Irene Ravache: "A nossa classe média é, muitas vezes, ralé"

Por Luísa Pécora , iG São Paulo | - Atualizada às

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Ao iG, atriz de "A Memória que Me Contam" fala sobre impunidade, falta de educação do brasileiro e envelhecer nas telas: "Não há reconhecimento de quem já trilhou uma carreira"

Em seu primeiro longa-metragem, "Que Bom Te Ver Viva", a diretora Lúcia Murat escalou Irene Ravache para interpretar uma personagem sem nome e inspirada em si mesma. No filme, lançado em 1988, a atriz protagonizava cenas ficcionais que se intercalavam a depoimentos reais de mulheres que, como a cineasta, foram torturadas durante a ditadura militar.

Vinte e cinco anos depois, Murat e Ravache retomam a parceria em "A Memória que me Contam", que estreia nesta sexta-feira (14). Agora levando o nome da atriz, a personagem é um novo alter-ego da diretora, uma ex-revolucionária que reencontra companheiros de resistência em uma sala de hospital. Eles esperam por notícias da também guerrilheira Ana (Simone Spoladore), inspirada em Vera Silvia Magalhães, amiga da cineasta na vida real e a quem o filme é dedicado.

Imagem do filme 'A Memória que me Contam'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'A Memória que me Contam'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'A Memória que me Contam'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'A Memória que me Contam'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'A Memória que me Contam'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'A Memória que me Contam'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'A Memória que me Contam'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'A Memória que me Contam'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'A Memória que me Contam'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'A Memória que me Contam'. Foto: Divulgação

Nesta história que combina elementos da ficção e do documentário, Ravache ganha a chance de revisitar uma personagem do passado e discutir não apenas o legado do período militar, mas também a passagem do tempo. "No 'Que Bom Te Ver Viva' esta mulher ainda está no auge de sua indignação combativa. Agora não é que ela não seja combativa, mas os tempos são outros", explica a atriz.

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Aos 68 anos, Ravache fala baixo e pausadamente, mas aos poucos revela a indignação como característica marcante. Na entrevista ao iG, a atriz critica diferentes aspectos da sociedade brasileira, desde discussões rasas sobre temas complexos - como a ditadura e o estupro - à impunidade e a falta de punições mais duras para crimes graves.

A atriz também condena a "falta de educação" do brasileiro ("nossa classe média é, muitas vezes, ralé") e a "falta de respeito" em relação aos mais velhos, tanto no cotidiano quanto na profissão. "Às vezes não vejo o reconhecimento de alguém que já trilhou uma carreira", afirma. "Vale o aqui, agora."

iG: Como é revisitar um personagem que você interpretou há 25 anos?
Irene Ravache: Não é a mesma personagem, mas é a mesma personalidade. Fiquei muito emocionada quando recebi o roteiro, por todos os meandros e amarrações afetivas que ele tem. É voltar a fazer o alter ego da Lúcia, e desta vez acho que descaradamente, porque faço uma cineasta. Não sei se outro ator brasileiro teve esse tipo de experiência, de repetir de alguma forma essa trajetória. Tanto Lúcia quanto eu estamos mais velhas, e essa personalidade também. No "Que Bom Te Ver Viva" esta mulher ainda está no auge de sua indignação combativa. Agora não é que ela não seja combativa, mas os tempos são outros.

iG: Interpretar a diretora do filme é uma responsabilidade maior?
Ravache: É uma responsa, né? No outro filme eu a observava mais deslavadamente, fazia mais coisas dela. Desta vez tinha hora em que olhava e percebia que ela não estava gostando nada do que eu estava fazendo. Isso era claro para mim. E tem muito a ver com ritmo: a Lúcia fala rápido, eu sou mais pausada. Às vezes, depois de uma cena, eu pensava que ela viria me cobrar, e dito e feito, ela vinha. Então você fica sob uma lente dobrada. Mas é muito legal também. Fiquei comovida por ela ter me chamado e feito um personagem com meu nome. E muito contente em poder fazer um filme que aborda esse tema (a ditadura), que vejo pouco no cinema e acho importante.

Divulgação
Imagem do filme 'Que Bom Te Ver Viva'

iG: Falta discussão sobre o período da ditadura militar no Brasil?
Ravache: (O assunto) Não é comentado nas escolas. O lugar onde se ensina a história do Brasil não fala sobre isso. Digo pela escola dos meus filhos e netos. Fala-se apenas que houve o Ato Institucional nº 5, o Brasil passou por uma ditadura, mas não entram nos detalhes: o que foi, qual a atuação dessas pessoas (guerrilheiros). E principalmente não falam de uma coisa muito séria, e que está sendo revisitada, que é a tortura. Como se alguma coisa justificasse a tortura. E nada justifica. Gosto de insistir nesta tecla porque se hoje não temos a tortura da época da ditadura, temos outras. Acho tão leve a punição para um crime como estupro no nosso país, como se alguma coisa justificasse o estupro. Se não abrirmos os olhos, daqui a pouco vão dizer que a atitude da mulher é que causou. O estupro também não é discutido na escola. A gente vê, passa na televisão, mas não é discutido a ponto de a gente lotar uma avenida e pedir uma atitude. Fico indignada porque medidas enérgicas não são tomadas.

iG: Em relação à impunidade?
Ravache: Tenho uma sensação muito ruim de que o medo ficou só para uma parte da população. Outro dia estava na Avenida das Américas, na Barra da Tijuca, e paramos num sinal. Havia um volume considerável de carros e um rapaz desses que faz malabarismo, mas não estava fazendo, apenas andando. Tinham acontecido uns assaltos com esse tipo de pessoa. Eu olhei para ele, que não tinha corpo sarado, não era magro nem gordo, era jovem e queimado de praia. E passou o seguinte na minha cabeça: "Nós temos medo dele. Ele não tem medo da gente". Não acho o medo uma coisa de todo ruim. É o medo que faz com que você olhe de um lado para o outro antes de atravessar a rua. Se soltarem um leão aqui, é o medo que vai fazer você se esconder para se proteger. Se as pessoas não têm medo, porque nada acontece com elas, por que vão parar de fazer o que estão fazendo? 

iG: Você acha que os crimes graves têm punições muito leves no Brasil?
Ravache: Ficou uma coisa meio proibida - e isso é por causa da ditadura -, algumas palavras viraram tabu: medo, autoridade, hierarquia, disciplina. Como se isso fosse só ruim. Se uma professora não tiver autoridade na sala de aula, o aluno vai dar uma rasteira nela, sim. Se o nosso marginal não tem medo, tem alguma coisa errada. Tem que ter medo. Bandido não tem que ter regalia. Olha o nome: é bandido, não mocinho. E isso de jogar a culpa nas drogas é muito confortável para um governo que não quer tomar uma atitude. Se você desce hoje em Paris, Londres, Berlim e Nova York e quiser comprar drogas, você compra. Mas ninguém mata pai de família por isso, ninguém mata trabalhador voltando para casa por isso. É isso que me deixa indignada. E a minha indignação - e tem outras pessoas iguais a mim - não lota um quarteirão. A Parada Gay lota a Avenida Paulista, graças a Deus. Acho que temos que aprender alguma coisa com os nossos gays sobre como eles se organizaram. Sou uma cidadã indignada.

iG: Você disse que falta discussão sobre temas complexos, seja a ditadura ou o estupro. O cinema preenche esse vazio?
Ravache: Eu acho. O cinema, o teatro e a literatura entram para dizer: "Olha, a vida não é feita só de coisas que estão bombando e que estão dando certo". Vejo muita coisa ruim fazendo sucesso e muita coisa boa em que o público não vai. Ou porque não fica sabendo ou por outro motivo que eu escuto bastante, que é: "Ah não, a vida já é muito dura, não me faz ter que pensar". Olha, para eu escolher o que estou tomando agora eu tive que pensar se ia querer capuccino, café ou chocolate. Você teve que pensar para escolher a blusa que você está usando. Você pensa o tempo todo. E algumas pessoas dizem que têm dificuldade de assistir qualquer coisa que questione, que tire do marasmo. Me pergunto muito sobre esse tipo de coisa.

iG: Há espaço para um filme como este, que quer fazer pensar, no mercado cinematográfico brasileiro atual?
Ravache: Ainda que seja um número menor, quem vai (assistir ao filme) com certeza sai e reflete sobre o assunto. Isso eu já acho um ganho extraordinário. Essa pessoa naturalmente tem um diferencial. Só de ela ter escolhido (ir ver o filme), já tem um diferencial. Ela provavelmente vai levar isso para o seu pequeno círculo de amigos e familiares. Não significa que ela vai conseguir fazer com que todos tenham interesse, mas existe um movimento. E nós precisamos ter espaço para que exista o filme blockbuster, o filme do 007, que eu particularmente adoro. Mas não gostaria que só tivesse o 007. Até entendo que alguns produtores fiquem um pouco assustados em investir (em longas não comerciais), principalmente num País que não tem um Ministério da Cultura ousado, que não ousa subsidiar coisas que são importantes, ainda que não tragam resultado escandaloso de bilheteria. Mas cabe a nós, artistas, trabalharmos neste tipo de segmento, ter uma resistência.

Manuela Scarpa/Foto Rio News
Irene Ravache no lançamento de 'As Memórias que me Contam' em São Paulo

iG: Você é uma das atrizes mais respeitadas do Brasil, mas faz pouco cinema. Por quê?
Ravache: Faço muito menos cinema do que gostaria. Algumas vezes não tive condições de fazer os filmes pelos quais me interessei porque estava em outras produções. Mas recebo poucos convites. Talvez seja uma pergunta que deveria ser feita aos produtores e diretores. Acho que muitas vezes me ligam mais a teatro do que a qualquer outra coisa.

iG: Com tantos trabalhos cômicos na televisão, não recebeu convite para participar das comédias nacionais, por exemplo?
Ravache: Fui chamada, mas não tive interesse. Não é que não goste de comédia, mas desse estilo...achei que não era a atriz adequada para fazer, achei que não ia saber dar conta do recado.

iG: Os papéis femininos pioram conforme o tempo passa?
Ravache: O mundo, e não só o Brasil, enaltece o jovem, o novo. Não acho isso tão ruim, só sinto falta do contraponto. Ainda mais na nossa cultura. Para os orientais a mulher passa a ser muito reverenciada quando entra na menopausa, porque ela fica mais sábia. Acho um escândalo quando uma pessoa muito jovem se refere a alguém de 35 anos como coroa. Tenho um tipo de profissão no qual sempre existiram papéis de mães, avós, matriarcas. Não é nem a falta de papel, mas às vezes não vejo o reconhecimento de alguém que já trilhou uma carreira. É como se aquilo não tivesse muito valor. Vale o aqui, agora.

iG: Sente como se a carreira sempre começasse do zero?
Ravache: Uma vez a Fernanda Montenegro disse: "Ah, Irene, produzir teatro parece que é sempre projeto pioneiro pra gente". Parece que a gente precisa provar, mostrar, levar currículo, parece que você é uma bandeirante desbravando o mato. Uma vez li uma coisa sobre uma jovem atriz e falei: "Meu Deus, se ele está usando esses adjetivos para ela, se tiver que escrever sobre a Nathalia Timberg ou a Fernanda Montenegro, que superlativo ele vai conseguir colocar?". Agora, sou uma atriz que gosta de contracenar com ator jovem. Acho a troca bárbara. E não é porque eles aprendem - eu aprendo também. Eles se incumbem da cena de uma forma diferente da minha e eu penso: "Olha que danado, olha só como ele fez".

iG: Algum ator em especial a impressionou?
Ravache: Em "Passione" (novela da Globo) eu contracenava com o Bruno Gagliasso e ele me surpreendia sempre em cena. Eu pensava: "Olha o caminho que ele pegou, não tinha pensado nisso". Se eu achar que porque minha carreira é mais longa eu sei mais, vou perder isso. Não vou ver isso.

iG: Em "A Memória que Me Contam", soa muito real a cena em que sua personagem diz que calcula quantos anos e filmes ainda tem pela frente. Você tem esse tipo de pensamento?
Ravache: Menina, aquilo é tão real, e você quer ver ficar mais real ainda? Outro dia peguei uma fita métrica de um metro e meio e estiquei só até um metro. Falei para o meu marido: "Meu bem, presta atenção. Vamos dizer que cada centímetro corresponda a um ano. Nós temos cem anos aqui nessa mesa". Ele tem 70, e eu 68. Coloquei o dedo (nestes números) e disse: "Nossa fita métrica tá curtinha, ó". E isso pensando nos cem. Se pensar numa vida legal, ativa, gostosa, dá menos.

iG: Como você encara isso?
Ravache: Encaro como na música da Rita Lee: "Enquanto estou viva e cheia de graça, talvez ainda faça um monte de gente feliz". A começar por mim, não é? Então temos os papéis, vamos fazer os papéis. Vamos cuidar da saúde. Às vezes me deparo com um jovem mal-educado. Não estou aqui para ficar censurando. Mas um dia ele vai chegar na fita métrica dele.

iG: Há falta de respeito em relação aos idosos?
Ravache: Muitas vezes acontece e é muito ligado à educação. Não precisa nem ser um notável, estou falando do faxineiro, por exemplo. Ele é mais velho, cumprimente o mais velho. Se você estiver com uma senhora mais velha, deixe-a passar. A gente anda muito mal-educado. Viajo muito de ponte área e vejo homens em ternos muito bonitos incapazes de estender o braço e tirar uma sacola do bagageiro para uma senhora. Vejo mulher fazendo isso. Observo muito a falta de educação do brasileiro, não da classe menos favorecida, mas da mais favorecida. A nossa classe média é, muitas vezes, ralé. Estou dirigindo e tem um carrão na minha frente, aí alguém abaixa o vidro e joga uma latinha pela janela. Como isso? O que é isso? Vou observando essas coisas e acho bem ruim. 

Veja o trailer de "A Memória que me Contam":



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