Convidado da Mostra de São Paulo, diretor da trilogia da vingança que inclui "Oldboy" fala sobre a carreira e o impacto da ditadura sul-coreana em sua obra

Uma das mais brutais cenas de "Mr. Vingança", primeira parte da famosa trilogia do diretor sul-coreano Park Chan-wook, dois homens se encaram dentro de um rio. Um deles treme de frio e medo. O outro avisa que terá de matá-lo. Em seguida, corta seus calcanhares. A câmera se afasta no momento do ato, mas depois dá um close no corte, enquanto o sangue se espalha pela água.

Park Chan-wook participa de evento da Mostra
Luísa Pécora
Park Chan-wook participa de evento da Mostra

A cena foi exibida durante a "master class" de Chan-wook na FAAP, realizada na noite desta quarta-feira (30) como parte da programação da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo . "Revendo este filme...realmente é violento, não?", disse o próprio diretor quando o clipe acabou. "Se tivesse cortado um segundo do close do calcanhar, teria ficado melhor."

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Foi um comentário um tanto inesperado vindo de um diretor conhecido por filmes violentos, a começar pelos da trilogia da vingança (completa com "Oldboy" e "Lady Vingança"). Lançamentos mais recentes chegaram ao Brasil com a brutalidade evidenciada no título: "Sede de Sangue", um drama sobre vampiros; e "Segredos de Sangue" , suspense que marcou a estreia de Park em Hollywood.

Durante o evento em São Paulo, o cineasta de 50 anos contou que sua juventude foi marcada pelas sucessivas ditaduras militares entre as décadas de 1960 e 1980. Nesta época, contou, protestos estudantis e agressões policiais eram frequentes.

"Nunca fui preso ou torturado, mas muitos colegas foram, então ouvi muitas histórias. Nos protestos, tínhamos medo e ansiedade, porque sabíamos que haveria agressão", contou. "Meus filmes não têm esse contexto político, mas a presença das cenas de violência tem a ver com essa época que vivi. Talvez a motivação (para as cenas violentas) seja meu medo. Talvez seja uma forma de escape."

Kim Ki-Young e Alfred Hitchcock

Chan-wook é membro de uma geração que colocou o cinema sul-coreano entre os mais celebrados do mundo, e que é tema de um ciclo especial na Mostra deste ano. Para o cineasta, a ascensão começou no final dos anos 1990, justamente quando trabalhava em "Zona de Risco", o maior sucesso comercial da carreira.

"Até então, nosso cinema tinha pouco acabamento. Houve um clima entre os jovens diretores de se juntar e fazer uns filmes melhores", afirmou. "Durante a ditadura militar, os artistas foram muito agredidos e não puderam criar de acordo com sua imaginação. Foi preciso um intervalo."

James Stewart e Kim Novak em 'Um Corpo que Cai', de Alfred Hitchcock
Divulgação
James Stewart e Kim Novak em 'Um Corpo que Cai', de Alfred Hitchcock

Questionado sobre suas influências, Chan-wook disse ter crescido vendo filmes com os pais na televisão e relembrou dois momentos marcantes. O primeiro logo no primeiro ano da universidade, quando assistiu "A Empregada", de Kim Ki-Young. "Foi um choque para mim. Assisti e pensei: 'na Coreia também pode ter um cineasta com uma imaginação tão louca, um filme tão diferente", contou.

O segundo foi aos 23 anos, quando assistiu "Um Corpo que Cai", de Alfred Hitchcock, sem legenda ou dublagem. "Meu inglês não era tão bom e não sei se entendi tudo. Mas me senti como se tivesse sido atingido por um raio. Naquele momento, decidi que ia dedicar minha vida ao cinema."

Hoje, Park diz que o diretor é "uma entre as 1,5 mil influências" de sua carreira e não nega ter tentado apagar as referências a Hitchcock do roteiro de "Segredos de Sangue", inspirado especialmente em "A Sombra de uma Dúvida".

"Não gosto muito de fazer filme em homenagem a outro cineasta. Mas quando não consegui (mudar a principal referência, o nome do personagem Tio Charlie), resolvi abraçar a ideia e fazer brincadeiras."

Experiência em Hollywood

O cineasta afirma ter gostado do resultado final e trabalhado tranquilamente com o elenco hollywoodiano, liderado por Nicole Kidman. Mas também não esconde ter enfrentado dificuldades, do menor tempo de filmagem à falta de autonomia.

"Durante o processo de pós-produção o estúdio me fazia muitas perguntas. Isso me deixou estressado e às vezes ofendido", afirmou. "Mas depois pensei: 'esse é o sistema, sou eu quem precisa se adequar'. É como alguém que filma na Coreia e reclama que o verão é muito quente. Não tem como mudar."

Ele se diz curioso para ver o remake que Spike Lee fez de "Oldboy" e no qual não teve nenhuma participação (convidado para acompanhar a pós-produção, o sul-coreano disse estar "muito ocupado").

Sua expectativa é alta sobretudo quanto à versão norte-americana para uma longa cena de luta, filmada sem cortes, no qual o protagonista enfrenta dezenas de combatentes sem nenhuma arma de fogo.

"Na Coreia do Sul a restrição é tão grande que nem as gangues têm armas", comparou. "Penso que, nos EUA, esta cena teria um tiro e iria acabar."

Som e movimento

Famoso por storyboards complexos, que detalham até cenas simples, de diálogo entre dois atores, Chan-wook dá especial atenção ao visual e aos efeitos de som. Sua preferência é por trilha sonora que remeta à dança e dê movimento aos filmes.

"Algumas pessoas acham que o mais importante é decidir qual música vai entrar. Para mim é saber se cabe ter trilha sonora, de que tipo e quando ela deve começar e terminar", explicou. "Às vezes o propósito da música não está na execução mas na ausência dela, no momento em que termina e o espectador pode ouvir o que não ouvia, voltar à realidade."

Questionado sobre quais filmes recentes o tinham impressionado, ele surpreendeu ao citar "O Conselheiro do Crime" , de Ridley Scott, detonado por críticos internacionais. "Tanta gente odiou que até me sinto um pouco constrangido em dizer que gostei", disse; "Mas tudo bem se vocês não me aprovarem, já já estou voltando para a Coreia."

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