Regina Casé filma "Made in China" no centro do Rio: "Corpo a corpo foi sofrido"

Por Nina Ramos , iG Rio de Janeiro | - Atualizada às

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Sem fazer cinema desde 2000, apresentadora interpreta uma gerente de loja na região conhecida como Saara

"Gente, preciso de um tempo de beijo para editar depois. Então vocês podem ir beijando aí, tá?”. A ordem, quem dá, é Estevão Ciavatta, diretor do filme “Made in China”. E estaria tudo bem se os ordenados não fossem Regina Casé, sua mulher, e o cantor Xande de Pilares, que virou ator para o primeiro longa de ficção de Estevão. “Iô iô (como Regina chama o marido), ficou bom? Fiquei meiga?”, pergunta a apresentadora depois da cena. “Ficou maravilhoso. Meiga e carinhosa”, responde Estevão.

O cenário de tanto amor no meio do dia de trabalho é uma Saara fictícia, construída com maestria pelo diretor de arte Tiago Marques em um estúdio na Freguesia, no Rio de Janeiro. Para quem não conhece, a região comercial carioca pode ser comparada com a Rua 25 de Março em São Paulo. Mas com um toque a mais de globalização. E é sobre a chegada dos chineses nesse mercado tomado há anos por judeus e árabes que Estevão meteu sua colher. Ou melhor, sua câmera.

Cena de 'Made in China'. Foto: Vantoen Pereira/DivulgaçãoCena de 'Made in China'. Foto: Vantoen Pereira/DivulgaçãoCena de 'Made in China'. Foto: Vantoen Pereira/DivulgaçãoCena de 'Made in China'. Foto: Vantoen Pereira/DivulgaçãoCena de 'Made in China'. Foto: Vantoen Pereira/DivulgaçãoCena de 'Made in China'. Foto: Vantoen Pereira/Divulgação

“Essa ideia já tem uns 10 anos. Eu comecei a pensar, imaginar e a ideia inicial era fazer sobre o que a Saara é mais conhecida, que é um território de paz entre árabes e judeus. E quando eu fui começar a pesquisar eu vi que a chegada nos chineses era a grande novidade e que desestabilizava a paz dessa ‘pequena ONU’, como o pessoal gosta de chamar”, disse ao iG durante a visita da reportagem.

“Para qualquer imigrante que chega de fora, a reação de quem já está na terra é falar: ‘Hum, gente esquisita’. Acho que os árabes e judeus enfrentaram isso, mas agora, como já estão na segunda e terceira geração, são eles que reagem à invasão do extremo Oriente. O filme prega a dificuldade da convivência, mas o arco dramático é de alguma solução, e a outra questão é uma afirmação de que no Rio, quiçá no Brasil, a Saara não será jamais uma Chinatown. Será eternamente Saara”, pontuou o diretor.

Na trama, que tem roteiro do próprio Estevão, Regina é a protagonista Francis, gerente da Casa São Jorge e braço-direito do dono do estabelecimento, Seu Nazir (Otávio Augusto). Na diagonal da esquina, a grande concorrente do árabe é a Casa do Dragão, do chinês Chao (Tony Lee). Encontrar talento brasileiro para ilustrar a história é fácil, mas e chinês? Por isso a equipe analisou uma batelada de testes e chegou aos nomes de Tony, o único ator profissional do grupo, Yili Chang e Liú Wang, mãe e filha que são chinesas, mas moram no Brasil.

“O Estevão e a Regina respeitam muito a diversidade. Eles querem saber mais sobre a nossa cultura, não é como alguns amigos brasileiros que perguntam ‘ah, vocês comem escorpião?’. Eles perguntam coisas mais profundas. Isso prende a gente e comove também. Quando li o roteiro, eu vi a minha história nessa menina. Assim como ela, eu também cheguei ao Brasil com 17 anos (hoje ela tem 23)”, relatou Yili, com sotaque carregado.

Voltando ao tal drama do beijo inicial, Xande, que vive o malandro Carlos Eduardo, precisou deixar o medo de lado para “pegar de jeito” a mulher do diretor. Ainda bem que ele é um cara tranquilo.

“Meu horizonte é totalmente música. Eu me coloquei à disposição para fazer o teste, mas fui convicto que não iria passar. E passei, a responsabilidade aumentou, o medo aumentou, e logo na primeira cena eu tinha que beijar a Regina. Foi no meio do Saara de verdade, com as pessoas querendo tirar foto e tudo mais… Eu fui ficando travado, mais preocupado... Estou aprendendo muito no dia a dia”, garantiu, com carimbo de aprovação do diretor: “Ele arrebentou. Estou muito feliz com a escolha”.

“O corpo a corpo foi muito sofrido”

Para fugir das cobranças de vendedores reais, “Made in China” criou uma esquina fictícia para abrigar a Casa de São Jorge e a Casa do Dragão. Com a Rua da Alfândega, a mais famosa da região, como centro da história, Tiago fez uma homenagem ao pai de Estevão e fez nascer a Rua Regente Pantoja. “Se eu colocasse a Alfândega com alguma rua que já existe, as pessoas iam reclamar. A partir do momento que você tem uma rua real com outra que não existe, a esquina se torna fictícia. O nome da Alfândega te dá uma credibilidade e a outra é uma brincadeirinha com o Estevão”, explicou o diretor de arte, que montou em um mês 20 lojas populares no estúdio.

A banda tocou em outro tom quando as câmeras de filmagens invadiram a Saara real. Já imaginou colocar uma Regina Casé no meio do comércio popular às vésperas do Natal? Ela mesma assumiu que foi puxado:

“Eu tenho algumas técnicas, por exemplo: se o ‘Esquenta’ vai ao ar no domingo, não dá para ir segunda porque está muito em cima. Melhor deixar para ir na quinta. Quando a gente foi gravar, eu fiquei desesperada, porque eu estava vestida de Francis, minha personagem, com a câmera longe, ou seja, ninguém estava vendo, e eu tinha que andar um pedação sem falar com ninguém. Quando eu chegava no fim do caminho, todo mundo estava xingando. ‘Não cumprimenta mais ninguém, não fala mais com os pobres...’. Isso foi a gravação inteira. Eu pegava o megafone, tentava explicar, mas foi uma loucura. Uns quatro dias e todo mundo me xingando (risos). O corpo a corpo foi muito sofrido”.

Sem segurança e sem frescuras, Regina contou que é frequentadora assídua da Saara. “Pra mim, o meu Rio de Janeiro é o Arpoador, o Jardim Botânico, o Mercadão de Madureira e o Saara. Eu não aguento ficar muito tempo sem ir ao Saara, eu vou muito. Mesmo com ‘Esquenta’, com qualquer programa. Sempre tem uma mulher que grita ‘a Regina Casééééé’, daí dá aquele estouro, mas eu seguro a onda. É um lugar que eu nunca quero perder a possibilidade de ir, porque é onde a gente se inspira. Esse filme vem muito de Estevão e eu irmos ao Saara. É uma comédia, mas é muito documental. A gente vai pelo menos uma vez por semana.”

O calor das gravações faz Regina matar as saudades do cinema, já que estava desde 2000 sem rodar (seu último filme foi “Eu, Tu, Eles”, de Andruccha Waddington). “Todo mundo fala que meu trabalho é muito ligado ao social, que eu sempre estou onde o povo está, e eu sempre ligava isso ao ‘Central da Periferia’, ao ‘Esquenta’, mas quando faço um retrospecto da parte de ficção, eu fico orgulhosa, porque todos os personagens que eu fiz são super populares. Por causa da Tina Pepper (da novela ‘Cambalacho”), na Bahia, em Cuba e em toda África, todo mundo achava que eu era preta e não mais ou menos, como sou. No ‘Eu, Tu, Eles’ eu faço uma nordestina como tantas que já conheci. Com a Francis também. Eu não faço uma composição. É uma observação quase documental das milhões de vezes que eu fiquei nas lojas analisando as meninas vendendo e tal. É um baú de registros que eu fiz”, revelou a apresentadora.

Parceria na vida e grande elenco

“Made in China” é apenas mais um projeto na extensa lista de parceria da dupla Estevão e Regina. No set, a agitação de uma completa a calmaria do outro. “A gente está mais do que acostumado. Trabalhamos juntos há muitos anos em situações difíceis. Eu digo que a gente nunca filmou em lugar fácil na vida. Na próxima encarnação eu vou fazer ‘Os Melhores Spas do Mundo’, alguma coisa assim (risos). Porque a gente só está sempre na favela ou no mato. Isso aqui é meio refresco, é perfumaria, realmente”, brincou a artista.

Para engrossar o caldo, Estevão compôs o time com nomes de peso. Juliana Alves vive a vendedora Andressa, Luis Lobianco, ator que surgiu no canal de humor do YouTube Porta dos Fundos, é o supervisor de vendas da Casa São Jorge, e o veterano Gilberto Marmorosch é o judeu que aluga o estabelecimento para o árabe Nazir. 

“Made in China” tem produção da Pindorama Filmes e da Conspiração Filmes, coprodução da Globo Filmes e distribuição da H2O Films. A previsão de lançamento é para o início de 2015.

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