"Getúlio" desafia falta de tradição do cinema brasileiro em retratar políticos

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

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Alto custo, dificuldade de financiamento e rejeição do público explicam limitada produção de filmes sobre líderes

A falta de tradição do cinema brasileiro em retratar seus líderes será desafiada na próxima quinta-feira (1º ) com a estreia de "Getúlio", filme no qual Tony Ramos interpreta o ex-presidente brasileiro nos 19 dias que antecederam seu suicídio.

Se a filmografia nacional sobre políticos não é inexistente, certamente é limitada, sobretudo a de ficção. Poucos títulos são conhecidos além de "Lula, o Filho do Brasil" (2009), de Fábio Barreto, e "Bela Noite Para Voar" (2009), de Zelito Viana, no qual José de Abreu interpreta Juscelino Kubitschek - também tema de uma minissérie da Rede Globo em 2006.

'Getúlio' (2014): Filme de João Jardim sobre os últimos dias do ex-presidente Getúlio Vargas, interpretado por Tony Ramos. Foto: Bruno Veiga/Divulgação'Dossiê Jango' (2013): Documentário de Paulo Henrique Fontenelle sobre as circunstâncias suspeitas da morte do ex-presidente João Goulart. Foto: Divulgação'Tancredo - A Travessia' (2011): Documentário de Silvio Tendler sobre o ex-presidente Tancredo Neves. Foto: Divulgação'Lula, o Filho do Brasil' (2009): Filme de Fábio Barreto sobre a trajetória do ex-presidente, interpretado por Felipe Falnga, Guilherme Tortólio e Rui Ricardo Dias. Foto: Divulgação'Bela Noite Para Voar' (2009): Filme de Zelito Viana tem José de Abreu como o ex-presidente Juscelino Kubitschek e Mariana Ximenes como uma amante apelidada de Princesa. Foto: Divulgação'Vocação do Poder' (2005): Documentário de Eduardo Escorel sobre a campanha de seis candidatos a vereador nas eleições de 2004 no Rio de Janeiro. Foto: Divulgação'Peões' (2004): Documentário de Eduardo Coutinho sobre metalúrgicos do ABC paulista que participaram de alguma forma das greves lideradas por Lula em 1979 e 1980. Foto: Divulgação'Entreatos' (2004): Documentário de João Moreira Salles sobre os bastidores da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência em 2002. Foto: Divulgação'Jango' (1984) - Documentário de Silvio Tendler sobre João Goulart. Foto: Divulgação'Os Anos JK - Uma Trajetória Política' (1966): Documentário de Silvio Tendler sobre Juscelino Kubitschek. Foto: DivulgaçãoGetúlio Vargas deu nome a documentário lançado por Ana Carolina Teixeira Soares em 1974 . Foto: FGV CPDOC'Jânio a 24 Quadros' (1981): Documentário de Luís Alberto Pereira sobre o ex-presidente Jânio Quadros. Foto: Reprodução

No documentário, Silvio Tendler foi quem mais se dedicou ao tema, tendo dirigido "Os Anos JK - Uma Trajetória Política" (1980), "Jango" (1984) e "Tancredo - A Travessia" (2011).

Porém, Tendler ainda não tirou do papel a cinebiografia de José Sarney anunciada em 2010, assim como Bruno Barreto nunca fez a minissérie sobre a família Collor que chamou de "sonho". Por falta de patrocínio, Sandra Werneck recentemente adiou os planos de levar para as telas a trajetória da ex-senadora Marina Silva.

Mas por que o cinema brasileiro retrata tão pouco os políticos? A resposta está relacionada às dificuldades de conseguir levantar projetos geralmente caros e que não têm retorno garantido de bilheteria, dada a falta de tradição das cinebiografias políticas no País e, principalmente, a pouca admiração dos brasileiros por seus líderes.

Veja o trailer de "Getúlio":

"Existe uma rusga entre a população e os políticos, uma rejeição que tem a ver com a formação democrática recente, e com o fato de que muitos dos que passaram pelo poder aprontaram. O brasileiro ainda não teve o direito de ter políticos como ídolos ou heróis", disse ao iG o diretor Fred Farah, que prepara o documentário "Jânio Quadros por Nelson Valente e outros", além de um longa de ficção e uma minissérie sobre o ex-presidente.

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Para o crítico Inácio Araujo, a relação do País com a história é conturbada. "Temos dificuldade de nos relacionar com as nossas imagens, quaisquer imagens. Quando se trata de líderes, tendemos a depositar neles fracassos que são em grande parte nossos, mas de que não queremos participar", afirma.

Divulgação
Lucy Ramos foi escalada para viver Marina Silva, mas filme foi adiado por falta de patrocínio

"Mesmo personagens que hoje parecem ter sido unanimidade, como JK, quando olhamos de perto estiveram muito longe disso", acrescenta. "Os líderes mais duradouros, como Vargas, são políticos muito hábeis, que jogam para vários lados ao mesmo tempo."

Heróis ou farsantes

Vargas, JK e Jânio são os políticos mais frequentemente retratados pelo cinema nacional. Entre os líderes recentes, Lula ganha destaque com o filme de Barreto e os documentários "Entreatos", de João Moreira Salles, e "Peões", de Eduardo Coutinho.

Fernando Henrique Cardoso ancorou "Quebrando o Tabu", sobre a descriminalização da maconha, e deu depoimento em "O Brasil Deu Certo, E Agora?", ao lado de Sarney e Fernando Collor de Mello, mas não foi tema direto de nenhum dos dois longas.

Foi nos anos 1970 que os filmes sobre políticos brasileiros começaram a ser produzidos com alguma frequência. Segundo a professora Vera Chaia, pesquisadora do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o cinema apresentou os líderes tanto como heróis (em "Getúlio Vargas", de Ana Carolina Teixeira Soares) quanto como farsantes (em "Jânio a 24 Quadros", de Luís Alberto Pereira).

Para Chaia, o cinema "corrobora o aparecimento do personalismo na cultura política". "Deposita-se fé no indivíduo, como se essa autoridade pudesse resolver todos os problemas da nação brasileira. É valorizado o prestígio pessoal, a capacidade individual, como se um indivíduo fosse capaz de levar avante sozinho um projeto de governo", afirma.

Modelo de financiamento

Nos Estados Unidos, mesmo líderes impopulares como Richard Nixon e George W. Bush chegaram às telas. "O cinema norte-americano se presta a contar a história do país. Se o estúdio se deparar com algum problema, sabe que terá apoio", aponta André Gatti, professor de História do Cinema Brasileiro na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP).

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Richard Nixon foi retratado em filmes como 'Frost/Nixon', 'O Assassinato de Richard Nixon', 'Nixon' e 'Todos os Homens do Presidente'

Gatti destaca que o governo militar também é uma "área pouco trabalhada" na produção nacional, mesmo que a sociedade tenha uma visão crítica da ditadura. "Aqui no Brasil existe essa coisa de se esquivar um pouco."

Leia também: 50 anos após o golpe, ditadura é tema marcante do cinema brasileiro

Para o professor, o próprio modelo de financiamento do cinema brasileiro, muito dependente de editais do governo, dificulta a produção de longas sobre políticos. "A história da Dilma daria um bom filme, mas você não pode colocá-lo num edital da Petrobras. Se o Fundo Setorial aprovar, vai dar polêmica."

Foi o que aconteceu com "Lula, o Filho do Brasil", um retrato elogioso do presidente, lançado durante seu governo e visto com suspeita por muitos críticos e espectadores.

Divulgação
'Lula, o Filho do Brasil' provocou polêmica quando foi lançado, em 2009

Empresas que recebem incentivo fiscal por apoiar o cinema brasileiro também demonstram receio. Farah conta ao iG que tem tido dificuldade para convencer empresários a patrocinar o projeto sobre Jânio Quadros.

"Alguns se interessam, mas têm medo de ter o nome associado ao personagem. Preciso sempre deixar bem claro que é um projeto apolítico sobre um político. Mas eles pensam se vão ter algum problema depois, quando precisarem de ajuda do governo."

Lei da TV a cabo

A dificuldade de captação também decorre do fato de filmes de época serem muito caros, sobretudo por causa dos gastos com cenários e figurinos: "Getúlio" custou R$ 6 milhões e Farah estima que o longa sobre Jânio Quadros bata a marca de R$ 10 milhões.

Gatti acrescentou que a necessidade de autorização para biografias, tema que pegou fogo no ano passado e também afeta o cinema, pode representar outra dificuldade para quem quer levar a história de um político para as telas.

Mas ele também acredita que a maior profissionalização do cinema brasileiro e a nova lei da TV a cabo, que estabelece cota de programação brasileira no horário nobre de todas as emissoras, podem fortalecer a produção de mais filmes e minisséries. 

Farah disse que "dois ou três canais" estão interessados no material sobre Jânio. "Nossa televisão sempre foi focada em novela e show de auditório, mas a lei está forçando as emissoras e procurar novos conteúdos", afirma. "Estamos começando a diversificar."

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