iG visita filmagens de "Crô", comédia com personagem de Marcelo Serrado na TV

Por Luísa Pécora , iG São Paulo | - Atualizada às

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Com filme que deve estrear em novembro, diretor Bruno Barreto quer prestar homenagem a Jerry Lewis

As câmeras estão montadas em um amplo salão do Palacete Manaus, casarão localizado no bairro da Bela Vista, em São Paulo. Vestindo terno e gravata, o ator Alexandre Nero aponta uma arma em direção à luxuosa escadaria na qual estão atores como Carolina Ferraz e Marcelo Serrado, este usando calça justa, camisa, gravata borboleta e o inconfundível topete de Crô, personagem que roubou a cena na novela "Fina Estampa", no ar entre agosto de 2011 e março de 2012.

Um tiro é disparado, uma bolsa de sangue artificial explode, um dos atores quase cai pelo corrimão e Serrado dá um histérico gritinho. Na sala ao lado, acompanhando tudo em dois monitores, o diretor Bruno Barreto solta uma risada. Depois do "corta!", Nero pergunta: "A risada significa que deu tudo errado?".

Não deu tudo errado, mas a cena seria repetida uma série de vezes naquela segunda-feira, o 25º dia de filmagens de "Crô", longa que levará o personagem criado por Aguinaldo Silva ao cinema. As gravações de cerca de um mês, que começaram no início de maio e neste dia foram acompanhadas pelo iG, aconteceram a toque de caixa para que o longa possa estrear em novembro, antes que o público se esqueça do mordomo da novela das nove.

Filmagens de 'Crô', dirigido por Bruno Barreto. Foto: Lisa GrahamImagem do filme 'Crô'. Foto: Lisa GrahamMarcelo Serrado em 'Crô'. Foto: Lisa GrahamImagem do filme 'Crô'. Foto: Lisa GrahamCarolina Ferraz será vilã em 'Crô'. Foto: Lisa GrahamAlexandre Nero e Kátia Moraes no filme 'Crô'. Foto: Beatriz LefèvreImagem do filme 'Crô'. Foto: Lisa GrahamAna Maria Braga participa de gravações de 'Crô'. Foto: Beatriz Lefèvre

A ideia de fazer um filme sobre Crô surgiu durante um almoço no qual Barreto e Serrado conversavam sobre a cinebiografia do maestro João Carlos Martins, que pretendem rodar num futuro próximo. Ao saber que a Globo estudava dar um seriado ao personagem, Barreto propôs um longa-metragem.

"Vi os primeiros 20 capítulos da novela e fiquei encantado com o personagem, porque cresci vendo Jerry Lewis e sempre quis fazer um filme do gênero", diz o diretor, que considera "Crô" uma homenagem ao comediante norte-americano. Outras referências, segundo ele, são "Roda da Fortuna", dos irmãos Joel e Ethan Coen, e "As Grandes Aventuras de Pee-Wee", de Tim Burton.

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No longa, Crô vive em uma mansão em São Paulo mas, apesar de estar rico e não precisar trabalhar, continua querendo servir. Por isso, escolhe como patroa Vanusa (Carolina Ferraz), uma mulher que busca ascensão social e, secretamente, explora trabalhadores em uma fábrica de roupas. “A essência dramatúrgica do Crô é servir", explica Barreto. "Se você for depurar, depurar, depurar, a história é sobre poder e submissão."

Reprodução/Instagram
Alexandre Nero publica foto com Marcelo Serrado no set de 'Crô'

Para Serrado, que se disse surpreendido pela popularidade de Crô, a grande inspiração foi o documentário "Santiago", no qual João Moreira Salles conta a história do mordomo de sua família.

"Ele foi uma referência para que eu procurasse a verdade e a alma do personagem, que tem esse topete, esse óculos, essa gravatinha e essa calça justa", afirma. “Tem muitos gays em novela. O Crô deu certo porque era de verdade.”

Sem beijo gay

O ator afirma que a homossexualidade do personagem está colocada de forma clara, mas sem cenas explícitas. "Não tem beijo, não tem toque, nada. É uma coisa pra família, né?", explica. "É um filme leve, então não pode ter isso. Até poderia, mas a classificação jamais deixaria."

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Segundo a produtora Paula Barreto, a ideia é conseguir censura 12 anos para que seja possível alcançar o maior público possível. Ela conta ter passado cenas do longa para sobrinhos de sete anos que rapidamente entenderam que Crô era gay. "As crianças sabem de tudo. Não precisa mostrar beijo, não precisa mostrar nada explícito. Elas entendem, todo mundo tá ligado", avalia.

Paula afirma que, apesar das sutilezas, o fato de o protagonista ser homossexual dificultou a captação de recursos. Empresas desistiram de participar da produção, seja com patrocínio ou merchandising, por causa do tema - algo que já acontecera em "Flores Raras", longa anterior de Barreto, com lançamento previsto para agosto.

“Diversas empresas falaram que não queriam se associar a um filme expressamente gay, o que é inadmissível no século 21”, diz Paula. “Os gays são as pessoas que mais compram e consomem, e os caras não investem.”

Lisa Graham
No dia da visita do iG, elenco gravou complexa cena de tiro

Dupla de humor

Além de Carolina Ferraz, o elenco conta com Milhem Cortaz, Kátia Moraes, Carlos Machado e tem participações das cantoras Ivete Sangalo e Gaby Amarantos, além da apresentadora Ana Maria Braga. O plano de filmagens foi alterado de modo a incluir Alexandre Nero, que despontou para o sucesso em "Fina Estampa" e só poderia se comprometer com o longa após o término das gravações de "Salve Jorge", em 18 de maio.

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Para Nero, a identificação do público com seu personagem, o motorista Baltazar, se deve ao fato de ele desdenhar dos homossexuais. "A gente vem de uma cultura machista, racista, homofóbica. A maioria dos brasileiros sem dúvida faz piada de gay. Acho que o Baltazar é um espelho desses caras, o que fala o que muita gente está pensando", afirma. "Ao mesmo tempo, ao longo do caminho se descobre, tanto na novela quanto no filme, que ele tem um carinho muito grande pelo Crô."

Serrado e Nero veem a troca de farpas entre os dois como um dos pontos fortes da trama. "Nunca considerei ser 'escada' uma coisa menor. Temos e tivemos grandes 'escadas' no Brasil, como o Grande Otelo para o Oscarito e o Dedé para o Didi", afirma o intérprete de Baltazar. "É preciso que tenha sempre alguém levantando a piada. Quando mais o meu personagem se ferra, mais o público que torce para o Crô se diverte."

Barreto na direção

Além do humor, "Crô" também tem elementos de ação, como na cena acompanhada pelo iG, uma das mais complicadas de serem filmadas, por incluir grande parte do elenco, uso de dublês e recursos como bolsa de sangue artificial. 

Ao lado da continuísta e da irmã produtora, Barreto acompanha todos os detalhes pelos monitores, mas frequentemente levanta para falar com os atores e a equipe, num tom de voz naturalmente alto que se sobrepõe ao burburinho que o primeiro assistente de direção, Diego Martins, tenta conter com recorrentes pedidos de silêncio.

O diretor se ocupa de tudo, do disfarce da bolsa de sangue ("Tá muito visível, parece que ele tem um rosbife na camisa") ao pedido de Carolina Ferraz por um roupão que lhe permita esperar os ajustes da cena sentada na escada, já que seu vestido vermelho é curtíssimo. "Cade o roupão da Carolina?", pergunta Barreto.

Lisa Graham
O diretor Bruno Barreto no set de 'Crô'


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Serrado acredita que o diretor é o que diferencia "Crô" da ampla safra de comédias produzidas no Brasil atualmente. "Ele é um cara de cinema. Dessas comédias todas, acho que o Bruno é o cara mais conceituado (a ocupar a direção)", opina. "Ele procurou uma estética diferente."

Barreto vê as diferenças já no roteiro, com "Crô" buscando mais a chamada "gag visual" do que piadas que estão no texto. "É um estilo totalmente diferente, mas não porque eu queira ir contra (a maioria). É porque não sei fazer essas comédias que estão aí, que são quase como programas humorísticos de televisão, como 'Zorra Total'", diz. "Não é que elas sejam ruins. É um gênero. É tipo sitcom."

O diretor não vê problema na aparente tendência do cinema nacional de aproveitar personagens de novela, como o Giovanni Improtta de José Wilker e possivelmente as Empreguetes de "Cheias de Charme".

“Bons filmes se fazem de bons personagens. De onde eles vêm não importa, se é do cinema, do teatro, da literatura. O importante é que se trata de um personagem coadjuvante que virou protagonista - porque era muito bom."

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