O amor segundo Jesse e Celine

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

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Por mais que se empenhe em ignorar ilusões românticas, casal de "Antes da Meia-Noite" não consegue deixar de tê-las

Jesse e Celine estão caminhando por Viena. Ela fala sobre a avó, que foi casada com o mesmo homem durante toda a vida apesar de ser apaixonada por outro. Celine acha triste, Jesse acha melhor assim: se ficassem juntos, ele eventualmente a decepcionaria. "As pessoas colocam projeções românticas em tudo, não têm base na realidade", diz. Celine ri e lembra: momentos antes, os dois deram seu primeiro beijo olhando a cidade de cima, durante o pôr-do-sol.

A cena não é nem a mais bonita nem a mais marcante da trilogia dirigida por Richard Linklater, cujo terceiro filme, "Antes da Meia-Noite", estreou na sexta-feira (14) no Brasil. Mas é uma das que melhor resume o modo como Jesse e Celine, o casal interpretado por Ethan Hawke e Julie Delpy, encaram o amor: ironizando as ilusões românticas, sem conseguir deixar de tê-las.

Leia também: Em "Antes da Meia-Noite", Jesse e Celine sentem peso do casamento

Reprodução
Ethan Hawke e Julie Delpy em 'Antes do Amanhecer' (1995)


Jesse - "Por que você acha que todo mundo pensa que os relacionamentos precisam durar para sempre?"
Celine - "É mesmo, por quê? Isso é besteira."

A história de um dos casais mais marcantes do cinema começou em 1995, com o lançamento de "Antes do Amanhecer". Jesse e Celine têm vinte e poucos anos e estão em um trem - ele é americano e vai a Viena, ela é francesa e viaja em direção a Paris. Talvez nunca conversassem, não fosse a barulhenta briga de um casal alemão no mesmo vagão. Ele pergunta o que eles estavam dizendo, ela diz não saber. Pouco depois, sentindo uma "conexão" inexplicável, saltam do trem para o que seria uma inesquecível noite de amor na capital austríaca.

Enquanto visitam uma loja de discos, um cemitério, um bar e um parque de diversões, eles conversam sobre morte, sexo, religião e amor. Celine pergunta se ele conhece algum casal feliz. Jesse diz que sim. "Mas acho que eles mentem um para o outro."

O tempo todo eles sabem que o passeio tem hora para acabar: na manhã seguinte Jesse embarcará para o Estados Unidos e Celine pegará o trem para a França. Eles prometem encarar tudo racionalmente, mas, quando chega a hora da despedida, optam pela mais romântica de todas as possibilidades: em vez de trocar telefones ou endereços, combinam de se encontrar no mesmo lugar dali a seis meses.

Divulgação
Ethan Hawke e Julie Delpy em 'Antes do Pôr-do-Sol' (2004)

Jesse - "O que é amor, senão respeito, confiança e admiração? Eu sentia tudo isso (quando me casei). Mas corta para o presente e eu sinto como se chefiasse um berçário junto com alguém que namorei no passado (...) Estamos apenas vivendo sob o pretexto da responsabilidade do casamento e um monte de ideias sobre como as pessoas devem viver. O amor deve ser mais do que compromisso."
(...)
Celine - "O que significa o homem certo? O amor da sua vida? Esse conceito é absurdo, a ideia de que só podemos ser completos com outra pessoa é má! (...) Acho que já me machuquei muito e me recuperei. Agora nem me esforço, porque sei que não vai dar certo."

O reencontro só acontece nove anos depois, em "Antes do Pôr-do-Sol", quando Jesse e Celine têm pouco mais de 30 anos. Ele está casado, tem um filho pequeno e faz sucesso com um livro inspirado naquela noite de amor em Viena. Ela é ativista ambiental e namora um fotojornalista que passa longos períodos viajando.

Enquanto andam por Paris, os dois relembram o dia em que se conheceram e contam sobre o presente, de início se esforçando para mostrar que suas vidas passaram ilesas à frustração amorosa do passado. De novo, tudo muda com a pressão da despedida: caem as falsas aparências e revelam-se as decepções da vida adulta.

Jesse tem um casamento infeliz, Celine não consegue sentir nada por ninguém. Os dois se sentem longe do futuro que pensaram para si mesmos porque se afastaram um do outro. Se ficassem juntos, parecia que tudo daria certo.

Imagem de 'Antes da Meia-Noite'. Foto: DivulgaçãoImagem de 'Antes da Meia-Noite'. Foto: DivulgaçãoImagem de 'Antes da Meia-Noite'. Foto: DivulgaçãoImagem de 'Antes da Meia-Noite'. Foto: DivulgaçãoImagem de 'Antes da Meia-Noite'. Foto: DivulgaçãoImagem de 'Antes da Meia-Noite'. Foto: DivulgaçãoImagem de 'Antes da Meia-Noite'. Foto: DivulgaçãoImagem de 'Antes da Meia-Noite'. Foto: DivulgaçãoImagem de 'Antes da Meia-Noite'. Foto: DivulgaçãoImagem de 'Antes da Meia-Noite'. Foto: Divulgação

Jesse - "Esta é a vida real. Não é perfeita, mas é real."
(...)
Celine - "Eu me sinto próxima de você. Mas às vezes sinto como se você estivesse respirando hélio e eu estivesse respirando oxigênio."

Por isso, é surpreendente que "Antes da Meia-Noite" mostre Jesse e Celine, agora juntos e pais de gêmeas de sete anos, mais parecidos com o casal alemão que discutia no trem do que com os jovens apaixonados que caminhavam por Viena. Após o amor adolescente e o reencontro adulto, eles chegaram à prova de fogo: a convivência, os problemas diários, a criação dos filhos.

Tudo isso deveria ser normal para um casal que passou tanto tempo tentando não ter ilusões, que conversava sobre a naturalidade de a paixão diminuir com o tempo e ironizava as projeções românticas dos outros. Mas também eles sentem o peso do casamento: não se encontram, não conversam, não fazem sexo pela manhã.

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Jesse e Celine sempre se dividiram entre o cinismo e o romantismo, mas não há dúvida de que os dois primeiros filmes deram força à ideia de "alma-gêmea", alimentaram a esperança de que o amor de verão pode vingar, de que riscos e incertezas valem a pena, de que uma história sem final feliz talvez não tenha terminado.

Se "Antes da Meia-Noite" é mais duro e realista, ainda preserva a essência de Jesse e Celine: eles seguem na busca pelo amor ideal, cientes de seus limites e morrendo de medo de errar.

São essas dúvidas, sonhos e tentativas de auto-engano que deram aos personagens de Hawke e Delpy o jeitão "gente como a gente" que foi capaz de conquistar um público que envelheceu com eles. Há casais cinematográficos mais conhecidos - do clássico Rick e Ilsa de "Casablanca" ao dramático Jack e Rose de "Titanic". Mas nenhum é tão querido quanto Jesse e Celine.

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