"Kubrick tinha respeito pela plateia", diz produtor e braço direito do cineasta

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

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Jan Harlan fala ao iG sobre obsessão do diretor por seus filmes, relembra sessões de cinema ao seu lado e diz que, hoje, Kubrick "provavelmente faria série para a televisão"

Cunhado, produtor-executivo, braço direito, companheiro para assistir filmes. Durante mais de três décadas o alemão Jan Harlan, 76 anos, foi tudo isso para o diretor Stanley Kubrick.

Entre as lições que aprendeu com um dos maiores nomes do cinema, ele destaca uma: a importância de se apaixonar pela história que se quer contar a ponto de desenvolver verdadeira obsessão por ela: "Sem amor, sem qualidade", resumiu Harlan, em entrevista ao iG.

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Divulgação
Christiane Kubrick e o irmão, Jan Harlan, que foi braço direito do diretor, visitam a exposição no MIS

Irmão de Christiane Kubrick, viúva do diretor, Harlan foi produtor-executivo de "Barry Lyndon", "O Iluminado", "Nascido para Matar" e "De Olhos Bem Fechados", além de ter ajudado Kubrick no trabalho de pesquisa para um de seus projetos mais ambiciosos: "Napoleão", a cinebiografia do imperador francês que por problemas financeiros e organizacionais nunca saiu do papel.

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No Brasil para a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e para a exposição sobre Kubrick em cartaz no Museu da Imagem e do Som, Harlan conversou com o iG sobre os filmes e o modo de trabalhar do cineasta, relembrou histórias e deu sua explicação para a popularidade do diretor entre os jovens: "Kubrick tinha respeito pela plateia."

Veja os principais trechos da entrevista:

iG: Qual foi a principal lição que Kubrick o ensinou?
Jan Harlan: Que para fazer algo bom você precisa estar apaixonado pela história, em todos os seus detalhes. Você precisa amá-la ao ponto de ficar obcecado. Se não, se você é "cool", o filme vira um exercício intelectual e provavelmente acaba sendo um tédio. Se você não ama sua história, por que alguém amaria? Esta foi a coisa mais importante que ele me ensinou: sem amor, sem qualidade.

iG: A obsessão de Kubrick por cada detalhe do filme dificultava o trabalho? Ele era controlador demais?
Harlan: Não, ele queria fazer as coisas direito. Ele cedia quando era necessário, ou quando se apaixonava por algo. Ele se apaixonou pelo Trio de (Franz) Schubert e usou na trilha sonora de "Barry Lyndon", mesmo que a música tenha sido composta muito depois da época em que o filme se passava. Ele sabia disso, mas disse: "Ah, eu amo essa música. Quem vai ligar?". Em "Nascido Para Matar", todos os atores são mais velhos do que deveriam. Ele tentou encontrar atores mais novos, viu mais de duas mil fitas de teste e nada. Então, usou os mais velhos. Não é verdade que ele era um fanático e queria estar absolutamente correto o tempo todo. Mas se pudesse fazer direito, ele queria fazer direito.

iG: A pesquisa para "Napoleão", que nunca saiu do papel, foi uma das mais abrangentes. Por que Kubrick queria fazer este filme?
Harlan: Stanley não tinha interesse em dar aula de história. Ele queria fazer o filme porque Napoleão ainda era relevante - e ainda é. Trata-se de um personagem fabuloso, a combinação de um gênio e um tolo. Stanley pesquisou muito, tornou-se um verdadeiro especialista no assunto.

iG: Quão frustrado ele ficou por não fazer o filme?
Harlan: Muito, muito frustrado. O que aconteceu foi que os produtores ficaram preocupados, em parte porque outro filme sobre o assunto, "Waterloo", já estava sendo feito por Sergei Bondarchuk e Dino De Laurentis (diretor e produtor, respectivamente). Os produtores não acreditaram no projeto e assim foi. (Após abandonar 'Napoleão') a primeira coisa que Stanley fez foi comprar os direitos do livro "Traumnovelle", de Arthur Schnitzler, que 30 anos depois se tornaria "De Olhos Bem Fechados". Foram 30 anos trabalhando neste filme!

Reprodução
Jan Harlan e Stanley Kubrick no set de 'O Iluminado'

iG: O senhor já disse que seu longa favorito de Kubrick é "De Olhos Bem Fechados", considerado obra "menor" por muitos fãs. Devo admitir que também não é o meu favorito. Acha que é um longa a ser redescoberto?
Harlan: Você precisa assistir de novo. Você descobrirá o filme pela primeira vez quando assisti-lo pela segunda vez. Stanley nunca quis dar explicações, sempre foi da opinião de que não se deve dar instruções para o público ou dizer o que as coisas significam. Ele achava que tinha de deixar as pessoas sentirem, como numa pintura surrealista. Ele também era, de certa forma, moralista, e uma das coisas que queria mostrar em "De Olhos Bem Fechados" era a combinação de uma decadência total com uma fortuna imensa. Ele queria mostrar um inferno moderno. A cena da orgia é um inferno moderno, não uma orgia. Não é uma cena erótica, e de propósito, porque a pornografia não é erótica. O erotismo requer amor, e aquilo era só repulsivo - não as garotas, os homens. Disseram para Stanley que aquela cena poderia causar problemas nos Estados Unidos por causa da nudez. E ele disse: "Não seja ridículo. Eles não são tão estúpidos assim."

iG: E no fim houve censura.
Harlan: Tivemos muitos problemas. Foi preciso cobrir digitalmente as garotas nuas, pois eles (censores) disseram que havia "acúmulo de nudez frontal feminina". Foi inacreditável. De fato, se você não entende o filme, a nudez das garotas pode ser um problema. Mas, se entende, vê que as meninas não representam problema nenhum. O problema são os homens.

iG: Kubrick tem notável popularidade entre os jovens. Por quê?
Harlan: 
Porque ele tinha respeito. Ele tinha respeito não só pela vida e pelas coisas que existiam, mas pela plateia. Ele não queria fazer um filme que fosse facilmente esquecido, irrelevante - e nisto foi bem-sucedido, pois todos os filmes permanecem. Os jovens, especialmente cineastas e estudantes, percebem o quão difícil é fazer um bom filme - quanto amor, trabalho e paixão são necessários. Um filme é feito com papel, caneta, coração e cérebro. O equipamento não importa. Se você tem a parte técnica, mas não tem coração, seu filme será um exercício intelectual. E se você também não tiver cérebro, seu filme será tolo.

iG: Como tantos blockbusters atuais, com muito efeito e pouca história.
Harlan: Sim, mas não vou citar nenhum (risos)

iG: Kubrick teria mais dificuldade de fazer seus filmes hoje?
Harlan: É difícil especular, mas acho que não. A tendência de fazer séries para a televisão, por exemplo, é positiva. Provavelmente hoje ele faria "Napoleão" para a TV. E aí não precisaria comprimir a história em três horas, poderia fazer em dez - quem se importa? Nem tudo o que está acontecendo é ruim. O blu-ray e o DVD ficaram tão bons e mesmo a coisa de assistir filmes no computador não é má. Muita gente que não tem acesso a cinema está descobrindo grandes filmes. Enfim, é impossível saber o que o público vai gostar amanhã. É preciso tentar - fazer algo bom, desafiador.

iG: Kubrick era um grande cinéfilo e vocês viam muitos filmes juntos. Houve alguma sessão especialmente memorável?
Harlan: De fato, ele adorava filmes. Me lembro de quando vimos "Heimat", de  Edgar Reitz, em 1984. Um filme incrível. Stanley gostou tanto, ficou tão maravilhado, que depois contratou os profissionais responsáveis por cenários e figurinos.

iG: E algum filme que ele odiou, o senhor lembra?
Harlan: Olha, nós tínhamos muita coisa para ver. Se o filme era ruim, não continuávamos, passávamos para o próximo.

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