Tom exagerado e mão pesada de Baz Luhrmann prejudicam "O Grande Gatsby"

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

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Diretor australiano imprime marca em nova adaptação do clássico romance de F. Scott Fitzgerald, com Leonardo Di Caprio e Carey Mulligan no elenco

Se há um elogio a ser feito ao diretor australiano Baz Luhrmann, que volta aos cinemas nesta sexta-feira (7) com "O Grande Gatsby", é que ele, sem dúvida, tem seu próprio estilo. Ame-o ou odeie-o, trata-se de um cineasta com assinatura clara, que procura projetos ousados e não economiza no aspecto teatral e na estética extravagante.

Foi essa mão pesada de Luhrmann que preocupou os fãs do clássico romance de F. Scott Fitzgerald quando foi anunciado seu plano de filmar "O Grande Gatsby". Levada ao cinema em outras três ocasiões - 1926, 1949 e 1974 -, a história sempre decepcionou nas telonas, conquistando a fama de livro "infilmável".

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Imagem do filme 'O Grande Gatsby'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Grande Gatsby'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Grande Gatsby'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Grande Gatsby'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Grande Gatsby'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Grande Gatsby'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Grande Gatsby'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Grande Gatsby'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Grande Gatsby'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Grande Gatsby'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Grande Gatsby'. Foto: Divulgação

Mas para Luhrmann, que já transportou a Verona de "Romeu e Julieta" para uma praia dos dias atuais e fez um épico de quase três horas sobre a história da Austrália, poucas coisas devem parecer infilmáveis. E, por um lado, o romance sobre a elite nova-iorquina dos anos 1920, um tempo de festas, luxo, riqueza e extravagância, poderia combinar com o estilo excessivo que lhe rendeu o apelido de "Michael Bay do melodrama". Para completar, há em "O Grande Gatsby" um casal que precisa vencer obstáculos para ficar junto, outro dos temas favoritos do diretor.

Dali para a frente, tudo pareceu seguir o script de Baz Luhrmann: ele anunciou a decisão de filmar em 3D, escalou Leonardo DiCaprio, com quem trabalhara em "Romeu + Julieta", para o papel de Gatsby, e entregou a trilha sonora ao rapper Jay-Z. Assim, artistas como Beyoncé e Lana Del Rey deram toque mais pop e moderno ao filme, ainda que a história continuasse ambientada nos anos 1920, quando a proibição à venda de álcool criou negócios ilegais e novos milionários.

O romance é narrado por Nick Carraway (Tobey Maguire), um jovem aspirante a escritor que deixa o meio-oeste dos Estados Unidos para vender ações em Nova York. Ele se instala em uma pequena casa em West Egg, Long Island, região infestada de mansões de novos ricos como Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio).

Getty Images
Baz Luhrmann, o diretor de 'O Grande Gatsby'

O casarão de Gatsby, um empresário misterioso sobre o qual muitos rumores circulam, mas poucas verdades são conhecidas, é a sensação local graças às antológicas festas frequentadas por celebridades e figurões. O milionário dedica hospitalidade especial a Nick na tentativa de se aproximar de sua prima, Daysi Buchanan (Carey Mulligan), um amor do passado que hoje vive com o marido, Tom (Joel Edgerton), em East Egg, a área do outro lado da baía reservada à elite tradicional.

Responsável pelo roteiro ao lado de Craig Pearce, Luhrmann se mantém bastante fiel à história de Fitzgerald. Ainda que troque a ordem de algumas passagens e crie um tratamento psiquiátrico para justificar a narração de Nick, o filme muitas vezes reproduz diálogos idênticos aos do livro e não esquece nenhum dos principais acontecimentos.

O problema, porém, é que Luhrmann tem um ritmo frenético de filmagem e narrativa, enquanto uma das principais qualidades do livro de Fitzgerald é mostrar, aos poucos, as nuances e complexidades dos personagens, sobre os quais estamos constantemente oscilando entre simpatia e antipatia.

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Sem tempo a perder, Luhrmann acaba resumindo suas ambiguidades: Gatsby fica menos sinistro, Tom se torna mais grosseiro, Daysi parece muito frágil e Nick, o principal prejudicado pela adaptação, é mostrado como um jovem excessivamente deslumbrado, e não como o narrador de Fitzgerald, força central do livro, alguém ao mesmo tempo seduzido e enojado pelo materialismo e a superficialidade do mundo dos ricos.

A ironia discreta da narrativa se perde completamente nas mãos de Luhrmann, que não quer ou não consegue baixar o tom. A cena em que Tom apresenta sua amante a Nick é simbólica. No livro, o encontro se dá em uma reunião com poucos amigos, na qual a baixaria se revela nas conversas e nas mentiras escondidas pelas aparências. No filme, a festa é digna de "Se Beber, Não Case": uma espécie de orgia com mulheres seminuas, beijos, guerra de travesseiro, música alta e a ingestão de álcool com a ajuda de um funil.

As próprias festas de Gatsby, cuja elegância extravagante é calculada milimetricamente para impressionar Daysi, são reduzidas à pura vulgaridade. Com passe livre para exagerar, Luhrmann transforma a mansão de West Egg em um misto de bordel com musical da Broadway.

Divulgação
Imagem do filme 'O Grande Gatsby'


O tom "over" percorre todo o filme. Não há restaurante que não tenha muitas dançarinas, muito brilho, muita cor e muita gente. Não há céu que não seja absolutamente estrelado, não há prédio que não esteja iluminado, não há carro que não corra loucamente pela estrada e não há paisagem que não possa ser filmada com panorâmica.

O desenfreado sobe e desce da câmera, combinada à edição rápida e ao desnecessário uso de 3D deixa o espectador quase implorando por uma cena normal, daquelas mais calmas e menos barulhentas, quando o foco fica nos personagens e os atores têm a chance de apenas interagir.

Quando isso acontece, o filme cresce imensamente. Mas antes que você se acostume, lá vem outra panorâmica, mais uma música de Jay-Z e uma série de cortes de edição que não deixam dúvida: estamos vendo Baz Luhrmann, e gostar do filme requer gostar de seu estilo.

Em uma das cenas "paradas", Gatsby espera pela chegada de Daysi na casa de Nick, que mandara enfeitar com uma quantidade impressionante de flores. Naquele pequeno cômodo agora transformado em estufa, ele pergunta: "Você acha que exagerei?". Ao que Nick responde: "Eu acho que é o que você quer". A esta altura, já está claro: "O Grande Gatsby" é o que Baz Luhrmann quer.

Assista ao trailer de "O Grande Gatsby":


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