser livre, sair dessa montanha-russa que tem tempos cronometrados...acho que este é o caminho para a sanidade mental. Gosto deste tipo de cinema.

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Philippe Barcinski no set de 'Entre Vales'

iG: Serviços on demand e via streaming podem ajudar a aumentar o acesso a filmes como "Entre Vales", reduzindo a dependência em relação às salas?
Barcinski: Acho que sim. Consumo mais filmes fora das salas do que nas salas, e acho que isto acontece com todo mundo. Há filmes que merecem ser vistos no cinema, e outros que você não perde tanto vendo em casa, como uma comédia romântica, por exemplo, que em geral são bem iluminadas, sem grande contraste, com a maior parte do texto dado no close. Não há muita perda em ver uma comédia romântica em casa. Agora, não vou deixar de ver no cinema o novo filme do Wes Anderson ("O Grande Hotel Budapeste"). Há filmes que se prestam mais à tela grande, como "Profissão Repórter", "2001 - Uma Odisseia no Espaço", "Gravidade". Acho que é um pouco assim: este deixo para o cinema, este deixo para ver em casa.

iG: E o "Entre Vales"?
Barcinski: Acho que é um longa que ganha ao ser visto na tela grande, pois foi filmado em 35 mm e tem fotografia do Walter Carvalho. Gostaria que o filme conseguisse uma sustentação legal no cinema, mas ele sobrevive a outras janelas também.

iG: Por que quis falar sobre lixo?
Barcinski: Em 1991 fui chamado para fazer um documentário sobre lixo, que acabou não sendo realizado. Fui para (o aterro de Jardim) Gramacho (no Rio de Janeiro) e saí de lá muito mexido. Você não sai ileso daquele lugar: tem uma energia, um clima muito particular. Fiquei impressionado também com o fato de que a maioria das pessoas tinha histórias de perda, tinha perdido trabalho, parentes e ido parar lá.

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Imagem do filme 'Entre Vales'

iG: Como o projeto se transformou em "Entre Vales"?
Barcinski: Mais ou menos nesta época me mudei para São Paulo e me chamou muita a atenção a quantidade de carroceiros. Fiquei com a sensação de que existia um mundo paralelo e fui a uma cooperativa de catadores. Fiquei impressionado com o clima industrial, as prensas, esteiras. Era um espaço atraente para filmar e o material humano era interessante, porque quase todas as histórias eram de reconstrução. Quase todo mundo chega lá sem trabalho, qualificação, higiene, autoestima. Eles chegam sem nada, mas depois de um tempo estão tirando R$ 800, R$ 1,2 mil por mês, e se tornam profissionais inseridos na sociedade. Então a história veio naturalmente: de um lado os lixões e as histórias de perda, de outro as cooperativas e as histórias de reconstrução. Me veio o "clique" de falar sobre um cara que perde tudo e depois se desconstrói.

iG: O lixo serviu de metáfora.
Barcinski: O lixo é perfeito para uma metáfora sobre desuso, reúso, reciclagem. Quando faço um filme, procuro alguma coisa que signifique mais do que a própria imagem. Procuro um tema no qual caiba uma história, mas no qual a imagem seja mais do que ambiência, que funcione como metáfora visual das sensações e do conceito do que está sendo tratado.

iG: Como foi trabalhar com Ângelo Antônio?
Barcinski: Incrível. Ele trabalha muito bem o silêncio, as sutilezas, tem domínio técnico, mas é intuitivo. Você coloca o Ângelo no estado de espírito que a cena pede, coloca a maquiagem, o figurino, arma a situação, e quando liga a câmera, ele preenche a cena.

iG: Como foi a experiência de coprodução?
Barcinski: Fomos bem nos editais culturais (Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, Prefeitura de São Paulo, fundo setorial), mas não conseguimos captar com empresas particulares. Apesar de ser dinheiro público, o critério das empresas não é cultural, é de retorno de imagem. E o tema deste filme é difícil para as empresas. Então, fomos internacionalizando o filme. No cinema europeu, é difícil achar um longa deste porte que seja 100% puro sangue, de um país só, justamente pela dificuldade de financiamento. A junção de forças e a divisão de território faz parte do mecanismo para viabilizá-los. A Argentina também é muito forte nisto, eles coproduzem muito com a Espanha, por exemplo. Foi excelente, acredito muito neste modelo.

Veja o trailer de "Entre Vales":


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