Argentino "El Crítico" diverte ao jogar com convenções da comédia romântica

Por Luísa Pécora , iG São Paulo | - Atualizada às

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Destaque da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, filme mostra exigente crítico de cinema que se vê preso em uma história do gênero que mais odeia

O argentino "El Crítico" não está entre os filmes mais badalados ou premiados da programação da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Mas está, certamente, na lista dos mais divertidos.

Com outras três exibições previstas no festival (veja horários abaixo), o longa dirigido por Hernán Guerschuny faz rir ao acompanhar um rabugento crítico de cinema preso em uma história do gênero que mais odeia: a comédia romântica.

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Imagem do filme 'El Crítico'

O crítico é Téllez (Rafael Spregelburd, muito bem no papel), respeitado e temido resenhista de um jornal de Buenos Aires. A fama de implacável não é injustificada: há mais de duas décadas ele não atribui a um filme a honra de "cinco cadeirinhas", nível máximo na escala de avaliação do diário.

Sem muito dinheiro, em busca de um apartamento e vivendo de favor em um prédio em obras, ele passa noites estudando Jean-Luc Godard enquanto vê crescer sua impaciência com os filmes modernos. Quando recebe a proposta de ele mesmo escrever um roteiro, para quem sabe fazer o cinema avançar, responde duramente: "Não quero que o cinema avance. Aliás, acho que está morto."

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A atividade profissional invade a vida pessoal de Téllez, que julga com o mesmo rigor tantos os filmes como as coisas e pessoas à sua volta. É o que o próprio chama de "maladie du cinéma" (porque, como os grandes críticos da "Cahiers du Cinéma", Téllez pensa em francês), uma doença adquirida pela overdose de produções ruins vistas a cada semana.

Agora, o crítico enxerga o mundo também como um filme - e cada vez mais vulgar e desinteressante. A descrença de Téllez dificulta sua relação com amigos, familiares e principalmente namoradas, já que o amor, para ele, é uma invenção de Hollywood.

Não por acaso, o gênero que mais odeia é a comédia romântica. Em uma cena impagável, que reúne clipes de filmes como "Um Lugar Chamado Notting Hill", "O Casamento de Meu Melhor Amigo" e "Harry e Sally - Feitos um Para o Outro", ele detalha uma fórmula básica:

O casal se conhece. A menina nunca gostaria dele na vida real, mas de alguma forma ficam juntos. Há um imprevisto qualquer que os separa. Há personagens secundários engraçadinhos. O violino na cena do beijo. Muita chuva e muita correria. "Por alguma razão", diz Téllez, "eles correm o tempo todo."

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Imagem do filme 'El Crítico'

Tudo muda quando o crítico conhece Sofia (Dolores Fonzi), uma jovem cheia de energia que o faz querer correr também. De repente, aquilo que Téllez mais criticava nos filmes vira realidade: ele enxerga em câmera lenta, escuta violinos e beija Sofia em meio a uma explosão de fogos de artifício.

O jogo com as convenções de gênero - recheado de referências cinematográficas - foi uma das grandes sacadas de Guerschuny, que vê a comédia romântica como um "guilty pleasure" - aquele prazer que a gente tem, mas tenta esconder.

"Poucas pessoas conseguem admitir que gostam de comédia romântica, porque é um gênero que parece menor", afirmou, durante debate na Mostra. "Para os homens, admitir isso pode até soar meio gay. Mas quando nossas namoradas colocam 'Um Lugar Chamado Notting Hill' na TV, por alguma razão não conseguimos parar de assistir."

O diretor também diverte com a representação do universo dos críticos de cinema - a correria para aproveitar a comida de graça antes da cabine de imprensa, as anotações no fiel bloquinho, a má-vontade com certos filmes e a acusação de que são, no fundo, cineastas frustrados.

Trata-se de um universo que tanto Guerschuny quando o produtor Pablo Udenio conhecem bem: há quase 19 anos os dois dirigem a revista mensal "Haciendo Cine" na Argentina.

Udenio contou, inclusive, que sua primeira passagem pela Mostra aconteceu há dez anos, justamente no papel de crítico. Com um filme leve e divertido, voltou em grande estilo.

"El Crítico" na Mostra 2013
25/10 (sexta), 19h, no Cinusp - Mindlin
26/10 (sábado), 14h, no Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca
27/10 (domingo), 19h30, na Cinemateca


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