"O otimismo do brasileiro é tremendo", diz Martin Sheen ao iG no set de "Trash"

Por Nina Ramos , iG Rio de Janeiro | - Atualizada às

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Ator norte-americano está no Brasil para filmar coprodução entre brasileiros e ingleses; Rooney Mara, Wagner Moura e Selton Mello também estão no elenco

A cena se passa em uma velha casa, onde funciona uma paróquia. Lá dentro, um menino de 14 anos está gravemente ferido e quase sem forças. Ele foi torturado por policiais. Ao seu lado, com ar doce e paternal, um senhor ajuda o menino com os curativos. Falando um português carregado de sotaque, esse senhor é um padre chamado Juilliard e poderia passar despercebido se não fosse um detalhe: quem o interpreta é ninguém menos do que Martin Sheen.

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Encontrar o ator norte-americano no meio da Covanca, um pedaço do bairro de Jacarepaguá, no Rio, é no mínimo curioso. Sem cerimônias, Sheen, conhecido por trabalhos como a série “The West Wing” e os filmes “Apocalypse Now” e “O Espetacular Homem Aranha”, entre outros, passa de um lado para o outro no set de “Trash” à vontade, toma um café, tira foto com a equipe da cozinha, brinca com os jovens atores do filme e concede a entrevista para o iG comendo um prato de nhoque com frango assado, em um rápido intervalo nas gravações.

O diretor Stephen Daldry com os atores Rooney Mara e Martin Sheen no Rio de Janeiro, onde estão gravando o filme 'Trash' . Foto: Daniel BehrMartin Sheen, Stephen Daldry e Rooney Mara. Foto: Daniel BehrA atriz Rooney Mara ao lado de jovens no Rio de Janeiro. Foto: Daniel Behr

“Se eu tivesse apenas que falar as frases que aprendi em português sem fazer mais nada, seria OK. É quando eu começo a colocar essas frases com mais alguma coisa que me dá vontade de ir ao banheiro (de nervoso) Antes de chegar aqui, eu estava tendo aulas com uma professora em Los Angeles, mas não estudei a língua, e sim as cenas. Meu pai era galego e sua segunda língua era o português, mas ele nunca me ensinou nenhuma palavra”, disse o veterano.

O filme, dirigido por Stephen Daldry (“Billy Elliot”, “As Horas”, “O Leitor”), é uma adaptação do livro de Andy Mulligan e uma coprodução entre as produtoras britânicas Working Title e PeaPie Filmstem com a brasileira O2 Filmes, de Fernando Meirelles. 80% dos diálogos são em português, e, além de Sheen, quem se arrisca na língua estranha é Rooney Mara (“Terapia de Risco”, “A Rede Social”), que interpreta uma professora de inglês chamada Olivia.

A escolha do Rio

Daldry começou a pensar em uma adaptação para o livro de Mulligan em 2010. Só que a obra não especifica nenhum país para a história. Era preciso decidir qual local abrigaria o thriller sobre três garotos que vivem em um lixão.

“Nós linkamos essa história com três locações: Manila (capital das Filipinas), Índia e Rio. E escolhemos o Rio porque já tínhamos uma relação com Fernando Meirelles e a O2, e o Brasil tem uma infraestrutura boa, equipes boas e ótimos atores. Razões práticas nos trouxeram ao Rio. E também, claro, razões pessoais”, contou o diretor, que trouxe a família para morar na cidade há mais de seis meses.

Decidido o local, era preciso criar braços para tirar a história o papel. Com roteiro de Richard Curtis, Felipe Braga foi convidado para “cariocar” os detalhes de “Trash”. “Na primeira fase do trabalho, eu ofereci elementos para criar um universo que fosse brasileiro para cada uma das locações, personagens e cenas. Por exemplo, como é uma delegacia brasileira? É assim. E isso inclui ter tal elemento, ter lotação máxima nas celas, ter isso e aquilo. Não é só uma questão de cenografia. Meu trabalho é também criar um grupo de informações novas para que os diretores e produtores explorem o ambiente”, disse o roteirista brasileiro.

Atores amadores

Além dos detalhes colhidos por Felipe, o que deu norte para “Trash” foi a escalação do trio de protagonistas: Rickson Tevez, Eduardo Luis e Gabriel Weinstein. Os meninos, moradores de comunidades do Rio, nunca fizeram cinema e estão enfrentando a “grande aventura” da vida, como definiu o produtor Kris Thykier, da PeaPie.

Para tornar os “não-atores” atrativos na telona, o preparador de elenco Chico Accioly entrou no grupo. No papo, Sheen fez questão de elogiar os meninos: “Eles são incríveis. Você precisa vê-los trabalhar. Todo mundo adora eles. E o mais importante é que eles se gostam muito. E isso é visível no filme. Eu acho que o que Stephen fez é incrível, porque ele realmente colocou os meninos em um ambiente seguro neste projeto. Ele confiou nos meninos, e os meninos tiveram de confiar em Stephen e em todo o resto da equipe”.

Wagner Moura e Selton Mello

Foi Chico também quem ajudou a incluir nomes como Wagner Moura (que já rodou sua participação) e Selton Mello (que vive um policial malvado) no elenco. “Eu já tinha visto um filme com Wagner, o Selton eu conheci agora… As decisão foram bem rápidas, na verdade. O Chico (Accioly) fez um trabalho maravilhoso trazendo para mim atores brasileiros brilhantes. Temos atores extraordinários no filme. Eu fui abençoado”, falou o diretor Daldry. Nelson Xavier, André Ramiro, Stepan Nercessian e outros foram escalados.

Lixão cheiroso e "Avenida Brasil"

Ficou sob a responsabilidade de Tulé Peake construir do zero o lixão, set principal de “Trash”. O local fica em um clube que tem nos fundos uma mina de saibro, cenário perfeito para abrigar os dois mil metros cúbicos de material reciclado. O produtor de arte fez um tour com a reportagem do iG pela área de 4 mil m², por onde circulam até 3500 figurantes. “Não tinha nada aqui, só plantação de mamona. A construção aconteceu em três meses”, disse Tulé.

O lixo, por ser basicamente feito de papel e plástico, não exala nenhum odor. E ainda com o eco que a novela “Avenida Brasil”, da Globo, causa no país, fica quase impossível não relacionar o local com Mãe Lucinda (Vera Holtz), Nilo (José de Abreu), Carminha (Adriana Esteves) e companhia. “Eu cheguei a ver o projeto do lixão da novela. Mas são tipos diferentes. Lá eles criaram um relevo, e aqui nós procuramos o natural”, declarou.

Stephen também tem conhecimento da proporção que o lixão da novela de João Emanuel Carneiro tem. “Eu fiquei curioso para ver (o projeto), mas acho que é um outro tipo de lixão que temos aqui. Foi fascinante ver como o assunto lixão conquistou a TV com a novela”. Ele vai além: “Causaria mais efeito se nós filmássemos em um lixão verdadeiro. Mas a grande dificuldade é a higiene, obviamente, e a situação para as pessoas que trabalham nesse tipo de lugar é perigosa. Nós levamos as crianças para visitar alguns terrenos de lixão para que eles conhecessem os gestos de quem trabalha lá. E até isso foi difícil. É um ambiente difícil, e gravar lá seria complicado. Então, nós precisávamos construir nosso próprio lixão”.

Brasil em primeiro lugar

Assim como Stephen, o produtor Kris também veio de mala e cuia para o Brasil. O país está no foco em todos os momentos, até mesmo na agenda da produção. Com distribuição na Universal Pictures, Kris garantiu que “Trash” só vai alcançar sucesso internacional se for bem aos olhos do público verde-amarelo. “Para nós, é muito importante que o filme tenha uma casa. E a casa de ‘Trash’ é o Brasil. Nós estamos aqui de ‘gringos’. Nossa equipe é uma minoria e é muito importante para nós que esse filme seja agradável para os brasileiros. Claro que é um filme que terá alcance mundial, mas sua casa é o Brasil”, garantiu.

Sheen também fez sua avaliação sobre o povo brasileiro. “Ontem, Stephen estava falando sobre o Brasil e sua opinião bate com a minha. O otimismo do povo aqui é tremendo. E olha que nós dois somos de países bem cínicos, de certa forma. A energia aqui é incrível. É impressionante quantas pessoas jovens são comprometidas e quanta energia e otimismo elas têm. Isso está na música, na conversa, na cultura geral. É muito inspirador.”

Rooney Mara, que assim como o resto da equipe enfrenta horas e horas de gravação non-stop, só quer saber de planejar seus dias de folga na cidade. “Eu não vim com impressão nenhuma, porque não conhecia muito. Ainda não tive tempo de conhecer a cidade. Terei alguns dias de folga e espero que isso mude. Mas sei que é um país incrível.”

Segundo Daldry, as gravações, que começaram em agosto, devem seguir até a segunda semana de outubro. A ideia é que o lançamento seja no segundo semestre de 2014. Para encerrar, Kris brincou com a fama dos britânicos em ter horário cravado para tudo. O produtor já aparenta estar no ritmo do Brasil e disse que essa fusão é produtiva. “Claro que existem diferenças entre os ingleses e os cariocas, mas estamos aprendendo muito”. E você já se sente um carioca? “Um pouquinho”, respondeu em português.

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