"Fazer cinema no Brasil é bom negócio", afirma o produtor Rodrigo Teixeira

Por Luísa Pécora , iG São Paulo | - Atualizada às

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Com o terror "Quando Eu Era Vivo" em cartaz, dono da RT Features fala ao iG sobre problemas do mercado brasileiro e ambições internacionais: "Cada filme é uma empresa"

O ano promete ser movimentado para Rodrigo Teixeira, um dos produtores mais importantes do cinema brasileiro. Seu catálogo de lançamentos inclui o terror "Quando Eu Era Vivo", que estreia nesta sexta-feira (31), o policial "Alemão" e a cinebiografia "Tim Maia". Entre as filmagens previstas para 2014 está a de "To The Stars", dirigido por James Gray ("Os Donos da Noite", "Amantes"). E em maio ele promete anunciar um novo projeto, no qual trabalhará com um de seus diretores favoritos.

"É uma pessoa importante, mas infelizmente não posso falar mais", afirmou Teixeira, em entrevista concedida ao iG em um hotel de São Paulo. "Para mim é um sonho. Nunca imaginei que chegaria nele, e cheguei."

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AgNews
Rodrigo Teixeira em entrevista coletiva sobre 'Quando Eu Era Vivo' em São Paulo

Ambicioso, Teixeira é um dos nomes mais quentes do cinema nacional, ainda que permaneça desconhecido do grande público. Carioca criado em São Paulo, ele cursou administração de empresas e trabalhou no mercado financeiro, mas se encontrou no papel de empreendedor. Criou coleções literárias ("Camisa 13" e "Amores Expressos") e pegou gosto pelo cinema - produziu filmes como "O Cheiro do Ralo", "Natimorto", "Heleno" e "O Abismo Prateado".

Sua fórmula é fazer filmes de baixo orçamento, geralmente baseados em obras literárias ou musicais. Parte de seu trabalho, aliás, é atuar como uma espécie de "olheiro", comprando direitos autorais de livros e discos.

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"Não dá para criar projetos de custo exorbitante para uma indústria que ainda está nascendo", afirmou Teixeira, que não tem dúvidas de que fazer cinema no Brasil "pode ser um bom negócio". "Cada filme é uma fábrica, que tem a possibilidade de dar dinheiro ou não. Depende de como você trabalha, de como você financia."

Imagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Quando Eu Era Vivo'. Foto: Divulgação

Embora elogie o Fundo Setorial do Audiovisual, que fomenta a cadeia produtiva com diferentes instrumentos financeiros (investimento, financiamento, operações de apoio etc), Teixeira afirma que a indústria cinematográfica brasileira só existirá de fato quando outras ações forem implementadas - do fim de impostos para equipamentos a empréstimos a juros menores.

Fazer filmes que se paguem sozinhos também é o objetivo de Teixeira em sua carreira internacional. Produtor de "Frances Ha" e "Night Moves", ele quer ver a RT Features ser reconhecida como um selo importante do cinema independente norte-americano.

"Quero que cada projeto sobreviva sozinho, mas que exista um reconhecimento de que todos foram feitos pela mesma empresa."

Leia os principais trechos da entrevista:

iG: Fazer cinema no Brasil é um bom negócio?
Rodrigo Teixeira: Tem possibilidade sim, eu acho bom negócio. Acho que você tem como fazer dinheiro com o cinema brasileiro. Se você pegar só as comédias, todas fizeram dinheiro. Todas. Fazer dinheiro com cinema está muito relacionado ao custo do que você faz. Quanto mais caro custar io seu projeto, maior vai ter que ser o seu público. E depende muito também de como o projeto é financiado. Às vezes você financia de uma forma que não vai dar lucro nunca.

iG: Como, por exemplo?
Teixeira: Digamos que você vai fazer um filme com R$ 12 milhões, com dinheiro todo ou parcialmente incentivado. Se você tem alguma expectativa de ganhar dinheiro, esse filme tem que fazer mais de 3 milhões ou 4 milhões de espectadores. Cada filme é como se fosse uma empresa, que tem uma estrutura. Você tem que entender qual é a estrutura desse filme. Cada filme é uma fábrica, que tem a possibilidade de dar dinheiro ou não. Depende de como você trabalha, de como você financia. É assim que funciona. Cada projeto tem sua história. Dá para ganhar muito dinheiro, dá para não ganhar nada, dá para perder dinheiro...depende do negócio.

Cristina Granato
Rodrigo Teixeira com a equipe de 'Quando Eu Era Vivo': a cantora Sandy e o diretor Marco Dutra

iG: Você acha que, no Brasil, pega mal falar do cinema como negócio?
Teixeira: Eu acho um absurdo. Acho que até pode pegar mal, sim. A gente tem uma mentalidade de que o incentivo fiscal é uma muleta. O incentivo fiscal é uma ótima ferramenta - de negócio inclusive. Você recebe o dinheiro e, se for bem-sucedido, você vai ganhar dinheiro. Mas se você quer pegar dinheiro público e tentar fazer um Picasso, você tem que fazer um Picasso de verdade, que vai ter valor em algum momento. Porque se você pega dinheiro público para fazer só arte, que eu também não tenho nada contra, você corre o risco de ter um projeto de efeito artístico zero e efeito econômico zero. O incentivo fiscal foi feito para incentivar uma indústria. A gente não incentivou uma indústria. Acho que a gente durante 15 anos não conseguiu incentivar uma indústria.

iG: E como fazer isso?
Teixeira: A maneira como o fundo setorial está se apresentando vem para quebrar o ritmo que o cinema estava tendo, para tentar criar um modelo industrial. E como é uma novidade, estamos falando de três anos de investimento, está todo mundo aprendendo como fazer isso. Mas se o entretenimento audiovisual brasileiro não desse dinheiro, a Rede Globo não estava fazendo. Esta para mim é a maior resposta de todas. A Rede Globo sabe como ninguém o quanto o entretenimento audiovisual dá dinheiro. Ele (aponta para o ator Antonio Fagundes, sentado do outro lado da sala) sabe como ninguém o quanto o entretenimento audiovisual dá dinheiro. A única coisa que a Globo realmente tem e que ninguém mais tem chama dramaturgia de televisão. Para o bem ou para o mal. Fazendo porcaria ou fazendo coisa boa, a Globo dita a regra do mercado. E ela ganha dinheiro.
Mas tem outra coisa: no futuro a janela do cinema vai ser dividida entre celular, iPad...a gente está no meio de uma revolução que nem a gente entende, porque hoje você decide o canal de exibição que você quer ver. Você decide, você tem poder para isso. Inclusive se você quiser piratear, você consegue. Você senta ali e assiste "Ela", do Spike Jonze (que estreia em 14 de fevereiro). Isso aí vai ser a grande salvação do nosso mercado.

iG: Por quê?
Teixeira: Somos um país com dimensão continental, um país que consome o que esses artistas geram. Imagina a infinidade de projetos que você pode fazer. Acho que o grande segredo para fazer isso de uma maneira coerente é custo. Não dá para criar projetos de custo exorbitante para uma indústria que ainda está nascendo. Então você tem que voltar e recriar o custo para poder ir. Senão você nunca vai conseguir industrializar isso aqui. Tem que se pensar em muita solução.

iG: Por exemplo?
Teixeira: Por exemplo zerar os impostos para equipamentos que não são fabricados no Brasil. Você vai ter imposto para trazer uma câmera por quê? Não se fabrica essa câmera no Brasil. Você não está incentivando porra nenhuma, não tem fábrica brasileira de câmera, não tem fábrica brasileira de equipamento de finalização. Por que esse imposto que custa tão caro? Noventa por cento dos produtores não tem acesso a dinheiro para comprar esse equipamento. E você não tem acesso a empréstimo bancário. Faz uma enquete com todos os produtores que você conhece e pergunta se eles iriam ao banco pedir empréstimo para um filme se fossem juros anuais, como nos Estados Unidos. O cinema independente norte-americano é muito feito de empréstimo. As pessoas pegam empréstimo no banco, financiam e repagam. Se dá errado, os caras recuperam com outros projetos que têm. Aqui no Brasil você vai no banco e a taxa é de 5%, 9% ao mês. Quem vai pegar dinheiro com essas taxas? Ninguém, porque se você for mal, você quebra, você está devendo a sua vida. Agora, se você tiver um projeto com 2% ou 3% de juros ao ano, vocês faz o empréstimo na hora e lança o filme. O fundo setorial é uma ferramenta que precisa ser combinada com outras. Aí sim você vai ter uma indústria efetiva de cinema no Brasil. Dinheiro tem. Certeza absoluta. E acho que se os caras estão com culpa... eu penso o contrário. "Tropa de Elite" tem uma qualidade excelente e fez dinheiro. A gente deveria ter orgulho de "Tropa de Elite". Todo mundo queria ter feito "Tropa de Elite", principalmente o segundo. Se o cara falar para você que não queria, está mentindo. Foi um sucesso. Eu queria ter no meu currículo um sucesso desses. Eu não tenho.

Divulgação
Imagem do filme 'Frances Ha', produzido pela RT Features

iG: Você é quase como um "olheiro" de possíveis adaptações cinematográficas, e comprou direitos autorais de obras tão diversas quanto um disco do Bob Dylan e um livro do Lourenço Mutarelli. O que te chama a atenção, como você decide que algo daria um filme?
Teixeira: Desde pequeno enxergo alguma coisa em tudo o que leio e gosto. Nunca me vi como roteirista. Preciso de muita concentração para escrever, mas sou muito disperso. Não enveredei para ser diretor, para pegar as ideias e dirigir. Não sei se no futuro vou querer. Encontrei meu caminho na produção. Comecei a ver que as ideias que eu tinha, que eu buscava, agradavam outras pessoas. É muito pautado pelo meu gosto pessoal. Sou bem curioso, ativo. Leio tudo o que você pode imaginar. Às vezes estou lendo uma revista no avião, vejo um negócio que dá uma ideia, vou atrás da pessoa que escreveu a matéria, vou atrás do personagem. Sou muito intuitivo em relação a isso. E uma coisa que também me atrai é escolher artistas com quem eu quero trocar. No começo eu era muito cara-de-pau, chegava nas pessoas sem ter currículo. Às vezes era bem recebido, às vezes ignorado. Hoje em dia, através do currículo que a gente está criando, consigo acesso e ter essa troca com mais facilidade.

iG: Você costuma comprar projetos que não serão tocados imediatamente?
Teixeira: Acontece. Você se apropria do projeto para que ninguém pegue.

iG: E se alguém quiser pegar, precisa falar com você antes.
Teixeira: Exatamente, Se alguem quiser, aí pode sair alguma coisa. Tenho evitado fazer isso, porque esse mercado é irreal no Brasil. E às vezes você não quer trabalhar com o cara que vem falar com você. O maior problema que você tem numa posição como essa é uma pessoa que você não está a fim de trabalhar insistir para você trabalhar com ela. Às vezes você precisa evitar ser grosseiro. Prefiro muito mais agir e buscar o que acredito para o projeto do que reagir ao que alguém me propõe. Às vezes eu me surpreendo. Gente que eu nem imaginava chega e tem liga. Mas na maioria das vezes não tem isso. O cara vem e não tem nada a ver. Então prefiro dizer: "Você quer o projeto? Tá aqui, leva para você. Faz o que você quiser, vende." Aí eu me desapego.

iG: Qual é a sua ambição em Hollywood?
Teixeira: É fazer com que a minha empresa seja conhecida como um selo de cinema independente americano importante. E que cada projeto tenha sua vida própria, gere seu recurso. Ganhei dinheiro com o "Frances Ha", estou ganhando com o "Night Moves". Quero que cada projeto sobreviva sozinho, mas que exista um reconhecimento de que todos foram feitos pela mesma empresa. E na medida do possível trabalhar com pessoas que eu admire. Meu próximo é com o James Gray, um dos meus diretores favoritos. Só de poder passar um dia trabalhando com ele num roteiro, ganhei anos da minha vida. Tive a oportunidade de conhecer diretores inacreditáveis, meus ídolos da vida.

iG: Por exemplo?
Teixeira: Tem um que não posso revelar, porque vou anunciar um projeto com ele em breve. Passei um bom tempo com ele no segundo semestre e para mim é assim... um sonho. Nunca imaginei que chegaria nele, e cheguei.

iG: É um dos dois que você sempre cita quando te perguntam com quem sonha em trabalhar (Woody Allen e Martin Scorsese)?
Teixeira: (sorri) Não tenho como dizer. Não tenho como falar. É uma pessoa importante, mas infelizmente até maio não posso falar. Em maio prometo que te conto.

iG: E o Oscar? É um objetivo?
Teixeira: O Oscar, como qualquer premiação, é consequência. Todo mundo tem a sua vaidade de ser indicado um dia. Óbvio que se um filme meu for indicado, a vaidade vai falar mais alto do que qualquer coisa. É como você ganhar uma Copa do Mundo. A mesma coisa com os festivais. Ganhar Cannes, Berlim e Veneza é como ganhar o US Open, o Roland Garros e o Australian Open. É foda. Ter isso no currículo é chegar no topo artístico da carreira. 

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