Cauã Reymond deixa mocinhos da TV e assume papel de chefe do tráfico em "Alemão"

Por Nina Ramos , iG Rio de Janeiro |

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Ator foi a favelas e ouviu funk "proibidão" para criar o traficante Playboy: "Queria fazer algo novo", diz; leia entrevista ao iG

Cauã Reymond é inquieto. Aos 33 anos, sente na pele o necessário processo de renovação profissional e não se limita aos rótulos que lhe impõem ou pelas escolhas televisivas que faz. Tem o rosto desenhado, invejado e altamente clicável. Tem cara de bom moço, mas não quer ser só isso. Tem o controle da carreira dentro e fora das telas, mas isso não basta. Cauã tem o desejo de ousar, de se desafiar.

Cena do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoCena do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Alemão'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Alemão'. Foto: Divulgação

Pois, de passo em passo, o ator já se aventura por outros campos, como o da produção. “A gente começa a dar palpites demais, né?”, brinca, em entrevista ao iG. “Essa vontade vem com o olhar, com o desejo de participar de projetos que representem alguma coisa artisticamente. Vem com o olhar também do produtor e diretor em querer saber o que você tem para falar. Vejo essa minha incursão na produção nesse lugar ativo de poder ter uma discussão mais rica”, conta ele, que assina como produtor associado de “Alemão”, filme que estreia nesta quinta-feira (13).

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Como ator, pediu para ser o bandido do longa de José Eduardo Belmonte. Quando fez o teste, Cauã seria um dos cinco policiais que conduzem a história. Mas depois de emendar bons moços em “Passione” (2010), “Cordel Encantado” (2011) e “Avenida Brasil” (2012), viu no traficante Playboy a chance de criar uma receita que não fazia parte do seu menu.

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O ator Cauã Reymond, no Rio de Janeir, durante entrevista sobre o filme 'Alemão'

“Quando se trabalha muito tempo com uma coisa, você quer encontrar outro lugar para florescer de novo o desejo”, disse. “Eu nem pensei nisso (de ter sempre o rosto ligado aos mocinhos). Não foi uma estratégia, foi um desejo artístico mesmo. E também não tenho problema nenhum se as pessoas pensam nisso. Eu realmente me guiei pelo meu desejo, pelo desafio, pela possibilidade de fazer algo novo e não necessariamente ser a coluna vertebral da história - o que acontece quando você é o mocinho, principalmente em novela. Sua possibilidade de improvisação se reduz muito. Quando você vai para um lugar mais ‘marginal’, pode pirar um pouco. E eu estava interessado nisso.”

Favela e "proibidão"

Para pirar no Playboy, Cauã vestiu uma camisa do Flamengo, seu time do coração, curvou as costas, caprichou no gel nos cabelos, ouviu funk do tipo “proibidão” e foi de perto conhecer o que ser e falar como um morador de uma comunidade do Rio de Janeiro.

“Dormir nas comunidades não dava, porque a Sofia (filha do ator com Grazi Massafera) estava muito novinha. Mas eu passei períodos longos. Teve um dia muito bom no Vidigal, em que acabou a luz e eu desci o morro sem ser reconhecido. Foi uma coisa muito legal que o Mc Smith e o JB (Jefferson Brazil, atores do elenco) me proporcionaram. Como eles moram nessas comunidades, conhecem os lugares. Eu fui à Chatuba com meu carro! Olha que legal! Visitei a casa de um dos caras que foi preso… Foi muito importante esse momento para mim. O meu preconceito mudou. Eu ganhei um conceito sobre essa situação.”

Vários traficantes em um

Na história ficcional, baseada na invasão do Complexo do Alemão para a implantação da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), o personagem de Cauã reina em absoluto. “Eu, na verdade, aglutino os chefes do Alemão, porque lá havia vários. Eu aglutino em um porque é uma obra fictícia. Se for para eu me identificar com um deles, é com o (Luciano) Pezão (chefe da facção Comando Vermelho no Alemão; continua foragido). Ele era um cara boa pinta, que tinha uma vida de zona sul dentro da favela, tinha professor particular de jiu-jitsu, musculação, tomava whey protein, era um cara que não usava cocaína, o máximo era um cigarro de maconha. Era um cara muito controlado.”

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Antônio Fagundes e Cauã Reymond em entrevista coletiva sobre 'Alemão'

Outra figura que inspirou na composição de Playboy foi Nem da Rocinha, capturado em 2011. “Ele entrou para o tráfico porque tinha um filho doente, não tinha dinheiro para pagar o tratamento e o SUS não revolvia o assunto. Como ele trabalhava com contabilidade, decidiu chegar no tráfico, pedir um dinheiro emprestado e se oferecer para fazer a contabilidade do grupo por um certo período para pagar a dívida. Claro, depois que ele entrou, não saiu mais. Mas entrou para salvar o filho. Isso me ajudou muito a humanizar o Playboy.”

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O papo engrossa. Cauã lamenta a realidade que descobriu de perto no processo de preparação do personagem: “A UPP chegou para dar segurança para a população, mas não proporcionou inserção social, educação… Quando eu fui ao Complexo estudar para o filme, fui a um centro da comunidade que funciona em um prédio muito bonito de três andares. Mas é um prédio de três andares para 200 mil moradores? E as outras pessoas, faz o que com elas? Não basta simplesmente só trazer proteção, o que também não é uma realidade em outras comunidades, como a gente viu na Rocinha há pouco tempo. O tráfico continua, só mudou a forma como o negócio se desenvolve”.

“Eu sinto falta de educação mesmo, que é um investimento que a gente não faz da forma como deveria fazer", afirma. "Isso, sim, iria mudar o sonho de um garoto de ser chefe do tráfico, que é o herói dele quando menino. É o cara que manda na comunidade. Ele não iria sonhar só em ser jogador de futebol. Isso é cruel. O traficante acaba sendo um exemplo.”

A grande discussão é como mudar esse cenário ou como se incluir nele. “Eu fui criado na divisa da Gávea com a Rocinha e me enriqueceu muito esse olhar, porque eu tinha um olhar de quem, a princípio, morava em um bairro da zona sul, mas estudava com pessoas da Rocinha. Isso me trouxe uma maturidade grande que eu acho importante para a criança. A gente tem isso fácil aqui no Rio, né?”, questiona, desta vez, o pai Cauã Reymond, que diz querer criar sua filha que ela possa alçar voos tão maiores quanto os dele próprio.

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