Mais curtos e "prematuros", trailers ganham peso na divulgação de filmes

Por Luísa Pécora , iG São Paulo | - Atualizada às

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Vídeos são lançados cada vez mais cedo, usam redes sociais e "vendem" elementos mais palatáveis dos roteiros

A constante luta da indústria cinematográfica para se adaptar às mudanças de hábito do público atinge os trailers. Eles começaram sendo exibidos nas salas de cinema depois dos filmes (anos 1910), passaram para antes dos filmes (anos 1930), foram inseridos como extras em DVDs e Blu-Rays, ganharam canais no YouTube e, há alguns meses, estão sendo reduzidos a seis segundos para caber no Vine, o serviço de vídeo do Twitter.

Enquanto passam da tela do cinema à do smartphone, o trailers ganham importância como "comerciais do filme" e são vistos como peça-chave para o sucesso nas bilheterias. Para maximizar a venda de ingressos, são lançados cada vez mais cedo, se tornam mais curtos e calculam cada corte de edição de modo a omitir elementos que possam desestimular o público.

'Wolverine' ganhou vídeos de 6 segundos, 20 segundos e 2 minutos e meio. Foto: DivulgaçãoComédia 'Mato Sem Cachorro' mudou cronograma de filmagem por causa do trailer. Foto: DivulgaçãoTrailer de 'O Voo' exalta heroísmo do piloto interpretado por Denzel Washington. Foto: DivulgaçãoTrailer de "Ferrugem e Osso" não mostra que personagem perde a perna em acidente. Foto: DivulgaçãoTrailer de 'Amor' não deixa claro que história fala sobre envelhecer e a morte. Foto: Divulgação

Criado na década de 1910, o trailer deixou de ser visto apenas uma vez na sala de cinema para estar acessível a qualquer momento na internet. Só os dez mais assistidos de 2012 contabilizaram 170 milhões de visualizações, de acordo com o YouTube.

"Hoje, mais gente assiste ao trailer do que ao filme. Para muitas pessoas, o trailer é o filme", afirma, em entrevista ao iG, o editor Stephen Garrett, fundador da empresa nova-iorquina Jump Cut, especializada em trailers para filmes estrangeiros e independentes. "Vendemos a promessa de uma experiência cinematográfica maravilhosa. E todo mundo ama essa promessa. É um negócio otimista."

No Brasil, as distribuidoras também começam a dar mais atenção ao formato, conforme o aumento e a estabilidade de produção permite que as estratégias de lançamento sejam melhor preparadas. Um caso emblemático é o da comédia romântica "Mato Sem Cachorro", que tem Bruno Gagliasso e Leandra Leal no elenco e estreia marcada para outubro. Por sugestão da distribuidora Imagem Filmes, a equipe do longa fez algo raro: entregou o primeiro trailer quando a filmagem ainda estava na metade.

O objetivo era chegar às salas de cinema em janeiro e ser exibido antes da comédia "De Pernas Pro Ar 2", pegando carona em um público de 4 milhões de espectadores. Para tomar também a internet, o vídeo foi divulgado pelos dois atores principais no Twitter e, em um mês, tinha 100 mil visualizações.

Veja o trailer de "Mato Sem Cachorro":

Aceitar o desafio representou uma série de dificuldades para a equipe, que teve de mudar o cronograma e desistir de algumas locações para gravar primeiro as cenas que precisariam estar no trailer. Sem tempo para contratar uma empresa de edição, o trabalho ficou nas mãos do assistente de montagem e teve acabamento do diretor Pedro Amorim, editor de formação.

Para a produtora Malu Miranda, o esforço valeu a pena. "O trailer é o vídeo promocional do filme e, no nosso caso, a primeira impressão que as pessoas teriam dele, porque não tínhamos feito nenhuma divulgação anterior", afirma. "A estratégia de lançamento está mudando muito no Brasil. Temos vários setores de público e queremos soltar vídeos com aspectos da história que atinjam cada um" (Não por acaso, no Dia dos Namorados o longa ganhou canal no YouTube e divulgou uma cena com o casal principal).

O trailer do trailer

Em Hollywood, montar o cronograma de filmagem em função do trailer é algo mais comum entre produções de grande orçamento e franquias de sucesso. Como o dinheiro investido é muito alto, os estúdios fazem o que podem para criar excitação e expectativa em relação a um filme meses antes do lançamento.

A corrida para chamar a atenção do público o mais cedo possível criou um fenômeno conhecido como "trailer do trailer": o lançamento de vídeos mais curtos, conhecidos como "teasers", antes de a versão completa ser divulgada.

Com o surgimento do Vine, essa "provocação" ao espectador atingiu novo patamar. Em março, a cerca de quatro meses da estreia nos EUA, "Wolverine - Imortal" ganhou um teaser de seis segundos na ferramenta. No dia seguinte, o estúdio divulgou outro de 20 segundos e, no seguinte, o trailer de quase dois minutos e meio.

Veja o teaser de seis segundos de "Wolverine - Imortal":

"Muita gente desiste de ver um vídeo na internet a partir de dez segundos. Por isso, os clientes pedem bastante ação logo no começo", conta Garrett. "Seis segundos é uma loucura, é quase ridículo. Mas talvez a gente se acostume."

A duração média já vem caindo desde os anos 1990, quando os habituais três minutos foram sendo encurtados para que os cinemas pudessem passar um maior número de trailers, fazendo propaganda de mais filmes. Hoje, têm por volta de dois minutos.

Segredos do bom trailer

Apesar das mudanças de formato e veiculação, a função continua a mesma: "colocar bundas nas cadeiras do cinema", como define Bill Woolery, editor de trailers há mais de 25 anos e especialista em documentário.

Para ele, o segredo é muita emoção e bom ritmo. "Um vídeo bem editado mostra um mundo movimentado e mexe com múltiplos arcos: os personagens, a história, os sentimentos", opina. "Enquanto um filme tem vários momentos emocionantes, o trailer é uma grande emoção do início ao fim: ele imediatamente te leva para cima e te deixa lá, sem folga, até a hora de acabar."

Woolery também acha fundamental encontrar a música de fundo perfeita - aliás, não começa o trabalho sem ela. "A canção ideal precisa ter pulso, precisa te levar pra frente o tempo todo", define.

Mostrar ou omitir?

Mas além dos elementos básicos, vender um filme pelo trailer também supõe uma série de decisões sobre quais elementos da história mostrar e quais omitir.

Quando editou o trailer americano do chileno "No", Garrett alterou a versão original para explicar melhor o contexto histórico e a ditadura de Augusto Pinochet. Como parte do público dos EUA não assiste a filmes estrangeiros por causa das legendas, muitas vezes ele opta por não mostrá-las. "Vem diminuindo na última década, mas ainda tenho clientes que me pedem para ninguém falar no trailer."

Não faltam exemplos de omissões ligadas à história. O trailer de "O Voo" foca mais o heroísmo do piloto interpretado por Denzel Washington do que o fato de ele ser alcóolatra (apesar de o próprio ator ter dito, em entrevistas, que este era o tema central do filme). O trailer do austríaco "Amor", vencedor do Oscar de filme estrangeiro, sugere que a história é mais um mistério sobre a invasão de um apartamento do que um drama sobre uma idosa doente. E a versão inglesa do francês "Ferrugem e Osso", mantida nos EUA, não mostra que a personagem da atriz Marion Cotillard perde as pernas em um acidente.

Garrett entende todas as omissões. "Ninguém quer ver um filme sobre um alcóolatra ou sobre gente velha morrendo. E o de 'Ferrugem e Osso' é perfeito: uma música ótima e pessoas apaixonadas", afirma. "Não é exatamente mentir, é ocultar a verdade por um bem maior. Você tem dois minutos para vender os pontos fortes do filme. Em alguns casos, vai mostrar a história. No outro, vai mostrar bastante a Julia Roberts."

A regra de vender o ponto forte por vezes resulta em trailers bons para filmes ruins, algo do qual o próprio Garrett diz já ter sido vítima. "Por mais terrível que o material seja, precisamos sempre achar algo legal", explica. "Algumas pessoas vão se decepcionar? Sim. Mas, a essa altura, já pagaram o ingresso."

Veja o trailer de "O Voo":

Veja o trailer de "Ferrugem e Osso":

Veja o trailer de "Amor":


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