Autor premiado, Philippe Claudel se dedica ao cinema: "Fazer filmes é excitante"

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

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No Brasil para o Festival Varilux, diretor fala ao iG sobre seu terceiro longa-metragem, "Antes do Inverno", e elogia diversidade da produção francesa

O francês Philippe Claudel despontou primeiro como escritor, sendo premiado por obras como "Le Rapport de Brodeck" e "Les Âmes Grises". Quando estreou no cinema, na direção do excelente "Há Tanto Tempo que Te Amo" (2008), descobriu uma paixão que pode se sobrepôr às demais.

Getty Images
O diretor Philippe Claudel

"Talvez no futuro eu faça mais filmes do que livros", disse Claudel, em entrevista ao iG. "Fazer filmes é muito excitante. Tenho muitos na minha cabeça."

Claudel está no Brasil para o Festiva Varilux de Cinema Francês, no qual apresenta seu terceiro longa-metragem, "Antes do Inverno". Como o título indica, o filme se passa no outono francês, e reflete na paisagem fria a melancolia dos personagens.

Em ótima atuação, Daniel Auteuil ("Caché") interpreta Paul, um neurocirurgião de 60 anos que é casado há décadas com Lucie (Kristin Scott Thomas, bem no papel, mas menos impressionante do que em "Há Tanto Tempo que Te Amo"). Sempre correndo por causa do trabalho, Paul se recusa a ver os problemas do casamento e o vazio dentro de si. Mas quando começa a receber rosas anônimas, que atribui a uma jovem que cruza seu caminho (Leila Bekthi), começa a reavaliar sua vida.

"Quis explorar o relacionamento de um casal, mas também este momento em que você chega aos 60 anos e se pergunta: 'Esta é a vida que eu sonhei aos 20?'", disse Claudel, que aos 52 anos já fez o mesmo questionamento.

Leia os principais trechos da entrevista:

iG: Quando você cria uma história, é fácil decidir se vai ser livro ou filme?
Phillipe Claudel: Gosto de escrever livros e de fazer filmes, mas são dois tipos diferentes de criação. Imagino cada história para um formato. Neste filme, tento expressar um tipo de drama que considero impossível colocar na literatura. Por enquanto, estou tendo a oportunidade de fazer os dois. Mas talvez no futuro eu faça mais filmes do que livros.

iG: Por quê?
Claudel: Porque fazer filmes é muito excitante. Tenho muitos na minha cabeça e espero ter a chance de fazê-los.

iG: "Antes do Inverno" é um filme quieto, de ritmo lento. Você gosta de desenvolver os personagens de uma forma mais literária?
Claudel: Acho que tem a ver com a história. Neste filme, quis explorar o relacionamento de um casal, mas também este momento em que você chega aos 60 anos e se pergunta: "Esta é a vida que eu sonhei aos 20?". Este homem vive tão rápido que nunca teve tempo de fazer essa pergunta a si mesmo. E de repente, quando conhece uma jovem garota, descobre um vazio, a dificuldade de falar com sua mulher, de ter uma conversa verdadeira com o filho. Esse era o drama para mim: alguém descobrir que sua vida é como uma ilusão.

iG: É um questionamento que você também faz?
Claudel: Tenho 52 anos, sou um pouco mais novo que meus personagens. Mas sim, me fiz essas perguntas aos 30, aos 40 e agora. A resposta é muito complexa. Escrevo livros, faço filmes, tive a oportunidade de viajar e isto é muito bonito. Mas, lá no fundo, acho que na verdade sempre sonhei em ter uma vida simples, viver com a família no campo. Sonhava em ter uma vida normal. Então é algo difícil de responder.

iG: Você trabalhou como professor em uma prisão. De que forma esta experiência marcou sua vida?
Claudel: Fui professor em prisões entre 1998 e 2000. Nesse período, descobri que nada é simples. A maior parte das pessoas acredita que tudo é preto ou branco, que existe uma fronteira entre bom e ruim. A experiência me mostrou que há muitas áreas cinzentas, que somos criaturas complexas, animais complexos. Percebi que muitos dos prisioneiros eram como eu, e isso era muito estranho e difícil às vezes.

iG: Daí a inspiração de seu primeiro filme, "Há Tanto Tempo que Te Amo"?
Claudel: Quis contar a história de uma mulher que deixava a prisão após um longo período, 15 anos, para mostrar o quão difícil é voltar à vida real. É difícil rever sua família, amigos, os vizinhos com quem antes você tinha um relacionamento normal.

iG: No Brasil, parte do público vê o cinema francês como muito intelectual, difícil de entender. O que acha dessa imagem?
Claudel: Somos muito sortudos na França, porque temos uma grande indústria. Produzimos cerca de 250 filmes por ano. Há dramas, comédias, filmes populares, intelectuais. É uma produção muito diversa. Festivais como o Varilux são boas oportunidades para a plateia brasileira descobrir que há vários tipos de filmes sendo feitos na França.

iG: Os cineastas brasileiros sempre citam a França como exemplo de um país que sabe proteger a própria indústria da invasão hollywoodiana. Esta fama é justa?
Claudel: Acredito que o cinema francês fique com cerca de metade das salas do País, e o resto fica para o cinema estrangeiro, não só norte-americano. Temos oportunidades de ler escritores brasileiros, coreanos, americanos, nigerianos, e o mesmo acontece com o cinema. Mesmo fora de Paris há cinemas especializados em filmes estrangeiros, e isso é ótimo. Esta conexão com a cultura de outros países é importante para entendermos como as outras pessoas enxergam o mundo. Vivemos em um mundo tão dramático e histérico...eu preciso da ajuda dos filmes, livros e da cultura dos outros países para entendê-lo.

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