Lee Daniels ao iG: "Os estúdios subestimam a inteligência do público"

Por Luísa Pécora , iG São Paulo | - Atualizada às

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Cotado para o Oscar, diretor de "O Mordomo da Casa Branca" fala sobre cinema, racismo e mudança social: "Direitos gays são os direitos civis desta década"

Quando os indicados ao Oscar 2014 forem revelados, em janeiro, é bem provável que três filmes dirigidos e estrelados por negros estejam entre os lembrados pela Academia: "12 Years a Slave", de Steve McQueen; "Fruitvale Station", de Ryan Coogler; e "O Mordomo da Casa Branca", de Lee Daniels, que integra a programação do Festival do Rio e chega ao circuito comercial em 1º de novembro.

"É aquela coisa: quando chove, chove muito. Estou feliz que está chovendo", disse Daniels ao iG sobre o boom de filmes sobre os direitos negros em 2013. A lista inclui outros títulos, como cinebiografias de Nelson e Winnie Mandela e do jogador de baseball Jackie Robinson.

Leandro Ferreira/Divulgação
Lee Daniels, diretor de 'O Mordomo da Casa Branca'

Aos 53 anos, Daniels, que está no Brasil para o festival, é famoso por levar a discussão racial a seus filmes. Em 2010 foi indicado ao Oscar de direção pelo drama "Preciosa", sobre uma garota negra, pobre, obesa e vítima de abuso dos pais. O tema também está em "Obsessão", de 2012, que estreia nesta sexta-feira (4) no Brasil, e no longa mais recente, inspirado na história real de Eugene Allen, que serviu oito presidentes norte-americanos.

Em "O Mordomo da Casa Branca", Allen muda de nome e vira Cecil Gaines (Forest Whitaker), um homem marcado por violentos episódios de racismo na juventude que, adulto, assume postura aparentemente mais resiliente e contrária à do filho, Louis (David Oyelowo), que vai para a linha de frente do movimento pelos direitos civis nos EUA. Daniels sugere que ambos foram cruciais, pois pessoas como Cecil também reverteram padrões ao trabalhar duro e ganhar a confiança dos brancos.

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O otimismo do filme, que termina com a eleição de Barack Obama, contrasta com a recente comoção provocada pelo caso Trayvon Martin, jovem negro morto a tiros na Flórida. Após a absolvição do atirador, em julho, Obama fez um discurso no qual disse ter sido vítima de preconceito, como muitos outros norte-americanos.

Para Daniels, a tensão racial segue presente nos EUA e em todo o mundo. "É uma desgraça e espero que a geração dos meus filhos não precise ter este tipo de discussão". Assumidamente homossexual, ele vê o movimento gay em um momento tão importante quanto o que o movimento negro viveu nos anos 1960. "Acho que os direitos gays são os direitos civis desta década."

Imagem do filme 'O Mordomo da Casa Branca'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Mordomo da Casa Branca'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Mordomo da Casa Branca'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Mordomo da Casa Branca'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Mordomo da Casa Branca'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Mordomo da Casa Branca'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Mordomo da Casa Branca'. Foto: Divulgação

Na entrevista a seguir, concedida por telefone, Daniels fala ainda sobre as dificuldades de produzir filmes "menores" em uma Hollywood centrada em blockbusters: "Os estúdios subestimam a inteligência do público".

iG: Por que esse boom de filmes sobre os direitos dos negros?
Lee Daniels: Acho que estamos atrasados, porque é um tema que há muito tempo deveria estar presente nas telas. E acho que é aquela coisa: quando chove, chove muito. Estou feliz que está chovendo.

iG: O filme mostra o otimismo provocado pela eleição de Barack Obama, mas recentemente houve o caso Trayvon Martin. Ter um presidente negro fez com que a questão racial evoluísse?
Daniels: Acho que a questão racial nos Estados Unidos é a mesma que a existente no Brasil ou no Reino Unido. Existe tensão racial nas relações em todo o mundo. Isto é uma desgraça e espero que a geração dos meus filhos não precise ter este tipo de discussão.

iG: Você sente algum tipo de responsabilidade em discutir estas questões em seus filmes?
Daniels: Martin Scorsese provavelmente não sentia responsabilidade em fazer filmes sobre imigrantes italianos. Acho que sei o que sei, e quero te dar o melhor do que sei.

iG: Acha que a luta pelos direitos homossexuais está em um momento definitivo, como aconteceu com o movimento negro?
Daniels: Sim. Acho que os direitos gays são os direitos civis desta década. Uma vez que cruzarmos esta fronteira, estaremos muito bem. Será algo importante para todos.

Leandro Ferreira/Divulgação
Lee Daniels veio ao Brasil para mostra 'O Mordomo da Casa Branca'

iG: O Brasil vive um momento quase sem precedentes de protestos nas ruas, e o filme discute muito qual é o melhor jeito de lutar: tentar mudar o sistema de dentro dele, como Cecil, ou se revoltar, como o filho. Você chegou a alguma resposta para esta questão?
Daniels: Sabe, no início achei que eu era o filho. Achei que fazer esse filme era o melhor jeito de falar sobre os direitos civis. E foi um filme tão difícil de fazer - o mais difícil que já fiz. Achava que as coisas ficariam mais fáceis depois de "Preciosa", mas não. Lutei como um louco para conseguir dinheiro, e agora as pessoas estão respondendo ao filme. Um dia perguntei ao meu filho o que ele achou - e só me importo de verdade com a opinião dele e da minha filha. Ele disse: "É um bom filme, pai, é muito importante". E depois me disse que seria realmente incrível se um dia um ator negro interpretasse o Homem-Aranha. No fim, senti que eu era Cecil, e não o filho. Porque pensei: "Esse menino não sabe pelo que passei para fazer este filme e ainda não está bom o suficiente, ele ainda quer mais". É uma questão de passagem do tempo. O tempo traz mudanças, mas também novas exigências.

iG: A dificuldade de financiamento foi por causa do tema ou pela preferência de Hollywood por blockbusters e filmes de super-heróis?
Daniels: A questão é que os estúdios subestimam a inteligência do público e o que eles querem ver. Não é ruim que exista o Homem-Aranha e o Superman. Há um lugar para eles. Mas os grandes filmes do passado estão acabando. Aqueles grandes cineastas estão se tornando raros. Não na Europa, mas com certeza nos EUA. É triste.

iG: Você diversas vezes escalou atores para papéis que eu não os imaginaria fazendo, como Nicole Kidman em "Obsessão" e praticamente todos os presidentes de "O Mordomo da Casa Branca"...
Daniels: (interrompendo) Tenho que te manter ligada, querida (risos).

iG: É essa a sua intenção? Quebrar expectativas?
Daniels: O elenco é sempre um desafio. O que penso é: se não vou emocionar as pessoas, qual o sentido? Se não vou surpreendê-las, qual o sentido? No caso da Oprah (Winfrey, que atua em "O Mordomo da Casa Branca"), por exemplo. Se eu não te fizer esquecer que ela é a Oprah, não estarei fazendo meu trabalho. Parte do meu trabalho é mudar sua opinião, inclusive sobre os atores. Tento fazer isto de forma convincente.

iG: "Obsessão" estreia nesta sexta no Brasil após dividir opiniões no Festival de Cannes no ano passado. Como vê o filme hoje?
Daniels: Vocês precisam ver! As pessoas dizem que alguns amam e outros odeiam. Mas eu não ligo. Eu o fiz e estou animadíssimo por ele chegar até aqui.

Veja o trailer de "O Mordomo da Casa Branca":


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