Atores revelam situação de confinamento para gravações de "Alemão"

Por Nina Ramos , iG Rio de Janeiro |

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Milhem Cortaz, Caio Blat, Otávio Müller, Gabriel Braga Nunes e Marcelo Mello Jr. são policiais infiltrados em favela do Rio

Basta Milhem Cortaz dar um grito com arma em punho para pintar na memória o personagem Fábio, de “Tropa de Elite 1 e 2”. Difícil fugir do sucesso de José Padilha, não? A resposta é sim, claro que sim. Mas Milhem se monta em desafios, e encarou o convite para empunhar, novamente, armas, palavrões e gritos na pele de Branco, policial infiltrado no Complexo do Alemão, no filme “Alemão”, de José Eduardo Belmonte.

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Cena do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Alemão'. Foto: Divulgação

Fazendo companhia, Caio Blat, que também tem no currículo filmes com o mesmo foco no abismo social do país, Gabriel Braga Nunes, Marcelo Mello Jr. e Otávio Müller. “Eu não tenho nada a ver com esse filme, entendeu? Eu não tenho absolutamente nada a ver, e por isso é interessante para mim. Tudo o que eu falava, ninguém escutava. Nada do que eu falava foi útil (risos). Era uma cagada total”, brincou Otávio em entrevista ao iG.

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O que o diretor Belmonte tentou fazer foi adicionar drama à ação policial. Foi criar um suspense em cima de uma realidade já tão explorada nas telonas. Isso fisgou Milhem. “Eu venho de outros filmes em que o olhar está sempre mais focado na instituição, nos problemas governamentais do país, na segurança pública. E neste filme eu senti o abandono dessas instituições e o que acontece com essas pessoas. Não estou falando só da polícia, mas do lado do tráfico também. Há sempre um questionamento, um conflito interno entre todos os personagens. Esses questionamentos me seduziram.”

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Divulgação
O diretor José Eduardo Belmonte nas filmagens de 'Alemão'

Na trama, os cinco atores citados são os condutores da história. São policiais que fazem parte de uma operação secreta antes da invasão do Alemão para a criação da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora). Acontece que eles são descobertos pelo chefe do tráfico, Playboy (Cauã Reymond), antes do início da missão. E começa a perseguição.

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“O filme também fala de esperança, do limite da sua entrega nas suas escolhas na vida. Acho que é um lugar bom para uma história. Não existe poeta feliz, as pessoas só criam em cima da dor mesmo. São 10 pessoas nesse filme vivendo no limite, discutindo o que é viver. Isso me chamou mais a atenção do que falar, mais uma vez, sobre a instituição, sobre as falhas. São falhas humanas. Todos temos fraquezas", diz Milhem.

Porão de pizzaria

Gravado na urgência, em 18 diárias, o clima de relógio correndo contra o tempo ajudou os atores a encontrarem o limite. Na maior parte do tempo, as cenas dos cinco são feitas no porão de uma pizzaria, o cômodo que usam como ponto de encontro do grupo. “Era muito importante entrar naquele cenário do confinamento já preparados, porque lá o pau come mesmo. Do meio para o final das gravações, já tinha entendido um pouco mais o que era ficar naquela situação de confinamento, que nós de fato ficamos. Aquele lugar fedia. Aprendi demais ali”, confessa Otávio, intérprete de Doca.

Gabriel, que fez sua estreia na parceria com Belmonte, também elogiou as semanas de preparação intensa proposta pelo diretor. “Nós tivemos um processo de duas ou três semanas em uma sala cenografada para o filme, fora do Alemão, e vivemos ali um processo nosso. Não foi exatamente uma preparação, porque não foi antes da gravação. Foi durante. A preparação já era o filme, entende? O que surgia ali já estava sendo aproveitado ou não para o filme”, conta.

“O resultado que a gente vê na tela é basicamente frutos de jogos de improvisação. Foi muito bom, eu acho que o Belmonte teve muita habilidade em saber nos conduzir e saber identificar o que é que dava samba para o filme. Isso é determinante. A habilidade e a sensibilidade do nosso capitão em saber conduzir esses jogos de maneira a não se afastar do tema do filme e dos ganchos do roteiro”, completa.

O filho do delegado

Uma das história de amor mostradas por Belmonte é entre pai e filho. No caso, Valadares (Antônio Fagundes), o delegado responsável pela operação, e Samuel, policial vivido por Caio Blat, ator que topou fazer o projeto pelo tamanho da importância histórica do fato para o país. “A invasão do Alemão virou um mito. Todos os lugares em que ia, ouvia histórias, folclore policial típico do Rio de Janeiro. Você ouvia que tinha dinheiro enterrado, que os chefes do tráfico fugiram nos camburões da polícia, que policiais subiram antes para receber o dinheiro… São milhões de histórias e você nunca vai saber quais são reais. A grande sacada do Belmonte foi pegar esse imaginário e criar uma história fictícia que poderia facilmente se encaixar ali dentro. E aproveitar essas imagens reais, porque foi uma guerra transmitida ao vivo. Foi muito impactante”, relembra Caio.

Sendo taxado como um filme político ou não, Caio pontua os questionamentos levantados na trama, principalmente com relação ao efeito das UPPs na cidade do Rio: “O ‘Alemão’ fala de uma nova fase da cidade, que é de tentar unir, apaziguar, de tentar acabar com essa guerra. E realmente mudou muito a realidade. Eu achava que a pacificação tinha de ser feita primeiro no âmbito social. Saneamento básico, educação, cinema… O cinema do Alemão é o mais ocupado do Brasil. Não é o do shopping Iguatemi ou do Downtown. Quer dizer, se você dá oportunidade, as pessoas querem muito. Começou com a polícia para tentar diminuir a violência, mas eu espero agora a reunificação da cidade. O Rio é uma cidade partida".

Colaborador há 10 anos e professor de teatro há dois anos no grupo Nós do Morro, no Vidigal, Caio chegou a morar na comunidade, mas precisou sair por conta dos tiroteios intensos. “Eu vivi muitas fases no Vidigal. Eu tive que sair de lá, porque não conseguia chegar na minha casa. Isso não rola mais. Agora os problemas são outros. O mais legal desse filme é que começa com a euforia do povo feliz, na praia, Rio de Janeiro, o gigante despertou… Começa com uma política de pacificação e instauração para receber os grandes eventos, e quando você acha que está tudo lindo, tudo maquiado, tudo bonito, a população se revolta e quer de novo que o governador caia e quer novas demandas. Agora as necessidades são outras”, completa.

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