"A Vida Secreta de Walter Mitty" mostra personagem preso ao tédio do cotidiano

Por Caio Teixeira , iG São Paulo | - Atualizada às

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Dirigido por Ben Stiller, filme conta história de empregado de revista que se apaixona por uma colega de trabalho

As pessoas não querem mesmo a felicidade”, afirma o filósofo contemporâneo Slavoj Žižek. Para ele - e para o que ele considera como inconsciente coletivo da sociedade -, o que importa mesmo é ser “interessante”, a felicidade é, na realidade, apenas um objetivo que deve se manter inalcançável. Em última análise, preferimos manter alguns sonhos à distância exatamente para continuar a “perseguição” dos mesmos, e é isso que nos traz o contentamento: a busca pela felicidade, não a mesma.

"A Vida Secreta de Walter Mitty" – uma releitura do conto homônimo de James Thurber, de 1939 – mostra a vida de um empregado da revista "Life" encarregado das imagens da publicação. Walter Mitty, interpretado pelo ator e diretor do filme, Ben Stiller, tem o costume (para não falar psicose) de se desligar da realidade enquanto busca fantasias mais interessantes do que a sua vida.

Cena de 'A Vida Secreta de Walter Mitty'. Foto: DivulgaçãoCena de 'A Vida Secreta de Walter Mitty'. Foto: DivulgaçãoCena de 'A Vida Secreta de Walter Mitty'. Foto: DivulgaçãoCena de 'A Vida Secreta de Walter Mitty'. Foto: DivulgaçãoCena de 'A Vida Secreta de Walter Mitty'. Foto: Divulgação

Ao conhecer e se apaixonar pela colega de trabalho Cheryl Melhoff (Kristen Wiig), Walter começa a perceber que chegou a hora de mudar sua vida. Junto disso, a revista na qual trabalha é adquirida por um grupo que irá descontinuar sua versão física e transformá-la completamente em digital – tal qual a vida real -, forçando Walter a se preocupar ainda mais com seu emprego.

Como estopim da revolução pessoal de Walter, a foto (enviada pelo melhor fotógrafo da revista, Sean O’Connell, interpretado por Sean Penn) que deveria ser a capa da última edição de banca da "Life" se perde. A junção de tudo faz com que Walter finalmente “abrace o mundo” e vá de encontro a si próprio.

Tal qual os pensamentos do filósofo Žižek, rapidamente fica claro que a busca pela felicidade de Walter – suas viagens e aventuras – são muito mais interessantes do que sua conclusão. E isso também pode ser dito sobre o próprio trabalho do diretor: Stiller consegue ter momentos belos da construção da epopeia de Walter, mas a falta de boas justificativas e pontes entre cada segmento acaba deixando o filme manco.

A personagem tem diversos momentos que o preparam para uma epifania de que existe algo maior fora de seu escritório, mas ele sempre volta ao computador em busca de emprego, mesmo após testemunhar coisas incríveis no topo do mundo e observar a vida de seu herói (o fotografo) de perto.

O começo do filme retrata Walter preenchendo um perfil para um site de relacionamentos, mas rapidamente percebe que nunca fez nada de interessante com sua vida para ser contado ali. O longa, no final e mesmo com seus belos momentos, serve apenas para isso: preencher as lacunas de um perfil e prender sua personagem na monotonia, mesmo que a história quase clame por “algo maior”, para que Walter saia da sua zona de conforto e se torne um pária.

"A Vida Secreta de Walter Mitty" vale a sessão, mas claramente não vive o seu potencial. Ah, a escolha da trilha-sonora, com participações de bandas como Arcade Fire e Junip, tem um destaque especial no clima do filme, porém ela só reforça o “chamado” para algo maior do personagem que nunca acontece.

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