Diretores brasileiros comentam seus filmes de fim de ano favoritos

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

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René Sampaio, Roberto Santucci e Nando Olival falam sobre longas como "A Felicidade Não se Compra", "Gremlins" e "Se Meu Apartamento Falasse"

É tradição: quem ligar a televisão nos Estados Unidos durante as festas certamente vai se deparar com um clássico filme de fim de ano que estará sendo exibido pela enésima vez - "Milagre na Rua 34", "Natal Branco", "Agora Seremos Felizes", entre tantos outros.

No Brasil, os filmes de fim de ano nunca conseguiram se tornar algo tão obrigatório quanto o show do Roberto Carlos. Na intenção de celebrar o gênero, que já rendeu bastante coisa boa, o iG convidou três diretores para comentarem suas produções preferidas e as lembranças que elas trazem.

Claudio Augusto
René Sampaio, diretor de "Faroeste Caboclo"

René Sampaio, diretor de "Faroeste Caboclo"

Filmes escolhidos: "Os Fantasmas Contra-Atacam", de Richard Donner (1988); e "Gremlins", de Joe Dante (1984)

"Adoro Natal. Sempre gostei. Gosto das canções, das luzes, gosto até das lâmpadas queimadas na Esplanada dos Ministérios pois lembram a minha infância em Brasília. Gosto do peru meio ressecado, de rever os parentes e de ver que escolheram a melhor roupa para ficar em casa! E os presentes? Ganhar meia, dar sabonete, enfim, tudo isso me traz as mais doces lembranças. Mas filme de Natal…difícil!!! Não consigo embarcar nessas histórias melosas e fantasiosas onde todo mundo fica bem ou algo extremo acontece para salvar uma noite ou situação perdida.

Mas, em meio a muito sino, rena voadora e neve cenográfica me recordo de dois filmes dos anos 80 que fogem à regra, ainda que tenham a essência do Natal em suas histórias: 'Os Fantasmas Contra-Atacam' e 'Gremlins'. Com ironia, humor e muita coisa politicamente incorreta os dois divertem muito.

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Imagem do filme 'Os Fantasmas Contra-Atacam'

Me lembro de entrar no cinema para ver 'Os Fantasmas Contra-Atacam'. Como no cartaz havia o Bill Murray, achei que fosse uma continuação de "Caça-Fantasmas". Quebrei a cara! Mas adorei.

Baseado num conto de Charles Dickens, que eu já havia lido e visto em outros filmes mais tradicionais, eu rolei de rir com essa versão que beira o trash e hoje é cult. E Bill Murray, um dos piores melhores atores do mundo está muito bem nessa comédia que, no final, recupera o espírito natalino: algo de bom sempre pode florescer, em todo mundo, e mudar as coisas na madrugada do dia 25.

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Imagem do filme 'Gremlins'

'Gremlins' fala de tudo, menos da essência natalina. Essa mistura de comédia e humor negro começa com um presente de Natal mal escolhido, um bichinho peludo e fofo que acaba virando um pesadelo. Na hora de cuidar do pequeno animal, as instruções não são seguidas à risca e ele se multiplica. Sua cria se transforma num bando de monstros que aterrorizam o Natal da família e da cidade. É trash e divertido e, como se espera de um filme que se passa no Natal, tem final feliz.

Vi esses dois filmes quando tinha entre 11 e 15 anos de idade. Ao longo da vida, eu os revi diversas vezes. Eles me lembram o fim da minha infância e o início da adolescência. E me fazem reviver momentos preciosos que tive com meus pais e meus irmãos na época de Natal. No dia seguinte à noite natalina, a gente costumava se reunir para ver filmes em VHS, alugados antes que as locadoras fechassem para o feriado. Isso lá pelos anos 80, quando eu, garoto, guardava meu olhar ingênuo, leve, doce. São memórias maravilhosas de um tempo que não volta mais. Ou melhor, que volta, sim, sempre que me sento para rever os bons filmes da minha infância e, com eles, reviver a fantasia do Natal."

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O diretor Roberto Santucci

Roberto Santucci, diretor de "Até que a Sorte nos Separe 2"

Filme escolhido: "A Felicidade Não se Compra", de Frank Capra (1946)

“É difícil pensar em filme de Natal, mas o que me vem à cabeça é 'A Felicidade Não Se Compra'. Acho que em algum momento da minha vida se falava que era um filme de fim de ano e acabei assistindo. Talvez tenha sido nos Estados Unidos, onde morei durante seis anos, quando já era um jovem adulto.

É um filme que tem essa mágica de olhar a vida como um todo. Tem um personagem que está desanimado, que acha que não vale nada, que tem o sonho de viajar, de sair de onde está e se tornar alguém. E aí ele vê que tem uma importância que não dá a si mesmo, vê como ele é importane para os outros, como transforma a cidade onde mora.

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Imagem do filme 'A Felicidade Não se Compra' (1946)

É um filme que tem essa mágica especial, essa coisa de repensar a vida. Muitas vezes a gente acha que a vida tem de ser uma maneira e percebe que não é desta maneira, mas também é incrível e a gente que não está sabendo reconhecer.

O filme é antigo, mas não perde nada quando se vê hoje em dia. Envelheceu muito bem, quer dizer, não envelheceu. Porque tem força, segura (o espectador), mesmo sem efeitos especiais, sem os elementos que usamos hoje em dia. A força está na história e, é claro, na atuação maravilhosa do James Stewart."

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Nando Olival, diretor de 'Os 3'

Nando Olival, diretor de "Os 3"

Filmes escolhidos: "Parceiro do Silêncio", de Daryl Duke (1978); "Esqueceram de Mim", de Chris Columbus (1990); "A Vida de Brian", de Terry Jones (1979); e "Se Meu Apartamento Falasse", de Billy Wilder (1960)

"Para ser sincero, não tenho muito esse vínculo com Natal. Nunca foi uma coisa muito marcante, e não lembro muito de quando era criança. Então estaria mentindo se dissesse que tenho uma relação especial com filmes de Natal. Me lembro mais de cenas.

Penso, por exemplo, em "Parceiro do Silêncio", que vi quando era moleque. Não lembro muito do enredo, mas era um filme super interessante e tocava "The Sound of Silence" do Simon e Garfunkel. É sobre um cara que é caixa de um banco dentro de um shopping center e perceber que vai ter um assalto e que o assaltante é o Papai Noel do shopping. É um desses filmes com situações bem norte-americanas, o Papai Noel vai para a prisão, estas coisas.

Também acho "Esqueceram de Mim" bárbaro, porque é o tema do Natal transformado em aventura, sem aquela babaquice toda.

E lembro também da sequência inicial dos reis magos em "A Vida de Brian", do Monty Python, que não tem nada a ver com o Natal em si, mas fala sobre a origem do Natal. É bárbara aquela cena.

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Imagem do filme 'Se Meu Apartamento Falasse'

Me lembro de coisas que vi depois de velho, quando comecei a estudar cinema mesmo. Como "Se Meu Apartamento Falasse", do Billy Wilder, por exemplo. Tem aquela cena no Réveillon, quando ela vai atrás dele e ele está sozinho tomando champanhe. Aí ele se declara e ela diz: "Vamos continuar jogando". É uma cena bárbara.

Aí sim tem um vínculo, o vínculo de aprendizado de cinema, de ter visto a cena para entender como o cara filmou, o motivo de ter roteirizado desse jeito. É um vínculo mais acadêmico, não tanto a coisa infantil do Natal."

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