No cinema, o Rio de Janeiro é paraíso e inferno ao mesmo tempo

Por iG São Paulo , por Fabio Rigobelo, especial para o iG |

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Nos anos 1950 e 1960, cidade foi retratada na telona como alegre e charmosa; nas últimas décadas, pobreza e violência passaram ao primeiro plano

No princípio, era o verbo. E o verbo era sempre “sambar”. A cidade do Rio de Janeiro foi um dia sinônimo de samba, e o ritmo automaticamente remetia a belas mulheres, lindas praias, futebol e malandragem. Era quase sempre assim que a antiga capital federal era retratada nas chanchadas produzidas na Cinédia e na Atlântida entre as décadas de 1930 e 1950, em sucessos de público como “Alô, Alô, Carnaval” (1936), que revelou Carmen Miranda às telas, “Tristezas Não Pagam Dívidas” (1943) e “Este Mundo É um Pandeiro” (1947).

Uma metrópole bem diferente daquela que podemos ver em "Alemão", de José Eduardo Belmonte, que estreou nos cinemas na quinta-feira (13). O longa aborda de maneira ficcional a aflitiva ocupação do Complexo do Alemão, em 2010, que tinha o objetivo de instalar uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) na comunidade, e traz no elenco Caio Blat, Gabriel Braga Nunes e Cauã Reymond - este na pele de um chefe do tráfico.

Cena do filme 'Alemão', com Cauã Reymond. Foto: DivulgaçãoCena de 'Flores Raras'. Foto: DivulgaçãoCena da animação 'Rio'. Foto: DivulgaçãoTony Ramos e Glória Pires em 'Se Eu Fosse Você 2'. Foto: - DivulgaçãoCena de 'Tropa de Elite'. Foto: DivulgaçãoCena de 'Os Desafinados'. Foto: - DivulgaçãoCena de 'Cidade de Deus'. Foto: DivulgaçãoCena de 'Edifício Master', de Eduardo Coutinho. Foto: DivulgaçãoFernanda Montenegro no filme 'Central do Brasil'. Foto: AEToni Garrido e Patrícia França estrelam 'Orfeu' (1999), de Cacá Diegues. Foto: DivulgaçãoMarieta Severo em 'Carlota Joaquina'. Foto: DivulgaçãoSônia Braga em 'A Dama do Lotação'. Foto: DivulgaçãoCena de 'Toda Nudez Será Castigada' (1973), dirigido por Arnaldo Jabor. Foto: DivulgaçãoO ator Paulo Autran em 'Terra em Transe'. Foto: ReproduçãoNorma Bengell em cena de 'Os Cafajestes' (1962). Foto: DivulgaçãoCena do filme "Cinco Vezes Favela". Foto: DivulgaçãoDirigido por Marcel Camus, 'Orfeu Negro' (1959) é baseado em peça de Vinicius de Moraes e leva a mitologia grega ao carnaval carioca. Foto: DivulgaçãoCom Oscarito e Carmen Miranda, 'Alô, Alô, Carnaval' (1936) conta a história de dois autores que tentam lançar uma revista cultural. Foto: Divulgação

Chanchadas e estereótipos

Ainda na época áurea das chanchadas, o filme “Rio 40 Graus”, dirigido por Nelson Pereira dos Santos em 1955, foi a obra inspiradora do movimento cinema novo e acompanhava a vida de cinco garotos de uma favela em um típico dia escaldante - ainda que o censor e chefe de polícia na época afirmasse que a temperatura na cidade “nunca passou dos 39,6 graus” e, consequentemente, censurasse o filme.

Em 1959, o diretor francês Marcel Camus filmou no Rio o longa “Orfeu Negro”, baseado na peça “Orfeu da Conceição”, de Vinicius de Moraes. A trilha, excelente, ficou a cargo de Tom Jobim e Luís Bonfá, e o longa levou a Palma de Ouro em Cannes (1959) e o Oscar de filme estrangeiro (1960).

Ainda que a adaptação do mito de Orfeu e Eurídice para uma favela carioca apostasse em estereótipos sobre a vida no morro, ela representou o exato período em que a bossa nova começava a dominar os bares cariocas - e o mundo, nos anos seguintes - e o Rio de Janeiro parecia a cidade perfeita para se viver, mesmo que seu status de capital da república estivesse perdido para a recém-nascida Brasília.

Charme, decadência e golpe

Ao longo da década de 1960, a cidade ainda era retratada com um misto de charme, ingenuidade e decadência, em longas como “Os Cafajestes”, de Ruy Guerra (1962), o documentário “Garrincha, Alegria do Povo”, de Joaquim Pedro de Andrade (1962), “A Grande Cidade”, de Cacá Diegues (1966), e os coletivos “Cinco Vezes Favela” (1962) e “As Cariocas” (1966). Mas o golpe militar de 1964, e o seu endurecimento em 1968, com o decreto do AI-5, foram decisivos na maneira mais sombria de se enxergar a cidade que se veria da década de 1970 para frente.

“Terra em Transe” (1967), um dos mais celebrados e politizados trabalhos do baiano Glauber Rocha, é ambientado na fictícia república de Eldorado, mas todo filmado em terras cariocas - e o Rio de Janeiro não é, afinal, uma espécie de cidade mítica e repleta de riquezas perdida nos confins da América?

Rio babilônia

Marcada pelo aumento da repressão da ditadura, o crescimento desenfreado das favelas e a decadência urbana da ex-capital federal, a década de 1970 no cinema carioca viu crescer a popularidade das pornochanchadas - leves como as chanchadas mas com alto teor erótico - e dos filmes estrelados pelos Trapalhões, que frequentemente atingiam mais de 3 milhões de espectadores. O dramaturgo Nelson Rodrigues também virou coqueluche nas telas, com as adaptações “Toda Nudez Será Castigada” (1973), de Arnaldo Jabor, e “A Dama do Lotação” (1978), de Neville D’Almeida.

Outras adaptações de Nelson (“Engraçadinha”, de Haroldo Marinho Barbosa, e “Álbum de Família”, de Braz Chediak) tinham o Rio como cenário no início dos anos 1980, e filmes mais leves e voltados a um público jovem e frequentador das praias, como “Menino do Rio” (1982) e “Garota Dourada” (1984), ambos de Antônio Calmon, traziam hits do rock nacional em suas trilhas. As pornochanchadas ambientadas na cidade também continuaram a “bombar” nas telonas, mas a produção de filmes no país diminuiu com aproximação da década de 1990, e a extinção da Embrafilme no governo Collor enterrou de vez o cinema nacional.

Retomada e Rio pobre e violento

Dirigido por Carla Camurati, “Carlota Joaquina - Princesa do Brazil”, de 1995, é o título que simboliza a “retomada” da produção cinematográfica no país após a era Collor. Em interpretação antológica, Marieta Severo encarnou a mulher de D. João 6º, que se mudava com ele para o Rio de Janeiro fugindo das tropas napoleônicas que invadiram Portugal.

Dois anos depois, o filme “O que É Isso, Companheiro?”, de Bruno Barreto, rendeu mais uma indicação ao Oscar para o Brasil e novamente recriava um Rio de Janeiro “de época”, desta vez em um momento bastante tenso da ditadura militar, no final dos anos 1960.

Desde que “Central do Brasil” (1998), de Walter Salles, e “Cidade de Deus” (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund, receberam indicações ao Oscar - e “Central” venceu o Urso de Ouro em Berlim -, a representação de um Rio de Janeiro pobre e violento tornou-se uma espécie de parâmetro para as produções que viriam a seguir.

Ainda que as comédias leves e despretensiosas estreladas por atores da Rede Globo estejam entre os maiores sucessos de bilheteria deste século - “Se Eu Fosse Você”, de Daniel Filho, e “De Pernas pro Ar”, de Roberto Santucci, tiveram continuações devido à enorme popularidade -, os títulos que melhor representam a produção nacional recente ambientada no Rio de Janeiro não prezam pelo humor.

“Tropa de Elite” e sua continuação, “Tropa de Elite 2”, além do documentário “Ônibus 174”, todos dirigidos por José Padilha, mostram uma cidade em guerra civil, com morros dominados por facções de traficantes, serviços públicos de péssima qualidade e uma população refém da violência, além de uma elite que prefere voltar as costas para o caos acima do asfalto e olhar para o mar.

Outros títulos de ficção, como “Madame Satã” (2002), de Karim Ainouz, “Bossa Nova” (2000) e “Flores Raras” (2013), ambos de Bruno Barreto, “Os Desafinados” (2008), de Walter Lima Jr., e “Heleno” (2011), de José Henrique Fonseca, além dos documentários “Edifício Master” (2002), de Eduardo Coutinho, e “Favela on Blast - A voz do Morro” (2008), de Leandro HBL e Diplo, olharam para o Rio de Janeiro e seus habitantes com mais carinho e nostalgia. Nenhum deles, porém, exaltando uma cidade 100% maravilhosa e utópica, como as animações “Rio” (2012) e “Rio 2” (estreia prevista para 28 de março), dirigidas pelo brasileiro radicado nos Estados Unidos Carlos Saldanha.


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