Após estreia em Hollywood, Afonso Poyart quer unir cinema de Brasil e EUA

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

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De volta ao País, diretor de "2 Coelhos" planeja filmes em inglês voltados ao mercado global; leia entrevista ao iG

Quando lançou "2 Coelhos", em 2012, o santista Afonso Poyart fez mais do que um longa-metragem raro no cinema nacional, com ação, efeitos especiais e linguagem pop. O diretor também chamou a atenção de Hollywood, recebeu uma série de roteiros e escolheu "Solace", com Anthony Hopkins, para sua estreia internacional.

Com o fim das filmagens, que aconteceram entre maio e junho, Poyart voltou a São Paulo com a ideia de que, ao menos para ele, a forma ideal de fazer cinema combina a melhor estrutura do sistema norte-americano ao set menos burocrático do Brasil.

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"Hollywood tem uma disponibilidade técnica muito legal. Mas, por ser uma indústria, tem algumas burocracias", afirmou, em entrevista ao iG. "(No Brasil) o sistema é mais empírico, mais intuitivo. Lá precisa ser tudo planejado. Sair muito do plano não é bom, incomoda. E eu acho que cinema precisa ter um pouco de planejamento, mas também precisa não ter."

Divulgação
O diretor Afonso Poyart

Poyart vive fase movimentada. No ano que vem dirige "Vale Tudo", inspirado na vida do lutador José Aldo, e produz a comédia "Deus Não Erra", com Marcelo Serrado. Também será produtor executivo da versão norte-americana de "2 Coelhos", que está em fase de captação de recursos, ainda que seu envolvimento seja pequeno.

No momento, trabalha ao lado do brasileiro Lucas Gonzaga na edição de "Solace", que tem estreia prevista para o primeiro semestre de 2014. Com roteiro do britânico Peter Morgan (de "A Rainha"), o longa conta a história de um agente do FBI que procura um médico aposentado e recluso para tentar resolver uma série de assassinatos. Além de Hopkins, o elenco tem Colin Farrell, Jeffrey Dean Morgan e Abbie Cornish, entre outros.

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Na entrevista a seguir, o diretor fala sobre a experiência de dirigir em Hollywood, discute a falta de diversidade do cinema brasileiro e revela a vontade de filmar no Brasil produções voltadas ao mercado global. "Para isso, precisam ser faladas em inglês, pelo menos em parte,"

iG: Há um maior interesse de Hollywood por cineastas brasileiros?
Afonso Poyart: Sim. O Brasil ganhou evidência no cenário mundial em vários sentidos. Tornou-se uma das maiores economias e noto que, lá fora, há uma percepção de que o País têm importância. Isso vale para o cinema brasileiro também. Você vê que há um esforço de lançamento de filmes no Brasil, por exemplo. Mas acho que existe interesse de Hollywood por diretores estrangeiros em geral. Eles olham para fora. Não é um lugar bairrista. Brasileiros, argentinos, chilenos - é só mostrar um cinema bacana. 

iG: Como foi a experiência de filmar "Solace"?
Poyart: Foi uma grande experiência. "Dois Coelhos" foi um filme pequeno, obviamente com menos recursos. Meu segundo longa-metragem ser em Hollywood foi um pulo muito grande em estrutura. Aprendi bastante e vi muita coisa legal no sistema norte-americano, assim como acho que há coisas que resolvemos melhor por aqui. Uma união das duas coisas seria legal.

iG: Quais são as vantagens do sistema norte-ameircano?
Poyart: É uma indústria realmente estabelecida, um negócio mesmo, no qual a pessoa põe dinheiro e ele volta nas bilheterias. É business. E eles têm uma estrutura muito grande, pessoas qualificadas. Filmamos em Atlanta, um dos polos da indústria nos EUA por conta dos incentivos fiscais. Tem muita gente indo de Los Angeles para lá, então essa disponibilidade técnica é muito legal.

iG: E o que o cinema brasileiro resolve melhor?
Poyart: Por ser uma indústria, Hollywood tem algumas burocracias. Mudar uma câmera de lado, por exemplo, é mais difícil - a equipe é maior, tem mais gente para levar. Aqui a gente consegue resolver mais fácil, mesmo com pouco. É um sistema mais empírico, mais intuitivo. Lá precisa ser tudo planejado. Sair muito do plano não é bom, incomoda. E eu acho que cinema precisa ter um pouco de planejamento, mas também precisa não ter. Caso contrário fica engessado, apático. Às vezes você tem um estalo e tudo muda de repente.

Afonso Poyart e Abbie Cornish no set de 'Solace'. Foto: DivulgaçãoImagem do set de 'Solace'. Foto: Reprodução/FacebookAs cadeiras de diretor e ator no set de 'Solace'. Foto: Reprodução/Facebook

iG: Alguns cineastas brasileiros que fizeram filmes em Hollywood reclamam do excesso de interferência dos produtores. É o caso do Heitor Dhalia e seu "12 Horas"Como foi sua experiência?
Poyart:
Não sei exatamente como foi a experiência do Dhalia. Mas posso dizer que tive produtores muito parceiros. É claro que existe influência e você precisa abrir mão e escutá-los em vários momentos. É normal: eles são os donos do filme. Mas diria que minha visão está em 80% de "Solace". A interferência pode incomodar um pouco, mas não foi nada terrível. Não tive produtores opressores. Este não foi meu maior obstáculo.

iG: E qual foi?
Poyart: Foi o desafio financeiro, que sempre vai existir. O filme tinha orçamento inicial de US$ 50 milhões (R$ 113,7 milhões) e depois passou para US$ 30 milhões (R$ 68,2 milhões). Para o tamanho da produção, era uma verba limitada. Mas fechamos dentro do previsto, com 32 dias de filmagem.

Leia também: Heitor Dhalia diz que "não se vê" em "12 Horas"

iG: Como foi trabalhar com Anthony Hopkins?
Poyart: Foi bacana conviver com os atores, que são super talentosos e generosos. Conheci o Hopkins no ano passado, quando entrei no filme. Fomos nos falando por telefone, nos encontramos, então quando chegamos ao set já tínhamos um certo relacionamento. Ele é muito legal, um astro mesmo. Às vezes eu ficava ali observando como ele fazia, como regia. É um ator com um ponto de vista muito forte sobre como acha que as coisas devem ser, e com muita habilidade, muito "know-how". Foi um grande aprendizado.

iG: É diferente dirigir um filme sem ter escrito o roteiro?
Poyart: Foi uma das maiores diferenças que senti. Quando escrevo, me sinto mais conectado ao material. Tive um domínio muito grande sobre "Dois Coelhos". No "Solace" mexi um pouco no texto, propus e adicionei algumas coisas. Tinha muita coisa minha, mas muita coisa que não era minha também. Gosto de me sentir conectado, de ter uma autoridade mais genuína em relação à história.

iG: Acha que profissionais estrangeiros podem trazer ideias originais a Hollywood e acabar um pouco com a febre de remakes e franquias?
Poyart: Acho que podem trazer visões, pontos de vista diferentes. O cinema precisa estar sempre se reinventando e Hollywood olha muito para isso - não só para ideias, mas olhares. Mas é claro que tem muito remake. É uma coisa boa para os estúdios, que relançam o que já é seu e que já tem base de fãs. Os projetos já nascem com interesse. Isto sempre vai existir.

iG: Você leu muitos roteiros até decidir fazer sua estreia em Hollywood com "Solace". O que o atraiu no projeto?
Poyart: O roteiro tinha uma estrutura bacana, a história é densa, com uma carga emocional forte, personagens muito interessantes, reviravoltas. O Hopkins também já estava associado ao projeto e, além disso, havia um potencial visual muito bacana a ser desenvolvido. Como o personagem dele é vidente e tem várias visões, foi uma porta para explorar a questão audiovisual, gráfica.

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Caco Ciocler em "2 Coelhos"

iG: A parte visual é um dos aspectos principais de "Dois Coelhos", que chamou a atenção por ser um filme de ação e efeitos especiais, algo raro no cinema nacional. Falta diversidade na produção brasileira?
Poyart: Quando fiz "Dois Coelhos" não pensei muito no que faltava no cinema nocional. Quis fazer um filme do qual gostasse, autoral mesmo. Mas falta diversidade, sim. Precisamos ter de tudo: terror, ação, comédia - por que não contar boas histórias? Não sei o que aconteceu para que nos últimos anos o sinônimo de sucesso tenha virado a comédia no estilo Globo Filmes. Nada contra, acho que elas têm de existir. Mas as pessoas devem ter acesso a outro tipo de cinema. Precisa haver outros gêneros e formatos.

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iG: Você é a favor de algum tipo de intervenção governamental para que filmes brasileiros, principalmente os autorais, cheguem ao público?
Poyart: Não sei, é complicado. Acho que cota de tela pode ajudar, mas não é solução. O Brasil precisa continuar produzindo, aprimorando. É uma questão de conquistar público e isto leva tempo. E o número de telas precisa aumentar muito, porque hoje o circuito está muito espremido. Se o filme não vai muito bem logo de cara, é retirado de cartaz para que outro entre. Nesse sentido, o alcance de "Solace" é muito diferente. O filme foi vendido para o mundo inteiro antes de ser filmado, porque vários países estão acostumados com a língua inglesa.

iG: Gostaria de fazer filmes no Brasil, mas falados em inglês?
Poyart: Tenho muita vontade de exercitar isto. O Brasil é um grande lugar para se filmar. Tem equipe boa, é um País gigante. Pode ser coprodução ou não, mas tenho vontade de desenvolver um projeto falado em português e inglês, com elenco internacional, rodado no Brasil, mas destinado para o mercado mundial. Para isso, precisa ser falado em inglês, pelo menos em parte.

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