Masoquista, violento e provocador, "Ninfomaníaca 2" encerra saga de Von Trier

Por Luísa Pécora , iG São Paulo | - Atualizada às

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Segunda e última parte do polêmico filme tem menos sexo do que longa anterior; produção estreia nesta quinta-feira (13)

A história da viciada em sexo Joe chega ao fim nesta quinta-feira (13), com a estreia da segunda e última parte do polêmico filme "Ninfomaníaca". Novamente, a versão do longa de Lars von Trier que chega aos cinemas brasileiros é a censurada, e ainda não há data para que o longa completo, sem cortes e com 5h30 de duração, seja exibido.

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A segunda parte segue a fórmula da primeira: intercala passagens da vida de Joe (Charlotte Gainsbourg) com conversas entre ela e Seligman (Stellan Skarsgard), o estranho que a encontrou machucada na rua e agora ouve sua história. Há menos cenas de sexo, mas a narrativa marcada por violência e masoquismo torna o filme mais incômodo e contundente.

Imagem do filme 'Ninfomaníaca - Parte 2'. Foto: Christian GeisnaesImagem do filme 'Ninfomaníaca - Parte 2'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Ninfomaníaca - Parte 2'. Foto: Christian GeisnaesImagem do filme 'Ninfomaníaca - Parte 2'. Foto: Christian GeisnaesImagem do filme 'Ninfomaníaca - Parte 2'. Foto: Christian GeisnaesImagem do filme 'Ninfomaníaca - Parte 2'. Foto: Christian GeisnaesImagem do filme 'Ninfomaníaca - Parte 2'. Foto: Christian GeisnaesImagem do filme 'Ninfomaníaca - Parte 2'. Foto: Christian GeisnaesImagem do filme 'Ninfomaníaca - Parte 2'. Foto: Christian GeisnaesImagem do filme 'Ninfomaníaca - Parte 2'. Foto: Divulgação

A narrativa começa exatamente de onde a primeira parte parou: Joe (ainda interpretada pela novata Stacy Martin) reencontrou Jerôme (Shia LaBeouf), o homem que tirou sua virgindade e o único por quem teve algum tipo de sentimento. Os dois moram juntos, têm um filho e experimentam o conforto doméstico, mas Joe perdeu a capacidade de sentir prazer.

Após um salto de três anos, Gainsbourg assume a personagem, que tenta de tudo para se recuperar: amantes, fetiches e sobretudo K. (Jamie Bell, de "Billy Elliot"), um misterioso homem que promove sessões de violência para mulheres. Nos encontros com ele, Joe recebe tapas e socos, tem um pano enfiado na boca, é amarrada a um sofá e espancada com chicotes e cordas que fazem seu corpo sangrar.

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As cenas, que Gainsbourg chamou de humilhantes, são as mais fortes do filme, que em geral é discreto ao mostrar sexo (um ménage à trois entre Joe e dois homens, por exemplo, se resume a muito falatório e alguns closes de órgãos sexuais). Também é bastante incômoda a passagem sobre pedofilia, que não mostra nada, mas sugere muito, e é pontuada por frases polêmicas que qualquer diretor minimamente preocupado em ser politicamente correto evitaria. Obviamente, não é o caso de Von Trier.

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No Festival de Berlim, Von Trier faz piada do fato de ter sido banido de Cannes; em 2011, ele fez comentários pró-Hitler no evento

Provocações à parte, a segunda metade de "Ninfomaníaca" deixa claros os efeitos do vício na vida de Joe - das feridas no corpo à solidão e culpa. A ideia de penitência percorre todo o filme, principalmente durante as conversas entre Joe e Seligman, um homem fascinado pelos conceitos de religião e sexo, ainda que não seja nem religioso, nem especialmente sexual.

Como no primeiro filme, a obsessão por conceitos quebra o ritmo de "Ninfomaníaca", e até a própria Joe perde a paciência com o festival de referências de Seligman, que vai de Wagner ao paradoxo de Zeno, passando por Thomas Mann, Beethoven e - é claro - Freud. Vez ou outra os paralelos fazem sentido, mas em geral parecem apenas um "name-dropping" com mais afetação do que resultado narrativo.

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Em seus melhores momentos,  "Ninfomaníaca" mostra ideias interessantes sobre questões de gênero, evidenciando que o fato de Joe ser mulher é central para a história. Encara-se com certa naturalidade o caso de um homem que atende seus desejos e os coloca acima da família, mas não é permitido que uma mulher, sobretudo mãe, faça o mesmo.

Em linhas gerais, Von Trier questiona o motivo de a sociedade exigir que a culpa de Joe seja maior, por exemplo, do que a de Brandon, o viciado em sexo de "Shame" (2011). A discussão amarra bem o final de "Ninfomaníaca", ainda que os dois filmes, em conjunto, mantenham a sensação de que o cinema do diretor dinamarquês mais perde do que ganha com seu aparentemente incansável desejo de provocar.

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