"Faço filmes para intrigar", diz Daniel Aragão, diretor de "Boa Sorte, Meu Amor"

Por Luísa Pécora , iG São Paulo | - Atualizada às

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Cineasta pernambucano fala ao iG sobre longa inspirado em trajetória pessoal que fez sucesso em festivais e agora chega ao circuito comercial

Ao reencontrar um primo no enterro de sua avó, o cineasta pernambucano Daniel Aragão recebeu uma fita cassete com a canção "Going Back to My Roots", do norte-americano Lamont Dozier. Era 2003, anos antes de ele começar a trabalhar em seu primeiro longa-metragem, "Boa Sorte, Meu Amor", que estreou nas principais capitais brasileiras nesta sexta-feira (13). Mas a música sobre o retorno às raízes e o desapego às coisas materiais acabou sendo fundamental na criação do roteiro.

"Cineasta autoral pensa no filme muito antes de ele começar. Agora mesmo, tenho uns quatro, cinco filmes na cabeça que nem sei quais são", disse Aragão, em entrevista por telefone ao iG, enquanto se prepara para começar a filmar o segundo longa, sobre uma jovem que volta ao convívio social no Recife após ser internada em uma clínica de reabilitação.

Divulgação
Daniel Aragão, diretor de 'Boa Sorte, Meu Amor'

Aos 32 anos, Aragão tornou-se um dos destaques do cinema pernambucano após ganhar o prêmio de direção no Festival de Brasília do ano passado com "Boa Sorte, Meu Amor". Filmado com R$ 700 mil, frutos de incentivo do governo estadual, o longa ambientado no Recife narra o romance entre uma garota do interior que sonha em ser pianista e um jovem playboy de família tradicional.

A trama reflete a história pessoal de Aragão, cuja família foi proprietária de uma fazenda durante anos, até a desapropriação em 2007. O enterro da avó o levou a refletir sobre o distanciamento em relação à cultura sertaneja e a fazer o filme, que funciona como retrato de uma cidade e de um País em transformação - na linha de "O Som ao Redor", de Kléber Mendonça Filho, outro destaque recente do cinema pernambucano.

Leia também: "Boa Sorte, Meu Amor" explora romance e passado de Pernambuco

Após exibir o longa em festivais na Suíça e nos Estados Unidos, Aragão tem o desafio de chegar ao público, distribuindo por conta própria um longa-metragem em preto e branco, ritmo lento e poucos diálogos. 

"Acredito que o filme, apesar do tom artístico, se comunica com as pessoas", avaliou. "Não faço cinema para brincar com o espectador, não estou tirando sarro para ver a capacidade intelectual dele. Faço filmes para intrigar. Por mais que você não entenda, você vai com a trama."

Na entrevista a seguir, Aragão fala sobre os traços autobiográficos de "Boa Sorte, Meu Amor", explica a importância da música no processo criativo e diz ter interesse em trabalhar fora do País.

iG: O que motivou a decisão de filmar em preto e branco?
Daniel Aragão: O filme fala de memória, de retornar ao que você é, às coisas do passado. Acho que o preto e branco é mais interessante para comunicar isso, interpretar esta memória. Além disso, as filmagens foram em lugares que conheço muito bem - a fazenda, o Recife. Precisava me distanciar um pouco dessa verdade colorida para acreditar no filme enquanto cinema.

iG: Quão autobiográfica é a história?
Aragão: É autobiográfica porque são reflexões pessoais. Achei interessante fazer um filme como alguém que foi de uma aristocracia sertaneja e falar sobre essa perda, sobre a ausência dessa memória. É o meu ponto de vista, de quem viveu na fazenda, de quem foi o dono, o proprietário. Acho que você precisa se colocar dentro do seu filme. Não tem sentido fazer cinema só por fazer. Precisa ser sobre o seu universo.

Imagem do filme 'Boa Sorte, Meu Amor'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Boa Sorte, Meu Amor'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Boa Sorte, Meu Amor'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Boa Sorte, Meu Amor'. Foto: Divulgação

iG: "Boa Sorte, Meu Amor" lembra "O Som ao Redor" ao mostrar um Brasil em transformação. Foi sua intenção retratar o momento do País?
Aragão: Não pensei nisso conscientemente. Para mim essa é uma experiência vivida dentro da minha família. Até os 12 anos, fui à fazenda todos os fins de semana. Vi minha avó sofrendo com a desapropriação, mas não entendia bem o motivo. Fui vivendo minha vida como jovem no Recife e observando essas transformações, mas não achava que chegavam a mim, ou me atrapalhavam, ou causavam qualquer reflexão. Mas aí chegou o momento em que percebi que a ausência da cultura sertaneja me fazia falta. Comecei a perceber mais a cidade, a analisar de forma mais crítica. Então o filme parte de mim, do momento em que analiso como essas transformações me fizeram ser quem sou hoje. É bom observar e registrar isso, porque tudo acontece muito rápido. Se não fizesse este filme agora, talvez daqui cinco anos não pudesse fazer mais. Como cineasta, a gente acaba servindo como documentarista.

iG: Por que Pernambuco concentra a melhor produção cinematográfica nacional hoje?
Aragão: Acho que as pessoas aqui vivem cinema 24 horas por dia, adotaram isso para a vida mesmo. É como se a gente fosse mais jovem, mais empolgado com a arte cinematográfica do que com carreira, questões financeiras. A gente pensa, se une e faz. E Recife é um lugar pequeno - a maior pequena cidade do mundo, como a gente diz. Então as pessoas sempre se cruzam, a sociabilidade é forte, um trabalha no filme do outro. Existe um intercâmbio muito rico, que vejo menos no Rio de Janeiro e em São Paulo. São lugares muito maiores, onde as pessoas se perdem mais.

iG: A música tem um papel crucial no filme. É algo que te ajuda durante o desenvolvimento do roteiro?
Aragão: Sou muito ligado à música, a ponto de ela ser um guia para mim e para as minhas narrativas. Música é emoção exarcebada, é a forma artística mais concentrada em emoção. Com ela é como se eu tivesse acessando um tipo de sentimento que quero para o filme antes mesmo de ele ser feito - não só um conteúdo emocional, mas narrativo. 

Leia: 'Cinema está achatado por megalançamentos', diz Kleber Mendonça Filho

iG: Você está fazendo a distribuição do filme por sua conta. Como pretende fazer um "filme de arte" chegar ao público?
Aragão: É uma distribuição bem pessoal, de dar atenção, ir até a sala, falar com os exibidores diretamente, pedir para passar o trailer etc. Acredito que o filme, apesar do tom artístico, se comunica com as pessoas. Não faço cinema para brincar com o espectador, não estou tirando sarro para ver a capacidade intelectual dele. Faço filmes para intrigar. Por mais que você não entenda, você vai com a trama. Dentro do possível, estamos indo bem, estreando em mais de 20 cidades. Mas claro que ficamos presos ao sistema de filme de arte.

iG: Defende algum tipo de intervenção governamental para poder competir com blockbusters?
Aragão: É complexo. Não sei se cota de tela faz tanto sentido, porque entendo que o exibidor precisa passar filmes razoavelmente interessantes e nem todo filme brasileiro é interessante. Não vou dizer que todos têm de ser exibidos, alguns têm de morrer mesmo (risos). E vivemos em um momento em que ir ao cinema para assistir um filme não é tão natural quando há 10 anos. Então acho que temos de esperar mais um tempo para saber o que está acontecendo.

iG: Pensa em trilhar carreira internacional, como outros diretores brasileiros?
Aragão: Estou preparando um remake de "Martin", um filme do diretor George Romero, que seria filmado em uma comunidade evangélica brasileira no interior da Califórnia. Estou configurando tudo ainda, pode ser algo mais comercial ou não. Tenho vontade de filmar nos EUA, mas não pode ser algo de uma via só. Preciso me interessar, mas preciso que eles se interessem também. Não quero ir como outras pessoas foram - o Heitor Dhalia por exemplo -, fazer filme como diretor contratado. Não quero que minha sugestão artística seja apenas uma coisa vaga no filme. Me vejo como autor, realizador.

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