"O cinema precisa ir para a rua", afirma diretor de filmes sobre protestos em SP

Por Luísa Pécora , iG São Paulo | - Atualizada às

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Em entrevista ao iG, Tiago Tambelli fala sobre "20 Centavos", documentário que acompanhou as manifestações de 2013 e faz estreia mundial no Festival É Tudo Verdade

Quando o aumento na tarifa do transporte público começou a levar milhares às ruas de São Paulo, em junho de 2013, o diretor Tiago Tambelli, 39 anos, acompanhava os protestos como a maior parte das pessoas: através da imprensa. Mas quando a repressão policial e a violência aumentaram, ele decidiu que precisava chegar mais perto.

"O próprio medo me levou para a rua", afirmou o cineasta, em entrevista ao iG. Se o Estado estava reprimindo o direito de expressão e o trabalho jornalístico, alguma coisa precisava ser feita em termos cinematográficos."

Leia também: Manifestações no Brasil são discutidas em exposições, filmes e música

Imagem do documentário '20 Centavos', de Tiago Tambelli. Foto: DivulgaçãoImagem do filme '20 Centavos'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme '20 Centavos'. Foto: DivulgaçãoImagem de Daniel Kfouri usada no documentário '20 Centavos', de Tiago Tambelli. Foto: Daniel KfouriImagem de Daniel Kfouri usada no documentário '20 Centavos', de Daniel Kfouri. Foto: Daniel KfouriImagem do documentário '20 Centavos', de Tiago Tambelli. Foto: DivulgaçãoImagem do filme '20 Centavos'. Foto: Divulgação

Tambelli é o diretor de "20 Centavos", um documentário sobre as manifestações que faz sua estreia mundial no festival É Tudo Verdade, que começa nesta quinta-feira (3) em São Paulo e na sexta-feira (4) no Rio de Janeiro. 

Apropriadamente inserido na mostra intitulada "o estado das coisas", o filme chama a atenção principalmente pela rapidez com que chegou às telas. Para Tambelli, que liderou um grupo de 30 profissionais de cinema reunidos pelo Facebook, a agilidade era fundamental.

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O investimento de R$ 50 mil foi feito por eles mesmos, que saíram às ruas em até 11 equipes, montaram bases de produção em Brasília e Rio de Janeiro e editaram as 80 horas de material conforme ele chegava à produtora de Tambelli. 

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Tiago Tambelli, diretor de '20 Centavos'

Com 53 minutos de duração, "20 Centavos" não oferece conclusão clara sobre o impacto dos protestos, estruturando-se como uma grande colagem de imagens.

O filme retrata a explosão de violência e a repressão policial, capta o discurso de integrantes do Movimento Passe Livre e de Black Blocks e mostra as divergências internas entre os manifestantes e suas múltiplas reivindicações.

Não conta, porém, com entrevistas, opiniões ou mesmo narração em off para contextualizar ou analisar as imagens exibidas. "Queríamos preservar a linguagem da rua", disse Tambelli, para quem "o filme não pergunta, mostra". "Gostaríamos que, agora, os sociólogos, cientistas sociais e antropólogos humanos se debruçassem sobre o documentário, que ele fosse material de pesquisa."

Leia os principais trechos da entrevista ao iG:

iG: Como surgiu a ideia de fazer um filme sobre as manifestações?
Tiago Tambelli: O Brasil não tem a tradição de fazer filmes durante os momentos de transformação social. Meu desejo foi fazer um filme dentro do processo, e não após o processo. Mas no início não havia um direcionamento certo. A mensagem que transmiti para as equipes foi: vamos para a rua. 

iG: Em que momento você decidiu que seria um documentário?
Tambelli: A princípio não sabíamos se seria um filme ou um vídeo-manifesto. Quando começamos a filmar, vimos que estava acontecendo algo muito forte, muito ímpar na história do Brasil. Percebemos que tínhamos um material valioso, histórico, e não queríamos que ele fosse postado na internet de qualquer forma, para se tornar um viral. Isso já acontecia de forma espontânea a partir da sociedade. Então decidimos guardar o material para dar um tratamento cinematográfico. 

iG: Houve tensão durante os momentos de violência?
Tambelli: Ninguém da equipe se machucou, que era o que mais me preocupava. Mas o grau de insegurança e a tensão eram muito grandes. A cidade estava vivendo um transe social agudo, uma convulsão inédita. O documentário pega principalmente o mote da violência da polícia, que foi o que despertou meu desejo de filmar. O próprio medo me levou para a rua. Acompanhando os primeiros protestos pela imprensa, pensei: se o Estado está reprimindo o direito de expressão e o trabalho jornalístico, alguma coisa precisa ser feita em termos cinematográficos. O cinema precisa ir para a rua.

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Imagem do filme '20 Centavos'

iG: Qual o desafio de fazer um filme sobre um acontecimento ainda em andamento?
Tambelli: O objetivo do filme é demonstrar que é possível fazer documentário de forma rápida, ágil e instantânea, é se apresentar como um modelo de cinema que não seja uma análise posterior. Queremos incentivar novos realizadores, para que apareçam mais vozes nestes momentos. Durante os protestos, a gente se perguntava: "Cadê os cineastas de São Paulo? Por que eles não estão tão na rua?" Gente filmando tinha um monte, e não tiro o mérito, mas eles faziam virais. Existe uma crise cultural também, uma falta de iniciativa da própria classe cinematográfica.

iG: Em que sentido?
Tambelli: A gente deveria ter mais coragem e desejo de ir pra rua, de produzir filmes de pulsão social. Nossa maior referência foi o (cineasta cubano) Santiago Álvarez, que filmou transformações sociais no mundo inteiro, em um momento em que os recursos cinematográficos eram muito menos disponíveis. O modelo brasileiro, baseado em leis de incentivo e vinculado a empresas, emperra o processo. Tenho a característica de fazer filmes baratos, com minhas próprias ferramentas, mas de qualidade. O produtor brasileiro está muito acostumado a mamar na teta do Estado. Acho que o Estado tem de estar presente na cultura, mas o realizador não pode depende só disso. Se eu tivesse ficado esperando financiamento na época das manifestações, não ia ter filme. É preciso atuar de forma independente, com certa ousadia empresarial, e ir a campo, mostrar as caras.

iG: Por que o filme começa com um protesto indígena em Brasília, anterior às manifestações de São Paulo?
Tambelli: O fime começa no dia 6 de abril de 2013, com índios invadindo o Congresso Nacional na busca por representação política e mais democracia. As imagens nos foram dadas por um dos manifestantes, e simbolicamente trouxeram a questão indígena para o filme, como o nascimento da história do Brasil. O documentário começa com os índios, se desenrola nas manifestações e termina com negros na Avenida Paulista, cantando "Respeito é Pra quem Tem", do Sabotage. Em termos narrativos, o filme não é discursivo. Ele não explica o que está acontecendo, ele mostra. Nosso discurso vem da montagem.

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Imagem do filme '20 Centavos'

iG: O filme não tem entrevistas ou narração em off. Por quê?
Tambelli: Queríamos preservar a linguagem da rua. Durante a montagem fomos tirando as perguntas e respostas e ficando basicamente com o material que entrou espontaneamente na câmera: brigas, discursos, tensões. Lidamos mais com a espontaneidade do que com o direcionamento. O filme não pergunta, mostra. Quando o Movimento Passe Livre (organizador dos primeiros protestos) aparece, é em sua própria linguagem: nos gritos de rua. Se o movimento se apresentava como horizontal, não quisemos partir da premissa de que alguém tinha que falar por ele.

iG: Também não há nenhuma análise de especialistas.
Tambelli: Fugimos da análise sociológica para ficar com o filme, porque somos cineastas. Sempre brinco que "20 Centavos" tem duas horas de duração: uma de filme e uma de debate. Gostaríamos que, agora, os sociólogos, cientistas sociais e antropólogos humanos se debruçassem sobre o documentário, que ele fosse material de pesquisa. Como foi feito dentro do processo, ele não se encerrou ainda.

iG: Após acompanhar os protestos tão de perto, você chegou a alguma conclusão sobre o impacto dos protestos? Pode-se dizer, afinal, que o Brasil mudou?
Tambelli:
Não cheguei a conclusões, mas acho que os protestos demonstraram que o nosso sistema político está falido, que as formas de representação democrática não dão mais conta da realidade cotidiana das pessoas. E mostraram também uma crise institucional de segurança pública: o Estado brasileiro não está preparado para se relacionar com manifestações de rua. Quando se sente questionado, o Estado reprime. A linguagem da Polícia Militar é a mesma da ditadura. Não rompemos este laço ainda: o cheiro da ditadura estava na rua. E acho que as manifestações também mostraram novas formas de ativismo social e político, um movimento muito novo, diversificado, que não se identifica nos modelos tradicionais de representação, como sindicatos e partidos.

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