"Senti o peso de Camille Claudel", afirma Juliette Binoche em entrevista ao iG

Por Mariane Morisawa , especial para o iG, de Berlim |

compartilhe

Tamanho do texto

Atriz interpreta a escultora que foi amante de Rodin

O cineasta francês Bruno Dumont não é bobo: sabia que precisava de uma atriz e tanto, com um rosto forte e convidativo, para viver a escultora que foi amante de Auguste Rodin em “Camille Claudel 1915”. Recorreu a Juliette Binoche, 49, que passa os 95 minutos de duração contracenando, na maior parte, com pessoas com problemas mentais.

O longa-metragem mostra os 30 anos em que a artista viveu num hospício, internada pela família. É um cotidiano duro, sem grandes novidades, só momentos de desespero e raiva alternados com a esperança de algum dia poder rever sua casa. A atriz falou com o iG.

Siga o iG Cultura no Twitter

Imagem do filme "Camille Claudel, 1915". Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Camille Claudel 1915'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Camille Claudel 1915'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Camille Claudel 1915'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Camille Claudel 1915'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Camille Claudel 1915'. Foto: Divulgação

iG: Por que quis fazer esse papel?
Juliette Binoche: Acho que é responsabilidade do ator falar sobre temas em que ninguém tem exatamente um grande interesse. Quem realmente quer saber sobre Camille Claudel? Mas acho que é uma responsabilidade saber o que acontece com certos seres humanos. Porque ela foi abandonada não apenas pela família, mas pelo Estado.

iG: Você está em todas as cenas, é um personagem silencioso, mas muito expressivo, e a câmera muito perto. Como foi fazer esse filme?
Juliette Binoche: Algumas pessoas acham que eu falo demais no filme! (risos) Depende do ponto de vista... Requere um bocado, claro, mas sou atriz, então é isso mesmo.

iG: Quanta autoconfiança você precisa ter para interpretar uma personagem assim?
Juliette Binoche: Você precisa abandonar a confiança. É nudez. É permitir  afragilidade, mostrar como é ser abandonada, desesperada, incompreendida. No final da jornada de desespero e esperança – porque ela sempre espera que vai poder ir para casa –, vem a aceitação e uma certa leveza. As descrições dão conta de que existia quase uma alegria, porque ela tinha sofrido tanto com solidão e desespero que já havia superado.

iG: Você própria alcança essas emoções necessárias ao personagem?
Juliette Binoche: Tenho de me entregar completamente, não há como me esconder, não há fachadas. Se você é ator, precisa ter coragem de mostrar coisas que as pessoas não querem mostrar. Expor partes que não são confortáveis. Vai além do ator, você está se usando para uma forma de arte. Sinto sorte de poder dizer que minha vida serve uma forma de arte.

Crítica: "Camille Claudel, 1915" narra drama da artista francesa

iG: Alguns atores dizem que têm dificuldade de se livrar do personagem quando não estão filmando. E outros conseguem ligar e desligar. Como é para você?
Juliette Binoche: Amo a sensação de estar explorando espaços interiores e assim discutir as grandes questões da vida. Mas depende do papel. Se está tudo no texto, o que você diz é o que tem, não há camadas por trás daquelas palavras, é bizarro. Aqui não há nada em que se agarrar, nada com que se proteger. Ela estava cercada de paredes e tinha suas memórias, seus sentimentos, esperanças.

Getty Images
A atriz Juliette Binoche no Festival de Berlim 2013

iG: Depois de viver Camille Claudel, aprecia mais sua vida?
Juliette Binoche: Nas primeiras semanas estava sentindo seu peso, vou confessar. Estava angustiada. Acordava no meio da noite assustada, sentindo a presença dela. Não foi muito agradável. Às vezes chorava e não entendia por quê. Não tinha medo, mas era uma situação incômoda. Depois de um tempo, mudou totalmente. A leveza veio com tudo. Quis ir à vila onde Camille nasceu para satisfazer seu desejo cultivado durante 30 anos de voltar à sua cidade. Eu entrei em contato com os descendentes, eles abriram a casa, mostraram desenhos que fez da sua irmã Louise. Foi bem emocionante. Entendi seu desejo de voltar lá, porque o lugar era lindo, cheio de horizontes.

iG: Sua sua motivação ao escolher seus projetos mudou?
Juliette Binoche: É bem estranho porque claro que você seleciona os filmes que quer fazer, mas os filmes também te escolhem. Você tem de trabalhar com intuição. É preciso acreditar que ela está abrindo um caminho importante na sua vida. Com Bruno Dumont, sabia que tinha de ir ao encontro dele. Era algo que tinha de atravessar, porque sinto que pertenço a seu mundo. Claro que alguns papéis emocionam de cara. Mas muitas vezes eu aceito um projeto sem nem saber por quê. Só sei que preciso aceitar. E depois descubro a razão.

iG: "Camille Claudel 1915" é uma homenagem a mulheres que sofreram e lutaram...
Juliette Binoche: É um testemunho do que algumas mulheres sofreram, do que a sociedade fez a elas. As enciclopédias diziam que Camille estava morta desde a década de 1920, e ela estava no hospício. Só morreu em 1943. Não é uma loucura?

iG: Mas como você acha que “Camille Claudel 1915” relaciona-se com a situação da mulher contemporânea?
Juliette Binoche: Bem, claro que no mundo você tem mulheres sofrendo muita pressão nessa sociedade dos homens. Algumas leis mudaram recentemente. Na França, um membro da família podia internar um parente num hospício. Hoje em dia quem determina é o juiz. Na França de hoje, Camille Claudel não viveria aquela vida. Claro que há muitas coisas a serem mudadas para as mulheres, mas leva tempo.

iG: O que gostaria que mudasse na França?
Juliette Binoche: Muitas mulheres ainda sofrem violência física dos maridos. Os estupros são comuns, até entre casais. Acho que só vai mudar com educação. Por isso documentários e filmes são tão importantes. Mas a televisão também tem muita responsabilidade, porque a educação acontece muito por aí.

iG: Você se definiria como feminista?
Juliette Binoche: Sou filha de uma feminista. Eu não me definiria assim, não. Mas sinto necessidade de falar sobre esses assuntos, porque sou mulher, afinal. Quero falar de mulheres. E é importante ser consciente do que está acontecendo.

Leia tudo sobre: juliette binochecamille claudel 1915cinema

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas