Com verba de R$ 50 milhões, São Paulo pretende se transformar em polo de cinema

Por iG São Paulo , especial para o iG, por Carol Almeida | - Atualizada às

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Iniciativa tem como objetivos aumentar o número de público e produzir longas com qualidade reconhecida

O cinema paulista, que já foi palco de importantes embriões de indústria como a Maristela Filmes, Vera Cruz e a prolífica Boca do Lixo, vislumbra um recomeço. 

A iniciativa em questão chama-se SP Cine, uma empresa pública desenhada nos moldes da RioFilme, que irá trabalhar tanto para que o cinema feito em São Paulo tenha bilheterias tão rentáveis quanto os longas do Rio de Janeiro como para acumular premiações tão eloquentes quanto algumas das recentes produções feitas em Pernambuco e no Ceará.

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“Queremos que São Paulo amplie seus números. Tanto de público quanto de filmes reconhecidos como de qualidade”, explica Juca Ferreira, secretário de Cultura da cidade.

Agência Brasil
Juca Ferreira, secretário da Cultura da cidade de São Paulo

A ideia do projeto já existia desde 2001. “Naquela época, não encontramos um terreno fértil politicamente para criação da SP Cine. Conseguimos agora. E fizemos isso agregando todos os setores do mercado. Os pequenos, médios e grandes produtores e diretores elaboraram esse projeto que, espero, em cinco, dez anos coloque São Paulo na ponta do audiovisual brasileiro”, diz o cineasta Toni Venturi.

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Criado a partir da conversa entre nove associações do setor e a própria secretaria de cultura do município, a SP Cine ganhou também a parceria dos governos do Estado e federal. Aprovados pela Câmara Municipal e sancionado no dia 20 de dezembro pelo prefeito Fernando Haddad, a empresa já nasce com o aporte de R$ 25 milhões para investir no audiovisual da cidade. O governo do Estado se comprometeu em adicionar mais R$ 25 milhões em 2014. Já a Ancine, agência de cinema do governo federal, promete também injetar uma soma substancial, ainda que não tenha declarado quanto.

Marcello Casal Jr./ABr
O diretor Toni Venturi

Comparado aos números dos recursos de governo que a cidade de São Paulo tem hoje para investir em seu audiovisual, será um aumento bastante substancial para os realizadores.

Em 2013, o município disponibilizou cerca de R$ 9 milhões para o setor, enquanto o Estado, a partir do Programa de Ação Cultural (ProAC) e do programa de Fomento da Sabesp, cedeu em torno de R$ 14 milhões para produções de audiovisual.

“De fato, teremos no ano que vem um aumento bastante significativo no universo de recursos orçamentários em todas as áreas da cadeia do audiovisual, incluindo todos os formatos, bem como os campos de comercialização e distribuição”, afirma Marcelo Araújo, secretário de Cultura do Estado.

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Levando-se ainda em conta que, no âmbito federal, o Fundo Setorial do Audiovisual anunciou no dia 17 de dezembro um investimento recorde no mercado, R$ 400 milhões pro Brasil inteiro, e que a chamada Lei da TV Paga está estimulando mais do que nunca a produção de conteúdo nacional para canais fechados, espera-se que a SP Cine funcione como uma empresa que facilite e estimule a entrada de boa parte desses recursos para a cidade.

Mas o secretário de Cultura da capital diz: “Não é uma questão apenas de quantidade de dinheiro. O cinema e o audiovisual brasileiro têm desafios maiores que essa injeção de dinheiro no setor. O que precisamos fazer é gerar um modelo de financiamento e fomento que estimule tanto o desenvolvimento da linguagem quanto a conquista de mercado.”

Juca Ferreira quer dizer que a SP Cine não será apenas uma empresa a ceder volumes de recursos, mas, segundo o texto de seu projeto, uma instituição que venha a cobrir as principais carências do setor. E estas não estão apenas ligadas ao investimento financeiro.

Problemas

Divulgação
A cineasta Tata Amaral

São três os maiores problemas hoje. O primeiro quem elenca é a cineasta Tata Amaral: “Eu espero que a SP Cine venha a mudar a chamada política de evento relacionada ao cinema. Política de evento é financiar um ou outro filme uma vez por ano. O cinema tem de ser feito permanentemente.”

Para suprir essa dificuldade, a SP Cine prevê, por exemplo, a criação de um laboratório que reuna realizadores de diferentes setores do audiovisual, incluindo aí games, animação e vídeos interativos, para construção de uma rede colaborativa a pensar junto projetos para cinema, TV e outras mídias.

O segundo problema quem aponta é Alfredo Manevy, secretário-adjunto de cultura do município e pessoa à frente da elaboração da SP Cine: “No atual momento, temos 25 filmes já finalizados, feitos em São Paulo, sem tela, sem espaço de exibição. Sintoma de falta de distribuição e de estrutura para viabilizar o cinema paulista e brasileiro.”

Uma das propostas da SP Cine é tanto criar um diálogo mais próximo com a cadeia exibidora que, em São Paulo, é a maior do país (são 293 salas comerciais, enquanto o Rio tem 188, segundo dados de 2012 da Ancine), quanto capacitar os 74 espaços da prefeitura que podem servir como salas de cinema. Entre esses espaços, há salas em casas de cultura, CEUs e bibliotecas.

E, finalmente, um dos maiores entraves para o desenvolvimento do audiovisual na capital paulista é a dificuldade e a burocracia de filmar pela cidade. Em 2012 chegou-se até a circular um documento da Secretaria Municipal de Segurança Urbana proibindo qualquer filmagem ou fotografia em tripé num espaço coletivo sem a autorização prévia da prefeitura. Graças a manifestações em redes sociais, essa proibição não chegou a entrar em vigor. Nessa frente, a SP Cine pretende facilitar a vida dos produtores com a sua própria Film Commission.

Juca Ferreira explica: “Teremos uma Film Commission que vai criar uma estrutura da prefeitura, junto com a Secretaria de Transporte, a Controladoria Geral do Município e sub-prefeituras pra que seja facilitada ao máximo possível qualquer filmagem pela cidade”. Está previsto também o lançamento de um aplicativo em que os realizadores possam, por exemplo, acionar a polícia ou a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) com poucos dias de antecedência às filmagens para ajudá-los a trabalhar em determinado ponto de São Paulo.

De acordo com Renato Nery, que trabalha no núcleo de fomento de linguagem do cinema na prefeitura, a SP Cine terá uma atuação semelhante à da National Film Board, do Canadá. "No sentido de que ela será uma empresa que observa o setor inteiro e, identificando seus gargalos, trabalha para resolvê-los."

Modelo Riofilme

Itamar Aguiar/PressPhoto
O cineasta Fernando Meirelles

Antes de cada projeção de filme durante o último Festival do Rio, uma vinheta da RioFilme anunciava prodigiosos números conquistados: nos últimos cinco anos, mais de R$ 150 milhões foram investidos no audiovisual pela prefeitura carioca.

Nesse mesmo período, foram 350 projetos apoiados, 12 mil empregos gerados, e uma projeção de R$ 800 milhões injetados no PIB nacional. E o mais importante: em 2012, nove dos 10 filmes de maior bilheteria do país tinham sido feitos com investimento da RioFilme.

Para o diretor Fernando Meirelles, sócio de uma das maiores produtoras de audiovisual de São Paulo, a O2, “a RioFilme é o melhor modelo que temos no Brasil. Foi inteligente o projeto aproveitar o que deu certo na experiência carioca e tentar melhorar a partir daí. Os acertos e erros no Rio vão nos ajudar a achar nosso caminho mais rapidamente. Com o tempo, a SP Cine pode ficar até mais completa pois vai pegar o projeto lá onde ele está nascendo e apoiará até salas de exibição na outra ponta.”

Desde que foi anunciada oficialmente como empresa em outubro de 2013, em cerimônia que contou com a presença do prefeito Fernando Haddad, do governador Geraldo Alckmin e da ministra da Cultura Marta Suplicy, essa comparação com a RioFilme, na medida em que animou alguns, assustou outros.

Principalmente nos últimos cinco anos, a RioFilme tornou-se uma empresa pública focada essencialmente em retorno comercial que, apoiada pela enorme estrutura da Globo Filmes, é acusada de sufocar os pequenos produtores com projetos mais audaciosos do ponto de vista da linguagem.

Os autores do projeto da SP Cine afirmam que não será essa a política da empresa paulista: “Vamos nos inspirar, sim, em parte na busca econômica da RioFilme. Mas em outra parte nessa qualificação do roteiro e da pesquisa, onde o cinema pernambucano, por exemplo, tem sido marcante nesses últimos anos. Pela característica cultural da cidade de São Paulo, me parece que esse é o caminho a ser seguido”, garante Manevy.

A diretora Tata Amaral completa: “Acho que o modelo adequado pra São Paulo tem que buscar sim realizações comerciais. Mas nossa tradição é mais horizontal, no sentido de chegar nos quatro cantos, de todas as maneiras. Não apenas nas salas comerciais, em shoppings. Nosso cinema é mais plural e múltiplo. E deve continuar sendo."

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