"Selo de qualidade", Oscar garante boa bilheteria e pode impulsionar carreiras

Por Luísa Pécora , iG São Paulo | - Atualizada às

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Estúdios são principais beneficiados por indicação ou vitória no maior prêmio do cinema, mas atores também ganham prestígio, oportunidades e aumento no cachê

A campanha dos estúdios hollywoodianos para ganhar o Oscar movimenta milhões de dólares, representa meses de esforços de marketing e impõe uma intensa rotina de eventos e entrevistas para atores e atrizes. No fim das contas, será que tanto investimento de tempo e dinheiro vale a pena?

Estudos e analistas garantem que sim, principalmente para os estúdios. E nem é preciso ganhar: a mera indicação ao Oscar de melhor filme é suficiente para que ele receba forte impulso nas bilheterias e dê mais dinheiro aos realizadores.

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Imagem de 'Gravidade', indicado ao Oscar 2014 de melhor filme. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Trapaça', indicado ao Oscar 2014. Foto: Reprodução/FacebookImagem do filme '12 Anos de Escravidão', indicado ao Oscar 2014. Foto: DivulgaçãoTom Hanks em 'Capitão Phillips', indicado ao Oscar 2014. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Clube de Compras Dallas', indicado ao Oscar 2014. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Ela', indicado ao Oscar 2014. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Nebraska', indicado ao Oscar 2014. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Philomena', indicado ao Oscar 2014. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Lobo de Wall Street', indicado ao Oscar 2014. Foto: Divulgação

De acordo com estudo do centro Ibis World Media, entre 2007 e 2011 os indicados à estatueta de melhor filme tiveram orçamento médio de US$ 42,1 milhões (R$ 102 milhões) e renda de US$ 104,2 milhões (R$ 252,5 milhões). Pelo menos metade deste valor costuma ser arrecadado depois de a Academia anunciar suas indicações.

Outra pesquisa, esta do site BoxOfficeQuant, analisou todos os vencedores do Oscar entre 1990 e 2009 e concluiu que a estatueta de melhor filme representa um ganho extra de quase US$ 14 milhões nas bilheterias. O valor, que já é alto, não leva em consideração ganhos fora dos Estados Unidos ou com a venda de DVDs e Blu-rays, por exemplo.

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Para analistas, muito deste impulso se deve ao fato de o prêmio ser visto como selo de alto padrão. "Se você puder colocar 'indicado ao Oscar' ou 'vencedor do Oscar' em um pôster, anúncio de jornal ou capa de DVD, trata-se do mais imediato indicador de qualidade que as pessoas conhecem", afirmou Scott Feinberg, analista do site "The Hollywood Reporter", em entrevista ao iG.

Como grande parte do público quer ver os filmes indicados antes da cerimônia, que neste ano está marcada para 2 de março, os estúdios fazem o que podem para colocá-los no maior número possível de salas.

Mesmo filmes que já tinham saído de cartaz voltam ao circuito, como "Gravidade", que estreou em outubro, mas retornou aos cinemas dos Estados Unidos e do Brasil após receber dez indicações. "Clube de Compras Dallas", uma estreia de novembro, nunca esteve em tantos cinemas norte-americanos quanto agora: foram 294 salas a mais logo depois de ser indicado em seis categorias.

Para Feinberg, são estes filmes menos badalados - neste ano, "Clube de Compras Dallas", "Ela", "Nebraska" e "Philomena" - os que mais se beneficiam do efeito da indicação nas bilheterias. "Até então, eles não estavam no radar das pessoas."

Getty Images
Halle Berry com o Oscar de melhor atriz de 2002: exemplo da 'maldição do Oscar'

Atores e atrizes

Para os atores e atrizes indicados, o prêmio geralmente representa mais prestígio e ofertas de trabalho, bem como aumento no cachê. 

"Quem leva o Oscar costuma ganhar mais dinheiro em seus projetos posteriores. Mas esse valor não chega nem perto do que um estúdio pode ganhar se tiver um ano bom, com vitória nas principais categorias", afirmou Phil Contrino, analista-chefe do site BoxOffice.com.

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O aumento de cachês pós-Oscar não segue um padrão, mas é algo rotineiro na indústria cinematográfica.

Nicolas Cage, por exemplo, ganhou US$ 240 mil (R$ 581,7 mil) em "Despedida de Las Vegas", filme que lhe deu o Oscar em 1996. Dali em diante, viu seu salário disparar: foram US$ 16 milhões (R$ 38,7 milhões) de cachê em "Olhos de Serpente" e R$ 20 milhões (R$ 48,4 milhões) em "60 Segundos".

Halle Berry ganhou US$ 600 mil (R$ 1,4 milhão) por "A Última Ceia", pelo qual levou o Oscar de melhor atriz em 2012. Depois de premiada, embolsou US$ 14 milhões (R$ 33,9 milhões) por "Mulher-Gato".

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Berry, porém, nunca voltou a fazer trabalhos relevantes, transformando-se num dos principais nomes associadaos à chamada "maldição do Oscar", ao lado de atores como Cuba Gooding Jr., Mira Sorvino, Reese Whiterspoon e Renée Zellwegger.

"Ganhar um Oscar pode levar uma carreira a outro patamar. Algumas pessoas sabem capitalizar, mas outros não conseguem usar esse 'momentum' do jeito certo", explicou Contrino. "As escolhas pós-Oscar são extremamente importantes."

Indicados deste ano

Um exemplo de acerto é a atriz Jennifer Lawrence, indicada ao Oscar pela primeira vez em 2010, por "Inverno da Alma". Ela perdeu, mas soube aproveitar as oportunidades, dividindo-se entre franquias ("Jogos Vorazes", "X-Men") e sucessos de crítica como "O Lado Bom da Vida", pelo qual ganhou o Oscar em 2013, e "Trapaça", que rendeu nova indicação neste ano.

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A atriz Jennifer Lawrence com o Oscar de melhor atriz por 'O Lado Bom da Vida' (24/02/2013)

Para Feinberg, a nova indicação "não muda a vida" de Lawrence ou de outros concorrentes deste ano, como Sandra Bullock e Meryl Streep (que disputa o Oscar pela 18ª vez). “Ser indicado já é algo esperado para esses artistas. No máximo, faz com que mais pessoas queiram trabalhar com eles.”

Para outros, porém, o Oscar pode significar muito. Indicado pela última vez há 35 anos, Bruce Dern ("Nebraska") voltou aos olhos da indústria e deve receber mais ofertas de trabalho. Celebrado por "O Lobo de Wall Street", Jonah Hill tende a ser mais cotado para papéis dramáticos.

Mais interessante ainda será observar o que acontecerá com os novatos Barkhad Abdi ("Capitão Phillips") e Lupita Nyong'o ("12 Anos de Escravidão"). “Ninguém tinha ouvido falar deles há alguns meses e agora os dois estão por toda parte", disse Feinberg. "Vamos ver se eles conseguirão fazer uma carreira a partir da indicação do Oscar, como fez a Jennifer Lawrence, ou se serão alguém como Gabourey Sidibe, que fez pouca coisa depois de 'Preciosa.'"

Brasileiros indicados

Única atriz brasileira indicada ao Oscar, Fernanda Montenegro afirmou recentemente que tanto disputar o maior prêmio do cinema quanto ganhar o Emmy não mudou em nada sua carreira – e isso, para ela, foi um alívio.

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Fernanda Montenegro no almoço dos indicados Oscar de 1999

“(Ser indicada) é bom? É. É uma coisa importante. Você percebe que alguém te ama, alguém te quer, alguém te chama de meu amor. No Brasil, isso não muda nada. No mundo dos que produzem, seu salário aumenta, você é mais solicitada, então ‘estar lá’ é muito importante”, afirmou.

Mais: "Você ganha e continua a mesma coisa", diz Fernanda Montenegro

“Quando você ganha, você tem que imaginar seus mil projetos. Aí vai gente falar que você tem que fazer isso, fazer aquilo. Que vai ganhar milhões. Graças a Deus não tem isso aqui. Você ganha, fica feliz, volta para casa e continua a mesma coisa.”

Já Braulio Mantovani, indicado a roteiro adaptado por "Cidade de Deus" em 2004, acredita que o Oscar ajudou sua carreira tanto do ponto de vista financeiro quanto do prestígio. Mas ele acha difícil mensurar o impato da indicação, já que ela aconteceu em meio ao sucesso internacional do filme.

“Quando o filme foi exibido nos EUA, o cara que até hoje é meu agente me ligou para me representar. Ele conseguiu meu telefone com o Guillermo Arriaga e se ofereceu para ser meu agente. Disse que eu tinha que ir a Los Angeles para conhecer diretores, produtores e executivos de estúdio. Eu não tinha dinheiro para investir nessa viagem e francamente achava meio delirante pensar que poderia escrever roteiros em Hollywood. A indicação ao Oscar garantiu passagem e hotel de graça. Eu fui e, de fato, conheci muita gente do meio”, contou Mantovani ao iG.

De lá para cá, Mantovani fez roteiros nos EUA e na Europa (até agora não produzidos) e trabalhou com artistas como Brad Pitt, Charlize Theron, Oliver Hirschbiegel, Sebastián Cordero.

"Fiz ótimas amizades. Ganhei um dinheiro razoável. Mas há algum tempo não tenho escrito roteiros para os americanos e, honestamente, não tenho vontade. As pessoas são legais, mas o sistema dos estúdios é muito cruel com o autor."

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