Morre Norma Bengell, diretora de "O Guarani" e musa do cinema nacional

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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Atriz e cineasta que chocou o público com primeiro nu frontal lutava contra câncer no pulmão; "Ela estava em situação financeira difícil", diz amigo

A atriz e diretora Norma Bengell, uma das mais importantes do cinema nacional, morreu na madrugada desta quarta-feira (9), aos 78 anos. Diagnosticada com câncer no pulmão direito seis meses atrás, ela estava internada desde sábado (5) no hospital Rio-Laranjeiras e na terça (8) tinha sido transferida para a clínica Bambina.

A morte aconteceu por volta das 3h, causada por problemas respiratórios decorrentes do câncer. A artista sofria de outros problemas de saúde desde 2010, quando duas quedas em casa causaram lesões no braço e na coluna, impedindo-a de andar. Amigos disseram que ela passava por problemas financeiros.

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Norma Bengell em cena de 'Os Cafajestes' (1962). Foto: DivulgaçãoNorma Bengell em 'Mafioso'. Foto: DivulgaçãoNorma Bengell em 'Noite Vazia'. Foto: DivulgaçãoNorma Bengell em 'Toma Lá, Dá Cá'. Foto: DivulgaçãoNorma Bengell em 'Toma Lá, Dá Cá'. Foto: DivulgaçãoMuito emocionada, Norma Bengell é homenageada no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de 2011. Foto: George MagaraiaMuito emocionada, Norma Bengell é homenageada no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de 2011. Foto: George Magaraia

Segundo o primo da atriz, Egiberto Costa, o corpo será velado na tarde desta quarta-feira (9), na capela 1 do Cemitério São João Batista, em Botafogo. A cremação ocorrerá às 14h de quinta-feira (10) no Cemitério do Caju.

De acordo com a procuradora de Bengell, Luciene Marques, uma amiga da atriz teria conseguido que a prefeitura arcasse com os custos do velório e da cremação. A artista, que foi casada durante mais de 30 anos com o ator italiano Gabrielle Tinti, era viúva e não tinha filhos.

Trajetória

Norma Aparecida Almeida Pinto Guimarães d'Áurea Bengell nasceu em 21 de fevereiro de 1935 no Rio de Janeiro. Começou a carreira como modelo e cantora, tendo lançado, em 1959, o primeiro LP, "Ooooooh! Norma", com canções de Tom Jobim e João Gilberto.

A estreia no cinema aconteceu no mesmo ano, em "O Homem do Sputinik", de Carlos Manga e estrelado por Oscarito. No papel, chamou a atenção pela sensualidade - algo que marcaria sua carreira - numa imitação da atriz francesa Brigitte Bardot.

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O ano de 1962 foi um dos mais barulhentos de sua carreira, com dois papéis marcantes. Em "Os Cafajestes", de Ruy Guerra, fez a primeira cena de nu frontal de uma atriz brasileira. Em "O Pagador de Promessas", de Anselmo Duarte, interpretou a prostituta Marli.

Sucesso de crítica, o longa de Duarte ganhou a Palma de Ouro em Cannes (único brasileiro a conseguir tal feito) e foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro. A visibilidade permitiu que Norma conseguisse trabalhos no exterior, em especial na Itália, onde fez, por exemplo, "O Planeta dos Vampiros", de Mario Bava, e "Os Cruéis", de Sergio Corbucci.

Divulgação/TV Globo
Norma Bengell morreu aos 78 anos

No Brasil, participou de filmes como "Noite Vazia", de Walter Hugo Khouri; "As Cariocas", dirigido por Khouri em parceria com Fernando de Barros e Roberto Santos; "Edu, Coração de Ouro", de Domingos de Oliveira; "O Anjo Nasceu", de Júlio Bressan; "A Idade da Terra", de Glauber Rocha; "Os Deuses e os Mortos", de Ruy Guerra, entre outros.

Direção

Em 1970 estreou como produtora, roteirista e cineasta em uma série de curta-metragens. O primeiro longa veio em 1987, com "Eternamente Pagú", que tem Carla Camurati no papel de Patrícia Galvão.

O segundo filme, "O Guarani" foi lançado quase dez anos depois, em 1996, com Márcio Garcia, Glória Pires e Marco Ricca no elenco. Por este projeto, foi alvo de um processo judicial que a acusava de desviar o dinheiro público captado para a filmagem.

Em 2007, questionada pela revista "IstoÉ" sobre a prestação de contas do filme, ela respondeu: "Não quero tocar nesse assunto que já me machucou demais. O filme passou no mundo todo, vendeu dez mil vídeos. Eu não devo nada a ninguém, são os ninguéns que devem muito a mim por terem tentado macular a imagem de uma mulher que trabalha."

Em junho do ano passado, a atriz e diretora contou ao programa "Domingo Espetacular", da rede Record, que estava à beira da falência por causa de dívidas com a Receita Federal.

"Eu tinha um advogado que me roubou, me lesou e ele não pagou o Imposto de Renda. Então, dez anos de Imposto de Renda, e eu não tenho pagar isso, não tenho como", afirmou.

Nos últimos anos, os principais trabalhos de Bengell foram na televisão. Entre 2006 e 2007 participou na novela "Alta Estação", da Record, e em 2008 e 2009 integrou o elenco do progama "Toma Lá, Dá Cá", da TV Globo, criado por Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa.

Nota de pesar

A ministra da Cultura Marta Suplicy emitiu uma nota de pesar sobre a morte de Norma. "Uma atriz que sobressaiu por sua ousadia e talento. Além de seus filmes, que se tornaram marcas do cinema nacional, recordo sua coragem enfrentando nas ruas, ao lado de Tônia Carreiro, Eva Wilma, Odete Lara e Ruth Escobar, a censura, a ditadura e exigindo mais cultura", declarou a ministra.

* Com reportagem de Juliana Moraes, iG São Paulo

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