Cinquenta anos após o golpe, ditadura ainda é tema marcante do cinema brasileiro

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

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Com maior liberdade e distanciamento histórico, cineastas têm o desafio de ir além do resgate histórico e mostrar as implicações do período na vida contemporânea

Foram oito meses de censura até que “Pra Frente, Brasil” chegasse às salas, em 1982, como o primeiro filme de expressão sobre um tema que marcaria o cinema nacional: a ditadura militar. Se nos 50 anos do golpe de 1964 a produção não dá sinais de esgotamento, um desafio se apresenta aos realizadores: ir além do resgate histórico e mostrar como os acontecimentos do período se refletem na vida contemporânea.

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Filmes de ficção recentes como “A Memória que me Contam” e “Hoje”, ambos lançados em 2013, seguem esta linha, discutindo a ditadura a partir de histórias ambientadas décadas depois. O documentário "Em Busca de Iara", que estreou no dia 27, buscou se aproximar da plateia jovem ao contar a história da militante Iara Iavelberg pelos olhos de sua sobrinha, Mariana Pamplona, que conduz uma investigação nos dias atuais.

Imagem do filme 'A Memória que me Contam', de Lúcia Murat (2013). Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Hoje', de Tata Amaral (2013). Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Corpo', de Rossana Foglia e Rubens Rewald (2007). Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Batismo de Sangue', de Helvécio Ratton (2007). Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Zuzu Angel', de Sérgio Rezende (2006). Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias', de Cao Hamburger (2006). Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Cabra-Cega', de Toni Venturi (2005). Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quase Dois Irmãos', de Lúcia Murat (2004). Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'A Terceira Morte de Joaquim Bolívar', de Flávio Cândido (2000). Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Ação Entre Amigos', de Beto Brant (1998). Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Lamarca', de Sérgio Rezende (1994) . Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Corpo em Delito', de Nuno César Abreu (1990). Foto: ReproduçãoImagem do filme 'Tanga - Deu no New York Times?', de Henfil (1987). Foto: Reprodução/Canal BrasilImagem do filme 'Nunca Fomos Tão Felizes', de Murilo Salles (1984). Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Pra Frente, Brasil', de Roberto Farias (1982). Foto: Divulgação

"Um filme ambientado na época da ditadura pode se comunicar com o público, mas trazê-lo para o atual também é muito bom. Se ficar só no registro histórico de uma época que o espectador não viveu, pode afastá-lo um pouco", disse ao iG o diretor Flávio Frederico, que exibe "Em Busca de Iara" na mostra Silêncios Históricos e Pessoais, em cartaz em São Paulo e dedicada a documentário sobre a ditadura.

Principalmente no caso da ficção, grande parte da extensa filmografia brasileira sobre o regime militar trata o período como página virada ou não oferece contextualização suficiente para que a implicação atual possa ser notada.

“Há que se fazer pontes entre passado e presente, compreender os processos sócio-históricos de modo a que aquele período não pareça encapsulado no tempo”, disse a pesquisadora Caroline Gomes Leme, autora de “Ditadura em Imagem e Som”, uma análise de filmes sobre o tema produzidos entre 1979 e 2009.

Imagem do filme 'O Que É Isso, Companheiro?', de Bruno Barreto
Divulgação
Imagem do filme 'O Que É Isso, Companheiro?', de Bruno Barreto

A ideia de página virada marca os três longas de ficção que, segundo Leme, se tornaram os mais conhecidos sobre o período militar: "Pra Frente, Brasil", "Lamarca" (1994) e "O Que é Isso, Companheiro?" (1997).

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Este último, o único que a pesquisadora se lembra de ter visto na escola, é um dos mais polêmicos quanto à sua interpretação do período militar, tendo sido contestado por militantes de esquerda que participaram da ação retratada, o sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em 1969.

"O principal problema é que a caracterização dos personagens guerrilheiros conflui para endossar a fala do personagem torturador, que afirma: 'A maioria deles são apenas crianças cheias de sonhos, crianças usadas por uma escória perigosa e se essa escória chegar ao poder não vai ter apenas tortura mas muito fuzilamento sumário'."

História e ficção

Como "O Que É Isso, Companheiro?", muitos filmes sobre a ditadura abordam a tortura e a guerrilha. A luta armada oferece grandes possibilidades para o cinema de ação, como em "Ação Entre Amigos" (1998) e "Cabra-Cega" (2005), enquanto histórias focadas em parentes dos ativistas, como "Zuzu Angel" e "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", ambos de 2006, permitem explorar o drama.

Como em todo o mundo, o cinema brasileiro muitas vezes submete os fatos históricos às necessidades narrativas e convenções de gênero. Em seu livro, Leme apontou que em muitos casos isso significou a simplificação do conflito numa disputa entre heróis e vilões, com os militares e agentes de segurança sendo retratados como "essencialmente maus".

"Poucos são os filmes que apresentam o ideário que referendou a ação destes vilões ou que trazem elementos para compreender por que e como tais personagens foram alçados a posições de poder", escreveu.

Imagem do filme 'O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias', de Cao Hamburguer
Divulgação
Imagem do filme 'O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias', de Cao Hamburguer

Na entrevista ao iG, a pesquisadora afirma que este retrato foi mudando conforme os anos, sendo mais cauteloso nos filmes produzidos durante a ditadura - e portanto ainda sujeitos à censura -, que evitavam relacionar diretamente os militares e a repressão.

"Nos anos 1990 e 2000, os militares aparecem com intensidade nas telas e a tortura é caracterizada como uma política estatal que envolve uma ampla rede de agentes, como médicos e setores do judiciário coniventes", disse. "No entanto, a caracterização de setores sociais de apoio ao golpe e à ditadura é bem mais discreta do que nos filmes dos anos 1980. Ou seja, a direita civil praticamente desaparece das telas."

Comissão da Verdade

A liberdade para abordar a ditadura aumentou, mas muitos personagens ainda temem falar diante das câmeras e o acesso a documentos históricos é restrito. Perseguida durante o regime, a diretora Lúcia Murat, de "A Memória que Me Contam", diz que o cenário atual é diferente do de quando lançou o primeiro filme, "Que Bom Te Ver Viva", em 1989.

A diretora carioca Lúcia Murat
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A diretora carioca Lúcia Murat

“Mesmo que a ditadura estivesse terminada, naquela época tudo era muito próximo e o medo era presente. Recebi telefonemas de ameaça”, afirma.

“A preocupação hoje é mais no plano legal, e também porque muito ainda tem de se descobrir. Até hoje os militares se recusaram a falar, e com isso não temos muitas informações do que se passou”, disse Murat, para quem a Comissão na Verdade revelará "muitas histórias".

Leme também acredita que o trabalho da Comissão poderá trazer novos elementos à representação da ditadura no cinema.

"Não se trata de um impacto direto, uma relação de causa e consequência, mas acredito que todo esse processo de colocar o passado em questão e ouvir testemunhos contribuirá para o amadurecimento da reflexão e deverá trazer mais dados para as narrativas cinematográficas, favorecendo novos enfoques."

"Muito está por vir"

A pesquisadora afirma, porém, que cabe ao Estado e à sociedade brasileira, e não aos filmes, fazer o verdadeiro "acerto de contas" com o regime militar.

"Como produção cultural de largo alcance e com potencial de expressão artística, o cinema pode lançar luz a questões pouco conhecidas, pode propor novas maneiras de olhar para os fatos, pode sensibilizar as pessoas para reflexão e levar o debate a pessoas que a princípio não participariam dele", comenta.

Murat é otimista quanto à continuidade e aprimoramento dos filmes sobre a ditadura, uma produção que ainda considera pequena se comparada à dos Estados Unidos sobre a Guerra do Vietnã e à da Argentina sobre seu período militar.

"Mas acho que a nova geração vai voltar a tratar do tema, e talvez com o distanciamento possamos alcançar excelentes resultados", afirma. "Vimos isto em outros países: foi a geração dos anos 1960 quem tratou melhor e mais aprofundadamente a questão do nazismo na Alemanha. Então, acho que muito ainda está por vir."

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