Escola paulistana de efeitos especiais reúne jovens que sonham com Hollywood

Por iG São Paulo , por Carol Almeirda, especial para o iG | - Atualizada às

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Projeto da norte-americana Gnomon, cursos na Axis recebem alunos de países como Irã e Índia

Ela já foi chamada de “a MIT dos efeitos visuais” pela revista especializada "Fast Company" e seu fundador, Alex Alvarez, já trabalhou em filmes como "Avatar", de James Cameron.

Reconhecida não apenas por ser a maior escola de computação gráfica dos EUA mas também por conseguir colocar no mercado 100% de seus alunos, a Gnomon sempre foi um sonho caro e distante para quem se interessava em estudar as chamadas “artes digitais”. O que poucos sabem é que a instituição sediada em Los Angeles fez uma parceria com uma escola brasileira e, juntas, inauguraram, há um ano, o primeiro centro de treinamento certificado pela Gnomon fora dos EUA. A nova escola se chama Axis e funciona em São Paulo, com preços bem mais acessíveis do que o pacote americano.

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Arte feita pelo indiano Pulkit Mishra na Axis

A aliança foi anunciada em 2011 pelo fundador da Axis, Alessandro Bomfim, durante um evento em São Paulo que contou com a presença do próprio Alvarez. Desde o começo de 2013, a Axis vem funcionando com os cursos, a metodologia, os softwares e o mesmo foco em mercado que a Gnomon tem em Los Angeles. Os instrutores que hoje dão aula em São Paulo passaram de três a seis meses sendo treinados na própria escola americana para começarem a trabalhar com os alunos do Brasil. O volume de cursos não é o mesmo. Na Gnomon, mais de 100 disciplinas diferentes são oferecidas. Na Axis, esse número é de 40. O investimento na filial paulistana foi em torno de R$ 5 milhões.

“Estamos ainda aprendendo bastante com esse primeiro ano de funcionamento. Por experiência com os alunos e pela demanda que temos, entendemos, por exemplo, que hoje a melhor maneira de formar essas pessoas naquilo que elas realmente querem fazer é criando programas acadêmicos, em que juntamos alguns cursos num pacote de aulas que podem durar de algumas semanas a 10 meses”, explica Bomfim.

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Arte feita por Eduardo Schaal, professor da Axis

Atualmente com 150 alunos, a Axis oferece nesses pacotes cursos como o de Character Development Track, com os princípios da criação de personagens, incluindo estudos de anatomia, ao Maya Fast Track, dedicado ao software mais usado pelo mercado que trabalha com 3D. Nesses programas, as mensalidades variam de R$ 480 a R$ 1.200.

Dispondo de uma estrutura que conta com três laboratórios digitais, um ateliê de anatomia (as aulas têm modelos vivos) e um auditório com equipamento para projeção de filmes onde os alunos assistem a aulas de storyboard com cenas de Akira Kurosawa, Francis Ford Coppola e Alfred Hitchcock, a Axis faz apostas altas. “100% dos cursos que temos são ensinados exatamente como se ensinam na Gnomon. A metodologia e o sistema de avaliação são os mesmos. Além disso, os trabalhos de conclusão em São Paulo são avaliados em Los Angeles também”, diz Fred Saddi-Naccache L., coordenador da Axis que tem no currículo trabalhos como de segundo assistente de direção de Steven Spielberg nos filmes "Munique" e "Guerra dos Mundos".

Indiano em São Paulo

Com bachalerado em animação numa universidade de Nova Déli, o indiano Pulkit Mishra, 23 anos, é um dos alunos internacionais que veio a São Paulo seduzido pelos programas da Axis (em sua turma, há ainda um estudante do Irã e outro do Azerbaijão): “Os valores dos cursos aqui são bem melhores do que o da Gnomon em Los Angeles e os professores também dão aulas em inglês. Quero sair daqui pronto para trabalhar em qualquer lugar do mundo, seja na Índia, no Brasil ou nos Estados Unidos”, diz Mishra.

Pedro Ferreira, 21, largou a faculdade de engenharia da computação, em Goiás, para vir a São Paulo se formar no curso mais completo da Axis. Não se arrepende: “Claro que meu sonho, assim como o de todo mundo aqui, é um dia trabalhar em Hollywood ou na WETA (empresa da Nova Zelândia responsável pelas trilogias "Senhor dos Anéis" e "Hobbit"), mas estar junto a esses profissionais que trabalham aqui é essencial no processo.”

Existe mercado no Brasil?

Segundo Fred, assim como acontece na escola americana, a preocupação em colocar esses alunos no mercado é essencial. Como os cursos não são certificados pelo MEC, um dos maiores trunfos da Axis é mesmo transformar seus estudantes em profissionais da área de computação gráfica.

Mas o mercado existe no Brasil? Segundo Ricardo Laganaro, diretor e supervisor de efeitos especiais na O2, uma das maiores produtoras de audiovisual do Brasil que faz cinema, TV e publicidade, “existe um mercado bem grande hoje”, afirma. “As produtoras de publicidade costumavam ser o grande filé para quem queria trabalhar com isso. Mas, nos últimos anos, o entretenimento (cinema, séries de TV e outros formatos) estão ganhando muito espaço e aumentando muito a demanda. Uma das grandes diferenças, na minha visão, é que a computação gráfica deixou de ser usada apenas para ‘efeitos especiais’. Nos últimos anos, por uma série de fatores, foi se entendendo que a computação pode ser usada como ferramenta de produção. E aí, quem entende isso, consegue aumentar muito o production value do filme que estiver fazendo, mesmo sem um orçamento gigante.”

Exemplo prático disso que fala Laganaro é um dos mais novos projetos que se encontra nas mãos da O2 hoje. Anunciado pela TV Cultura em outubro de 2013, uma nova série de animação dirigida por Cao Hamburger (criador do "Castelo Rá-Tim-Bum"), provisoriamente chamada de "Crocs", deve demandar nos próximos meses uma grande soma de profissionais qualificados em softwares como Maya ou Nuke, cujos cursos são dados na Axis.

“A publicidade continua sendo o carro-chefe. Mas hoje temos um mercado bem melhor do que tínhamos 10, 15 anos atrás”, acredita Eduardo Schaal, instrutor da Axis e atualmente Senior Art Director da Top Free Games, uma empresa brasileira que produz games para celulares e tablets consumidos no mundo inteiro.

Segundo Schaal, existe uma geração de jovens que ainda acredita que aprender a mexer em um software é suficiente para começar a trabalhar na indústria. “Mas sem passar por um treinamento mais tradicional, com as premissas do que é um desenho artístico, eles não conseguem ir muito longe”.

A opinião é sustentada pelo coordenador da Axis, Fred Saddi-Naccache L.: “Se você quer apenas aprender a apertar botão, beleza, os softwares vão te ajudar a criar algumas coisas. Mas se você quer ser bom, embasamento artístico é necessário, sim. Na minha opinião, desenhar bem no papel é o melhor caminho para que você saiba desenhar as coisas mais incríveis no computador.”

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