"Repare Bem" revê história de mortos e sobreviventes da luta armada no Brasil

Por Reuters | - Atualizada às

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Documentário de Maria de Medeiros revela a trajetória da companheira e da filha de Eduardo Leite, morto depois de 109 dias de tortura

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A atriz e cineasta portuguesa Maria de Medeiros demonstra uma sensibilidade especial na condução do documentário "Repare Bem", que resgata a história de sobrevivência de Denise Crispim e sua filha, Eduarda Ditta Crispim Leite, respectivamente a companheira e a filha do militante da luta armada Eduardo Leite, o "Bacuri". Ele foi morto aos 25 anos, depois de 109 dias de tortura em diversos locais, em 1970.

Divulgação
Cena do documentário 'Repare Bem'

Vencedor de três prêmios no Festival de Gramado, incluindo o de melhor filme da seção estrangeira para o júri e os críticos, "Repare Bem" expõe detalhes assustadores não só do martírio de Eduardo, como de torturas inflingidas a Denise na mesma época.

Getty Images
A atriz e diretor portuguesa Maria de Medeiros

Grávida, ela foi, por exemplo, colocada na jaula de uma fera no zoológico de São Paulo, que o guardião noturno foi forçado a abrir para os militares que a mantinham prisioneira.

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Se a história já foi objeto de investigação e indenização, a partir do trabalho da Comissão da Verdade - o que é inclusive mostrado no filme -, é fato que o documentário permite ir mais longe no perfil de uma família.

Aquele que é um verdadeiro clã de resistentes políticos inclui os pais de Denise, o deputado comunista José Maria Crispim, que viveu exilado fora do Brasil; sua mulher, a operária Encarnación, presa política que deixou diários detalhados de uma vida marcada por sacrifícios; e também o outro filho deste casal, Joelson Crispim, morto por sua militância na luta armada, em 1970.

Os diários de Encarnación foram, inclusive, descobertos no processo de produção do documentário e estão agora sob estudo para uma publicação, com a mediação da própria Maria de Medeiros.

Atriz de mais de 100 filmes internacionais e diretora de poucos mas decisivos títulos -como o sensível "Capitães de Abril" (2000), em que ela, aos 34 anos, se arriscou a retratar a Revolução dos Cravos de 1975- Maria mostra a sutileza de sua direção a partir de um visível processo de confiança mútua com seus personagens.

Leia mais - Maria de Medeiros: “Toda mãe é imperfeita"

Optando por uma montagem ditada pela palavra -e Denise Crispim é uma narradora muito eloquente-, Maria esconde-se atrás de uma direção discreta, abrindo mão de qualquer estetização. Um dos poucos luxos a que se dá é abrir o filme com um trecho de "Um Dia Muito Especial", de Ettore Scola, já que é no mesmo prédio romano que é cenário do filme que Eduarda tem um apartamento, comprado em parte com a indenização recebida do Brasil.

Se a reparação oficial pela morte de Eduardo Leite já foi feita, a punição dos seus carrascos e de Joelson continua em aberto, o que ainda é objeto de uma luta de Denise Crispim, que voltou a morar no Brasil depois de anos exilada na Itália. Salta aos olhos que o maior objetivo do filme é ser um instrumento para que a memória destes fatos não se perca.

O filme estreia em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre, Salvador e Curitiba.

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