"Cinema brasileiro está viciado em financiamento público"

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

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Ex-professor de Tarantino e Spike Lee, norte-americano Dov Simens defende modo de produção privado para realizar filmes

Ele deu aula para Quentin Tarantino, Guy Ritchie e Spike Lee quando ainda eram desconhecidos. Passou por Inglaterra, Canadá, Hong Kong e Colômbia e agora chega ao Brasil com uma proposta e tanto: ensinar os cineastas locais a fazer filmes financiados de forma totalmente independente e capazes de dar lucro.

Desde 1992 o norte-americano Dov Simens viaja o mundo com o "Hollywood 2-Day Film School", curso que acontece em 22 e 23 de junho em São Paulo, com realização do Cemec. A promessa é condensar em apenas dois dias todas as informações vitais para produzir e vender um filme independente. A aula é sobre mercado, e não arte. Simens não ensina a escrever diálogos, mas diz como deve ser o roteiro de um iniciante: simples, com locação única e poucos atores.

Divulgação
Dov Simens, instrutor do curso 'Hollywood 2-Day Film School'


No caso do Brasil, a proposta do curso também é acabar com a ideia de que não se consegue fazer cinema sem a ajuda dos editais. "Vocês estão totalmente viciados no governo e no socialismo em termos de financiamento", afirma, em entrevista ao iG. "Estão pensando que esta é a única forma de produzir um filme e negando a figura do empreendedor."

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Durante a entrevista, Simens não esconde o jeito de "showman" que marca suas aulas: fala muito, dá lições e solta uma série de opiniões polêmicas, como "curta-metragens são idiotas" e "meu filme favorito é aquele que dá lucro".

A seguir, ele dá a receita para o sucesso de estreantes no cinema independente, comenta o modelo de produção brasileiro e critica a falta de bons roteiros no País - além de defender o uso de merchandising como forma de financiamento. "A arte, para mim, é o negócio."

iG: No Brasil, a indústria cinematográfica depende muito de financiamento público. O que acha desse modelo?
Dov Simens: Não há indústria de cinema independente no Brasil. Vocês são totalmente viciados no governo e no socialismo em termos de financiamento. Vocês têm um governo maravilhoso, com programas maravilhosos. Mas é um governo. Eles não entendem do negócio. Eles vão financiar porque funciona como relações públicas, mostram que o Brasil tem arte e isso é bom, ainda mais com a Olimpíada e a Copa do Mundo se aproximando. É um governo ótimo, mas vocês estão ficando muito viciados, pensando que esta é a única forma de produzir um filme e negando a figura do empreendedor. Não estou aqui para ensinar essas coisas de governo. Estou aqui para mostrar como fazer o seu primeiro longa-metragem em São Paulo, com equipe e equipamento de São Paulo, que custe US$ 10 mil (R$ 21,7 mil) e dê lucro. O governo é perfeito para financiar seu segundo projeto, aquele que adapta um romance e tem um ator famoso. Aí sim, peça US$ 1 milhão (R$ 2,1 milhão) ao governo. Se pedir no primeiro filme, eles vão dizer não. E com razão. Aí as pessoas vão reclamar que só os mesmos produtores conseguem dinheiro. Mas estas pessoas estão fazendo filmes, você está só falando sobre o assunto. Quer fazer um filme? Pegue uma câmera e ligue. E não faça curtas. Eles são todos idiotas. A não ser que você tenha de 12 a 15 anos. Aí tudo bem. Faça um curta-metragem, coloque no Facebook e no YouTube, consiga 4 milhões de visualizações e a gente vai te buscar.

iG: Como fazer esse primeiro filme longa-metragem independente?
Simens: Começo o curso dizendo que a ideia que os alunos têm na cabeça provavelmente não é realista e deve ser guardada para o segundo filme. É preciso se concentrar em algo que eles consigam fazer: um roteiro de 90 páginas, com poucos atores e apenas uma locação. Vamos levar oito jovens para uma casa e fazer um filme de terror. Vamos criar o jantar infernal, a reunião de família, o drama no tribunal, a morte no elevador. Primeiro, faça esse roteiro. Sua filmagem será de no máximo três semanas. Mais do que isso, você não consegue organizar. Dependendo do seu orçamento, terá de reduzir o período para duas ou uma semana e terá de escolher outro tipo de equipamento. Mas conseguirá fazer o filme. 

iG: Mas como conseguir o dinheiro para começar, sem ajuda do governo?
Simens: É preciso começar de baixo. Se quer que um estúdio de Hollywood te dê US$ 100 milhões (R$ 217,5 milhões) para fazer um filme, primeiro precisa fazer um de US$ 20 milhões (R$ 43,5 milhões) que dê lucro. Se não tem esse dinheiro, faça um de US$ 2 milhões (R$ 4,3 milhões) que dê lucro. Se também não tem esse dinheiro, faça um de US$ 200 mil (R$ 435 mil) ou de US$ 20 mil (R$ 43,5 mil). Se não tem US$ 20 mil, arrume um emprego. Trabalhe no Starbucks, economize. Estamos no capitalismo, não no socialismo. E há muitos milionários aqui que dão dinheiro para o balé e a ópera. O que ganham em troca? Nada. É possível apresentar projetos de cinema para eles, principalmente se estamos falando de US$ 10 mil ou US$ 20 mil. Ensino a fazer isso e, se for preciso, o crowdsourcing (modelo de negócios que arrecada dinheiro geralmente por doações online). Fiz isso apenas como experiência, como professor. Coloquei um vídeo na internet e expliquei o que queria. Em três dias tinha US$ 50 mil (R$ 108,7 mil), que depois devolvi.

iG: Um dos maiores problemas do cinema brasileiro hoje é a distribuição, já que o mercado fica principalmente nas mãos dos grandes lançamentos. Depois de conseguir produzir o filme independente, como fazer para que ele chegue às salas?
Simens: É só assinar um cheque. Como vocês não sabem isso? É tão simples. O negócio das salas de cinema é alugar cadeiras e vender doces. Se você quer seu filme no cinema, alugue. É óbvio. Acho fascinante que vocês não façam isso aqui. É claro que pode acontecer de naquela semana um cinema de dez salas não querer alugar uma delas para você, por mais que você pague, pois acredita que pode fazer mais dinheiro com outros filmes. É possível. Então por que você não lança o seu na semana que vem? É uma negociação. Não posso te dar uma resposta exata, mas preciso te deixar pensando: você pode lançar seu filme. Pague. É um negócio. Vocês querem que os filmes de vocês sejam exibidos nos Estados Unidos? Aluguem nossos cinemas. Simples assim.

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iG: Acha que há mais espaço para o cinema brasileiro no exterior?
Simens: Tenho certeza de que vocês têm outros filmes bons além de "Central do Brasil" e "Cidade de Deus". Tenho certeza de que vocês têm histórias maravilhosas. Vocês fizeram cerca de 90 filmes no ano passado. Tenho certeza de que os americanos gostariam de quatro ou cinco. Mas os nossos distribuidores e nossos cinemas não vão pagar você, não vão levar você para os Estados Unidos, não vão fazer o seu marketing. Isso é burrice. Vocês pagam a gente. Se vocês querem filmes brasileiros nos Estados Unidos, aluguem nossos cinemas. E isso também agregará valor ao longa. Se tiver distribuição nos EUA, se tiver resenhas lá, se sairá melhor aqui no Brasil.

iG: Os festivais não são uma boa maneira de vender o filme para o exterior?
Simens: Há 25 anos existiam uns 12 festivais no mundo. Hoje, há entre 2 mil e 3 mil. Os representantes das distribuidoras vão a no máximo 20. Só importa se você for a um destes 20.

Reprodução
Alunos ilustres de Dov Simens: Christopher Nolan, Queen Latifah e Quentin Tarantino


iG: Você deu aula para nomes como Quentin Tarantino e Spike Lee. Naquela época, eles já se destacavam?
Simens: Não ensino arte nem talento, as pessoas nascem com eles. Não reconheço os talentos da sala. Não sabia que Spike Lee, Quentin Tarantino, Christopher Nolan e Baz Luhrmann estavam na classe. No caso de atores e cantores, como Will Smith e Michael Jackson, dava para saber, pois eles já eram famosos quando fizeram o curso e esperavam a aula começar para entrar. Os diretores eu não conhecia. Ensinei algo a eles? Não. Fiz com que eles soubessem que sabiam o que fazer? Sim. E sei que há talento aqui no Brasil. As pessoas estão empacadas, eu dou um empurrão.

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iG: Cineastas como Fernando Meirelles e Moacyr Góes disseram que faltam bons roteiros no Brasil. Como desenvolvê-los?
Simens: Vocês não sabem contar histórias. Não têm experiência. Neste momento, são bebês nisso. E não se comparem a Hollywood: nós podemos ganhar dinheiro com qualquer coisa. O novo Super-Homem é um tédio, ninguém dá à mínima para a história. Mas faz dinheiro. Então não se comparem com os blockbusters. Um roteiro de 90 páginas tem cerca de 50 cenas. A cada duas páginas, é preciso mudar algo. Não pode ser linear, tem de ser uma montanha-russa. Acho que ninguém aqui sabe disso. E só é preciso duas semanas para escrever um roteiro. Não entendo esses idiotas que vão aos festivais e dizem que trabalharam naquele projeto durante dois anos. Os Estados Unidos não vão te contratar se você vai levar dois anos para escrever um roteiro. São duas semanas. Tem gente aqui fazendo roteiro em duas semanas? Nem de longe. 

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iG: Acha que a parceria com a televisão pode ser boa para o cinema brasileiro?
Simens: São duas indústrias diferentes, mas interligadas. Os empregos estão na televisão. Vocês aprenderam a fazer novelas. Fazem muito bem, são os reis das novelas. E aprenderam a vendê-las para a Coreia, o Japão, as Filipinas, que as traduzem para seu próprio idioma. Isso é um negócio, uma indústria estabelecida. Fazer televisão é mais difícil do que cinema, porque você tem o tempo exato, os comerciais. Qualquer um que consegue fazer uma sitcom de meia hora ou um drama de uma hora para a televisão consegue fazer um filme, porque trabalha pensando na eficiência. Sua indústria televisiva é ótima, mas também vai desaparecer. Porque com coisas como Tivo e DVR, que permitem gravar os programas, ninguém vai assistir aos comerciais e o dinheiro dos anúncios vai desaparecer. Os anúncios estão saindo da TV e indo para os filmes, inseridos como merchandising. Aqui a televisão sabe conseguir financiamento com anúncio, mas o cinema não. Nos EUA, os filmes se pagam em parte com anúncios. Você viu o novo "Super-Homem"? Aparece Mc Donald's, Sears...

iG: Mas não há o risco de ficar com cara de comercial?
Simens: Sempre que alguém me pergunta qual é meu filme preferido, respondo que é qualquer um que dê lucro. Acho uma resposta boa e correta. Mas geralmente as pessoas insistem e digo que, nos últimos dez anos, meu filme favorito é "Sex and The City 2". Achei incrível e não era nada além de um comercial. Tinha 96 logos naquele filme, cada um pagando entre US$ 300 mil (R$ 652,7 mil) e US$ 2,3 milhões (R$ 5 milhões) aos produtores e distribuidores. Eles pagaram o filme antes mesmo de fazê-lo. Acho isso genial. Adoro o negócio do cinema, acho mais fascinante do que fazer cinema. A arte, para mim, é o negócio.

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