Stanley Kubrick ganha exposição sensorial e emocionante em São Paulo

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

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Em cartaz até janeiro, mostra do Museu da Imagem e do Som recria ambientes dos filmes e exibe centenas de documentos e objetos originais - da armadura de "Spartacus" ao machado de "O Iluminado"

Você passa por uma cortina preta e entra em uma sala iluminada. Há fotos e pôsteres presos às paredes, mas o que chama atenção, primeiro, é o barulho - explosões constantes, uma após a outra. Dos dois lados, grandes sacos empilhados formam barricadas. Em frente, soldados se alinham dentro da mesma trincheira em que você está. E então ele caminha, decidido, em sua direção: Kirk Douglas, o inesquecível coronel Dax de "Glória Feita de Sangue".

Este é o primeiro momento de imersão e surpresa provocado pela imperdível exposição dedicada ao diretor Stanley Kubrick que entra em cartaz nesta sexta-feira (11) no Museu da Imagem e do Som (MIS). Até 12 de janeiro de 2014, centenas de fotografias, cartas, anotações e objetos originais usados nos filmes estarão em exibição, numa mostra criada pelo Deutsches Filmmuseum de Frankfurt que pela primeira vez vem à América Latina.

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A decisão do MIS de apostar neste "mergulho" no universo do diretor foi tida como "sensível e original" pela viúva do diretor, Christiane Kubrick. "Cada país adiciona algo ao material. Aqui houve a ideia de copiar os cenários. Ninguém mais fez isso", afirmou, em entrevista ao iG durante a abertura da exposição, na quinta-feira (10). "Ficou com certa cara de teatro. Achei muito impressionante."

Ambiente do filme 'Lolita' na exposição Stanley Kubrick no MIS. Foto: DivulgaçãoMáquia de escrever usada em 'O Iluminado'. Foto: DivulgaçãoClaquete do filme 'Laranja Mecânica'. Foto: DivulgaçãoDocumentos de 'Napoleão'; ao centro, a carta de Audrey Hepburn. Foto: DivulgaçãoÀ esquerda, figurino original de 'Barry Lyndon'; à direita, outro montado por Milena Canonero em referência aos criados para o filme. Foto: Divulgação

A exposição do MIS é realizada em parceria com a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que faz retrospectiva da obra do diretor na edição deste ano, de 18 a 31 de outubro. É o tipo de exibição para se passar horas, com itens como a armadura e a túnica usadas por Kirk Douglas em "Spartacus" e a câmera Mitchell BNC que Kubrick usou para as cenas à luz de velas de "Barry Lyndon", além de claquetes, pôsteres, estudos de penteado e maquiagem, álbum de polaroids para continuidade, esboços de desenhos de produção, entre outros.

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Há preciosidades como uma carta de Audrey Hepburn dizendo não estar disponível, mas pedindo para o diretor "pensar nela de novo algum dia"; o desabafo de um espectador revoltado com a violência no cinema ("após assistir 'Laranja Mecânica'", escreveu, "estou pronto para deixar de ver filmes"); e até um aviso à equipe de "Doutor Fantástico" sobre a necessidade de todos usarem chinelos de feltro no chão "muito polido" da sala de guerra.

Christiane Kubrick solta uma gargalhada quando questionada sobre se o diretor guardava itens tão peculiares com a ideia de que, um dia, aquilo interessaria a outras pessoas. "Ele ficaria muito surpreso se soubesse o que aconteceu", garantiu.

Escritórios abarrotados

Na conversa com o iG, Christiane contou que o diretor costumava encher de caixas e papéis os escritórios que alugava para cada filme - sempre pequenos, para não gastar o orçamento reservado à produção. Quando a filmagem acabava, ele pedia que um motorista levasse tudo para sua casa. "Stanley dizia que ia arrumar, jogar coisas fora. Mas isso nunca aconteceu", relembrou a viúva, que disse nunca ter se incomodado com a bagunça.

Divulgação
Christiane Kubrick e o irmão, Jan Harlan, que foi braço direito do diretor, visitam a exposição no MIS

O incômodo só veio em 1999, quando o diretor morreu, vítima de um ataque cardíaco. "Olhar para aquelas caixas me deixava triste. Não sabia o que fazer com elas. Não queria jogar fora, mas ver aqueles papéis ficando amarelos, velhos e horríveis era muito deprimente."

Quando a equipe do Deustches Filmmuseum de Frankfurt sugeriu a montagem de uma exposição, Christiane se surpreendeu. "Achava aque eram só papéis, coisas velhas, fotos, cartas - lixo. Mas eles me ensinaram a pensar em um arquivo e percebi que era algo positivo a se fazer, muito melhor do que sentar e chorar", recordou.

"Acho que Stanley foi o último cineasta a trabalhar sem computador", continuou. "Hoja a maioria das pessoas não guarda nada. Os diretores apenas destroem o arquivo e acabou. Stanley, ao contrário, tinha zilhões de coisas. Algumas podem parecer mundanas - discussões sobre dinheiro e orçamento. Mas para quem quer ser cineasta, é importante ver como tirar um filme do papel" 

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O machado de 'O Iluminado'

No hotel de "O Iluminado"

As "zilhões" de coisas revelam, sobretudo, o extremo cuidado de Kubrick com absolutamente todos os aspectos de seus filmes, característica de "um diretor meticuloso que parece entender a relação crucial que os detalhes têm com o todo" - como definiu o historiador LeGrace G. Benson em carta enviada a Kubrick para elogiar "Dr. Fantástico".

A dedicação fica evidente em cada anotação feita em livros, roteiros e material de divulgação. Os cartazes rejeitados de Saul Bass para "O Iluminado" têm comentários deliciosos do diretor: "difícil de ler mesmo deste tamanho"; "parece filme de ficção científica"; "não gostei, o hotel parece peculiar"; "mão e bicicleta são irrelevantes".

A seção dedicada a "O Iluminado", aliás, é um dos destaques da exibição. Nela, o público abre portas amarelas e enumeradas conforme percorre um corredor estreito e escuro, forrado do mesmo papel de parede do hotel Overlook. Quando chegar no fatídico quarto 237, terá visto os vestidos e sapatos originais das irmãs Grady e o machado de Jack Torrance, tudo ao som de uma trilha sonora tensa e um barulho inconfundível de máquina de escrever.

Em todos os espaços, música e cenário inserem o público na obra de Kubrick - da nave de "2001 - Uma Odisséia no Espaço" ao Korova Milk Bar de "Laranja Mecânica", até o baile de máscaras de "De Olhos Bem Fechados".

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Réplica de uma das 'moças' do Korova Milk Bar

Filmes inacabados

Há ainda material sobre dois longas que não saíram do papel, "Aryan Papers" e "Napoleão", este um dos projetos mais ambiciosos de Kubrick. "É impossível dizer o que vou fazer, a não ser que espero fazer o melhor filme jamais feito", escreveu, em carta.

A pesquisa para "Napoleão", projeto abandonado por problemas técnicos, financeiros e organizacionais, inclui o que talvez seja o item mais impressionante da exposição: um enorme arquivo com fichas cheias de informações sobre a vida de pessoas que cruzaram o caminho do imperador francês, coletadas por duas dezenas de assistentes e historiadores contratados por Kubrick.

"Ele queria fazer direito", definiu Jan Harlan, cunhado, produtor-executivo e braço direito do cineasta. "É mentira que ele era um fanático (por veracidade histórica), mas, se pudesse fazer direito, ele fazia."

Para Christiane, tem sido "incrível e emocionante" ver o interesse pelo trabalho do marido pelo mundo, após a mostra ter passado por cidades como Paris, Roma, Los Angeles e Melbourne.

"Em todos os países estudantes e jovens fizeram fila para ver a exposição", contou. "Fico comovida e muito triste por meu marido não ter visto isso."

Exposição - Stanley Kubrick
Visitação: 11/10/2013 a 12/01/2013
Horários: Terças a sextas - 12h às 22h; sábados, domingos, feriados - 11h às 21h.
Local: Museu da Imagem e do Som (Avenida Europa, 158)
Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia); Às terças, a entrada no MIS é gratuita
Informações: (11) 2117-4777 e pela internet

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