Documentário mostra embate de pixadores de São Paulo com polícia da Alemanha

Por Carol Almeida , especial para o iG |

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Diretor iraniano registra a ida de quatro jovens de São Paulo à Bienal de Berlim; leia entrevista

"Eles se deram mal quando acharam que éramos mais um animalzinho na gaiola deles." A voz é de Djan "Cripta" Ivson, hoje reconhecido em São Paulo como um porta-voz da pixação (com "x" mesmo) que desde os anos 1980 faz do concreto da cidade um grande caderno de nomes escritos em uma tipografia rebelde ao senso comum estético.

Eles, a quem Djan se refere, eram os organizadores da 7ª Bienal de Berlim, onde Djan e mais três colegas se negaram a pixar somente o espaço que lhes era "permitido". Não entendia a Bienal que permissão é palavra riscada no dicionário de quem pratica o pixo.

Cena do documentário 'Pixadores'. Foto: DivulgaçãoCena do documentário 'Pixadores'. Foto: Divulgação

As cenas de embate – físico, ético e estético – entre Djan, William, Ricardo e Biscoito, o curador do evento e a polícia alemã estão no filme "Pixadores", de Amir Escandari, novo documentário sobre o pixo na cidade de São Paulo.

Novo porque em 2010 o diretor João Wainer apresentou o hoje bastante conhecido "Pixo", documentário que rodou o mundo oferecendo uma introdução a esse universo que muitas vezes é associado a vandalismo. Agora, é no olhar "gringo" de um diretor iraniano residente em Londres que a pixação volta a ganhar voz no cinema.

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"Pixadores" teve estreia em janeiro no Festival de Documentários de Helsinki, na Finlândia, e deve ser exibido em vários outros festivais ao longo deste ano.

O diretor Amir Escandari (no primeiro trabalho em longa-metragem) e equipe dedicaram quatro anos para o filme, que no Brasil teve um importante suporte do sociólogo Sérgio Miguel Franco, responsável pela curadoria do trabalho dos quatro pixadores na citada Bienal de Berlim.

Pixadores from James Post on Vimeo.

"A pixação é uma resposta à convivência que a cidade te oferece. E a escala de São Paulo intensifica a relação que se tem com a metrópole, um lugar de todos e de ninguém. O pixador consegue dar perenidade à existência desses jovens, que já têm que conviver desde que nascem com a violência policial e, por isso também, não temem lidar com essa polícia em outras esferas", diz Franco, hoje dedicado a estudar o fenômeno do pixo.

Orçado em 500 mil euros (R$ 1,6 milhão), "Pixadores" traz imagens fortes que dão conta da vida privada desses quatro personagens, suas intervenções pela cidade e a realidade que os cerca. O iG conversou com Escandari.

iG - Por que o tema dos pixadores te interessou?
Amir Escandari - Eu desconhecia esse tema antes de chegar a São Paulo. Fui à cidade procurando surfistas de trem. Estava há quatro anos escrevendo o roteiro de uma ficção e um dos personagens era um surfista de trem, queria pesquisar sobre isso. Depois de uma longa busca, achei o rapaz e, através dele, conheci não apenas o surfe de trem como todo o universo da pixação. E quando vi a vida deles não havia questão nenhuma de que eu precisava contar aquela história. Havia tantos elementos distintos, os sociais e políticos naturalmente, mas também o fato de aquilo ser tão cru e rebelde. Não havia encenação naquelas pessoas. Elas não podem fingir que não são exatamente aquilo. Venho de um lugar onde as pessoas vestem uma jaqueta de couro, colocam um piercing no nariz e acham que por isso são selvagens.

Hugo Ruax
Amir Escandari durante as filmagens de 'Pixadores'

iG - De alguma forma esse universo reverbera alguma experiência da sua vida?
Amir Escandari - Sim e não. Nasci no Irã em 1979, durante a Revolução Iraniana. Quando era criança, escutava muitas histórias sobre pessoas escrevendo slogans políticos nas paredes da cidade durante a noite. Frases contra o xá que comandava o Irã. A punição para as pessoas que eram pegas fazendo isso era a morte. Acho que esse é um fenômeno que aconteceu no mundo inteiro, digo, de pessoas descontentes colocarem mensagens em paredes. Também sou familiar ao universo do grafite e da arte de rua. É algo grande em toda a Europa, mas não tem essa coisa limítrofe que a pixação tem. Eu costumava grafitar quando era mais jovem, mas costumava fazer também várias outras coisas mais seguras que não te colocam em risco de vida.

iG - Pelo que se vê no filme, parece que você teve acesso irrestrito à vida dos quatro personagens centrais. Como foi conseguir essa relação íntima entre a câmera e a vida privada deles?
Amir Escandari - Cheguei em São Paulo em 2010. Um gringo estranho que não falava uma palavra de português. Não falar a língua se tornou uma dificuldade e o fato de ser um estrangeiro os tornou ainda mais desconfiados comigo. Quem era eu? Do que estava atrás? Quais eram as minhas motivações? Perguntas normais que qualquer um faria a um estranho. O que nos aproximou, no fim das contas, foi o surfe de trem. Depois que subi no topo de um trem com eles, tudo se tornou diferente. Difícil dizer o que exatamente, mas uma confiança foi criada entre nós. Tive a chance de conhecer suas famílias e amigos. Ver onde moravam e no que trabalhavam. E aí descobri a pixação. Foi importante também ser aceito dentro da comunidade da favela. Depois de tudo isso, sabia que queria fazer um filme sobre eles. Em 2013 filmamos pela última vez. E já aí me sentia muito próximo de todos.

Hugo Ruax
O diretor Amir Escandari

iG - Como foi a contrução do roteiro, já que eventos importantes vão acontecendo no meio da história (o incidente na Bienal de Berlim, por exemplo) e quando você sentiu que devia parar de filmar?
Amir Escandari - Na verdade, nada foi roteirizado. Houve algumas cenas que foram reencenadas apenas. Por exemplo, quando introduzimos Ricardo pela primeira vez. Ele estava na delegacia de polícia, isso aconteceu em 2010, quando fomos pegos surfando em cima do trem. Um ano depois, voltei à mesma delegacia para filmar exatamente como tudo tinha acontecido no ano anterior. Filmar um documentário é uma viagem pelo desconhecido. Na primeira vez que comecei a filmar, estava procurando por coisas diferentes daquelas que aconteceram em Berlim, ou mesmo depois de Berlim. E quando testemunhei a festa na casa de William, senti que aquilo era o desfecho do filme. E fico feliz que isso tenha acontecido, até porque não havia mais dinheiro pra continuar filmando. Fui sortudo.

iG - Você acredita que a pixação, como é dita por um dos pixadores (Djan) no filme, é, de fato, "um instrumento de revolução"?
Amir Escandari - Não acho importante o que penso sobre o que a pixação seja ou deva ser. Sou apenas um diretor, não o pixador. Mas eu queria levar esse pensamento de Djan para o filme. Ele considera o que faz um instrumento de revolução e pode ser que seja isso mesmo. Djan é um líder e tem muita gente que o segue e escuta. Mas acho que só o tempo vai dizer o que é a pixação.

iG - Do que você viu de São Paulo, de que maneira a cidade reage ao processo de urbanização e verticalização de seus espaços?
Amir Escandari - Cidades gigantes como São Paulo têm um efeito enorme nos indivíduos e os indivíduos, por sua vez, têm efeito sobre a cidade. E como qualquer outro grande centro, haverá relações positivas e negativas que surgirão daí. O espaço público é importante para qualquer cidade e deveria sempre ser considerado um equilíbrio entre locais privatizados e públicos. Seres humanos são originários de pequenas tribos. Naquela época todo mundo conhecia todo mundo. E todos eram, de alguma forma, famosos e reconhecidos entre si.
Desejar esse reconhecimento é algo que nasceu com a gente. O problema agora é que você vive em cidades com milhões de pessoas e, para ser reconhecido, visto e ouvido entre elas, cada um estabelece táticas diferentes. Pessoas poderosas podem mudar todo um cenário da cidade, e aí vêm os pixadores, por exemplo, que sem esse poder também mudam completamente esse cenário. São pessoas de mundos distintos, com o mesmo desejo de serem vistos.

iG - Como você descreveria São Paulo para quem nunca esteve aqui?
Amir Escandari - Que a princípio você pode achar que a cidade é apenas uma selva de pedra. Que será fácil perder vista para o cinza, mas que há muita coisa além disso. Diria que São Paulo está nos pequenos detalhes. E quando você começa a ver esses detalhes, começa a sentir a energia que a cidade tem e a energia que vale a pena achar.

iG - O que você aprendeu com os quatro protagonistas do teu filme?
Amir Escandari - Aprendi a surfar em cima do trem, a cantar músicas daí, a fazer um baseado sem filtro, a entender como uma favela funciona, a invadir e escalar um prédio, a pixar, a ler a pixação, a falar algumas palavras em português, a fazer uma feijoada, a não desistir mesmo quando todo mundo te odeia, a beber cachaça barata e compartilhar garrafas de cerveja.
Acima de tudo, aprendi o quanto significa dar uma chance para uma pessoa fazer algo diferente e se tornar melhor. Achava que sabia tudo sobre dificuldades da vida. Antes dos 10 anos, testemunhei duas guerras trágicas. Muitas pessoas morreram e vi coisas que não deveria ter visto. Mas sempre tive uma família ao meu lado. Nunca estive só. Não ter ninguém e ter que se virar sozinho ainda criança é algo muito duro. Mas nunca ouvi esses caras culparem os outros pelas vidas que têm. Não percebi neles nenhum sintoma de autopiedade. Essa é a grande virtude da vida.

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