Lúcia Murat: "Cinema autoral brasileiro está sendo expulso das salas"

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

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Em entrevista ao iG, diretora de "A Memória que me Contam" fala sobre fazer filmes como terapia, avalia a Comissão da Verdade e discute produção nacional

O cinema de Lúcia Murat, 64 anos, está fortemente ligado à sua trajetória pessoal. Do primeiro longa, "Que Bom Te Ver Viva" (1988) ao novo "A Memória que me Contam", que estreia nesta sexta-feira (14), a cineasta expressou nas telas as marcas de experiências duras vividas durante a juventude, quando foi presa e torturada pelo regime militar. "O cinema me permitiu sobreviver", afirma, em entrevista ao iG.

Em "A Memória que me Contam", Irene Ravache interpreta o alter-ego de Murat, uma ex-revolucionária que reencontra companheiros de resistência em uma sala de hospital. Eles esperam por notícias da também guerrilheira Ana (Simone Spoladore), inspirada em Vera Silvia Magalhães, amiga da cineasta na vida real e a quem o filme é dedicado.

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Divulgação
A diretora carioca Lúcia Murat


Aos 33 anos, Spoladore foi escolhida para o papel porque Ana aparece no longa apenas na lembrança dos amigos: jovem, bonita e sedutora - "como são os mitos", explica Murat.

Para a atriz, a composição do personagem se baseou menos na leitura de livros sobre o período e mais na presença da diretora no set. "O que de fato me conduziu foi minha relação com a Lúcia, a emoção que ela tinha ao contar aquela história", explica. "O bonito deste filme é ser uma história vista de dentro. Foi esse caminho emocional que me guiou."

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Na entrevista a seguir, Murat fala sobre fazer filmes como terapia, avalia o trabalho da Comissão da Verdade e discute a atual situação do cinema autoral brasileiro, que consegue ser produzido mas tem dificuldade de chegar ao público. "Cada vez mais estamos sendo expulsos das salas."

iG: Fazer um cinema tão pessoal funciona um pouco como terapia?
Lúcia Murat: Sou um pouco como a personagem da Irene Ravache no filme: uma cineasta que lida com a perda criando. O cinema foi uma coisa que aconteceu na minha vida - e ainda bem, porque me permitiu sobreviver a uma experiência muito dura, quando eu era muito jovem. Ao mesmo tempo, faz 30 anos que faço cinema, tenho muitos prazeres acumulados também. Acho que em nenhum momento da  vida pensei "vou fazer um filme sobre a ditadura". Foram coisas que surgiram por necessidade. 

iG: O que a levou a fazer "A Memória que me Contam"?
Murat: Tive essa ideia há muito tempo, com base em um grupo de amigos que lutou contra a ditadura e tinha na Vera Sílvia Magalhães um ponto de encontro. Ela sempre foi uma pessoa sedutora e este grupo ficava muito em hospitais, porque a vida dela foi trágica: vários cânceres, vários surtos. Nesses momentos ela reunia todo mundo e ficávamos falando, discutindo. Numa dessas vezes tive a ideia de fazer um filme. Quando saiu "O Declínio do Império Americano", de Denys Arcand, pensei: "roubaram minha ideia". E passou. Quando a Vera Sílvia morreu, decidi fazer, porque precisava fazer. E o grande barato é que com a ficção você se distancia. Por mais que parta de fatos reais, que você viveu e acompanhou, o processo é de total liberdade. Não há nenhum personagem do filme que seja ipsis litteris alguém real.

Imagem do filme 'A Memória que me Contam'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'A Memória que me Contam'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'A Memória que me Contam'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'A Memória que me Contam'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'A Memória que me Contam'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'A Memória que me Contam'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'A Memória que me Contam'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'A Memória que me Contam'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'A Memória que me Contam'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'A Memória que me Contam'. Foto: Divulgação

iG: Por que mostrar Ana, a personagem inspirada em Vera, como alguém jovem e não com a idade que realmente teria no filme?
Murat: A personagem nem existia no começo. Era uma coisa "Esperando Godot", no qual a Ana nunca aparecia. Mas aos poucos ela se impôs. Não queria colocar aquela pessoa morrendo, acabada, envelhecida. Como, se era tão sedutora? Então tivemos a ideia de criar uma personagem que só existe na imaginação dos outros. E na imaginação ela sempre vai ser jovem, linda e sedutora, porque assim são os mitos.

iG: Qual foi sua intenção ao incluir no filme um casal homossexual, formado por filhos da geração que lutou contra a ditadura?
Murat: Queria trabalhar sob dois pontos de vista. Temos a visão de que nossa história foi tão forte que nada mais vale a pena além do que a gente fez. Isso está muito dissiminado, ainda que não racionalmente. A questão da homossexualidade também entra nisso, porque somos vistos como uma geração fundamental libertária. Fui formada para casar virgem, de véu e grinalda, então é claro que houve um rompimento muito grande. Mas foi um rompimento dentro de uma sociedade preconceituosa. Naquele momento, era absolutamente impensável um casal homossexual se apresentar dentro da sociedade, entrar em uma festa - qualquer festa. Acho a questão interessante porque hoje temos estes casais. O preconceito velado da minha geração existe sim, e está expresso na personagem da Irene, que preferia um filho heterossexual. E há pessoas mais tacanhas, como o personagem do Otávio Augusto, que tem preconceito assumido. Achava uma questão legal de ser colocada para deixar mais claros os limites da minha geração.

iG: Como foi ver Dilma Rousseff, uma mulher com trajetória similar à sua, chegar à Presidência? E como avalia o trabalho da Comissão da Verdade?
Murat: Evidente que, para mim, foi muito emocionante quando a Dilma foi eleita. Acho que o filme fala sobre uma revolução que foi derrotada, sobre uma expectativa que a gente, muito jovem, tinha de um ideal. É uma utopia que foi derrotada, mas eu particularmente não me considero uma pessoa derrotada. Estou aqui fazendo cinema e estamos aqui tentando investigar os torturadores. Lentamente, mas estamos.

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iG: Você deu um depoimento à Comissão da Verdade há algumas semanas. Como foi essa experiência?
Murat: Foi muito duro, mas acho que a Comissão da Verdade tem um papel importantíssimo no futuro do País. E fiquei muito impressionada com o poder de repercussão da internet. É uma denúncia que a gente vem fazendo há 43 anos. Em um primeiro momento era apenas eu, cinco juízes militares, minha mãe, meu pai, algum primo que tivesse ido até lá e meu advogado. Depois, com a Anistia, vieram os livros. Mas pela primeira vez senti um alcance muito grande. Lemos sobre como a internet causou a Primavera Árabe, e de repente senti muito isso aqui. Foi muito bom conseguir alcançar tanta gente. São fatos que têm de ser conhecidos. A gente não consegue ir para frente se não desvendar aquele horror.

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iG: Há espaço para um filme como este, que quer fazer pensar, no mercado cinematográfico brasileiro atual?
Murat: Acho que este é o grande problema do cinema brasileiro hoje. Vivi a Embrafilme, o fim da Embrafilme, o (governo de Fernando) Collor, o fim do Collor, todas as idas e vindas. Pela primeira vez desde a retomada, temos uma estabilidade da produção, o que é muito positivo. Você consegue produzir, inclusive os filmes autorais. Com mais dificuldade dos que os comerciais, é claro, mas consegue. O grande gargalo é a distribuição. Cada vez mais estamos sendo expulsos das salas. Se for comparar com a época em que lancei "Quase Dois Irmãos" (2004), a situação é muito pior hoje.

iG: Acha que o governo deve interferir na distribuição?
Murat: Claro. Isso é política de Estado. É preciso interferir, e primeiro via educação, porque também não adianta ficar dando ordem no mercado. Mas acho que não é possível filmes (estrangeiros) entrarem neste País tomando conta de 90% do mercado, como acontece com os blockbusters. Também não é possível ter uma visão tacanha de querer apenas conquistar o mercado e por isso ficar apostando só em comédias populares. Elas são importantes e têm de existir, porque o mundo cinematográfico precisa de todos os estilos, precisa ser diversificado. Mas é uma visão tacanha achar que você pode construir uma identidade sem trabalhar com o chamado cinema autoral, que também quer ter comunicação com o público, mas parte de um ponto de vista que não quer apenas satisfazer uma realidade já existente. Isso para mim é o cinema comercial: fazer só o que as pessoas querem ver.

iG: Você teve várias experiências com a co-produção internacional, inclusive neste filme. Acha uma boa saída para financiar o cinema nacional?
Murat: Tem sido ótimo. É uma coisa do mundo globalizado, que quando comecei era impensável. Neste filme, a contribuição do fotógrafo argentino Bill Nieto foi imensa. Durante todo o processo, a troca foi muito boa. O fundamental não é nem a questão financeira. É a troca de experiências mesmo.

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