Quatro anos após filmagem, 'Bonitinha, Mas Ordinária' é exibido no Cine PE

Por Luísa Pécora , enviada especial a Olinda (PE) |

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Longa de Moacyr Góes que revisita obra de Nelson Rodrigues está na mostra competitiva do festival em Olinda

Quatro anos depois das filmagens, "Bonitinha, Mas Ordinária", adaptação de Moacyr Góes para a obra de Nelson Rodrigues, foi exibida pela primeira vez no Brasil nesta terça-feira (3), durante o Cine PE - Festival do Audiovisual, em Olinda. O longa, um dos sete em competição, revisita e atualiza a história já contada no cinema por Billy Davis (1963) e Braz Chediak (1981).

João Miguel interpreta Edgar, homem simples, honesto e ambicioso que recebe uma proposta tentadora: ganhar R$ 5 milhões para se casar com Maria Cecília (Letícia Colin), filha de seu chefe, Dr. Werneck (Gracindo Jr.), que quer salvar a honra da menina, estuprada por cinco negros em uma favela carioca. O dilema vai além das questões éticas, já que Edgar gosta da vizinha, Ritinha (Leandra Leal).

Moacyr Góes apresenta 'Bonitinha, Mas Ordinária, no Cine PE. Foto: DivulgaçãoLetícia Colin, atriz de 'Bonitinha, Mas Ordinária'. Foto: DivulgaçãoCurta é exibido na quinta noite do Cine PE. Foto: DivulgaçãoDiretora do curta 'Desvelo', Clarissa Rebouças. Foto: DivulgaçãoEquipe do curta 'Aluga-se'. Foto: DivulgaçãoO personagem retratado em 'Sagatio - Histórias de Cinema'. Foto: Divulgação

O forte conteúdo sexual da trama foi um dos motivos apresentados pelo produtor Diler Trindade pela demora de quatro anos para colocar nos cinemas um longa filmado em quatro semanas. Segundo ele, o processo de captação foi difícil pelo medo das empresas de se associarem ao filme. "O cinema nacional ficou muito pudico", diz. "Existe um preconceito contra Nelson Rodrigues."

Pesaram ainda a batalha para baixar a censura do longa de 18 para 16 anos (que foi bem-sucedida e com base em argumentação, sem necessidade de cortes adicionais) e o abarrotado calendário de lançamentos da Globo Filmes, que decidiu pela estreia em 24 de maio.

Para Góes, a "angústia" da espera não diminiu o apreço pelo filme, que considera o seu melhor. "É o que tem mais a minha cara, que fiz como achei que tinha que fazer e com os atores que amo", afirma o cineasta, que até então trabalhou principalmente como diretor contratado.

"Não tenho como característica cuspir no prato que comi. Nunca fui obrigado a nada e sempre fiz tudo com a maior convicção. Mas em muitos filmes eu não me reconhecia no que diz respeito às minhas inquietáções", diz Góes, que fez longas de Xuxa e Padre Marcelo Rossi. "Me sinto mais à vontade quando trabalho com meus próprios demônios."

Divulgação
Cena do filme 'Bonitinha, Mas Ordinária'

Esteticamente, "Bonitinha, Mas Ordinária" é marcado principalmente pelo excesso de close-ups. "Sou um homem de teatro e sempre tive inveja do close", brinca Góes, negando que o recurso tenha dado cara de televisão ao filme. "Quem inventou o close foi (o cineasta norte-americano) D.W. Griffith, não o Daniel Filho. Pra mim, o olho é a alma do ator no cinema."

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Apesar dos elogios aos nomes mais experientes do elenco - João Miguel, Leandra Leal e Gracindo Jr., este presente ao Cine Pe -, Góes ressaltou principalmente o trabalho da novata Letícia Colim, escolhida entre 50 meninas para o papel de Maria Cecília. Na época, ela tinha 18 anos de idade e dez de carreira, mas nenhum filme ou cena de sexo e nudez no currículo.

Para Letícia, a intensidade de fazer a personagem se deveu principalmente ao fato de a trama trazer questionamentos a ela mesma, que teve educação católica e foi criada no interior. "Algo em mim estava em ebulição no momento das filmagens. Havia uma provocação interna minha quanto a puritanismo, fantasias sexuais", explica.

A cena de sexo com cinco homens foi a única filmada em estúdio, para proteger a atriz. "Me sentia muito responsável por ela", diz o diretor.

Curtas

A quinta noite do Cine PE também exibiu três curtas: os ficcionais "Desvelo" (BA), de Clarissa Rebouças, sobre uma história de amor proibido; "Aluga-se" (SP), de Marcela Lordy, que acompanha a busca por um lugar para se viver na capital paulista; e o documentário "Sagatio – Histórias de Cinema" (PE), no qual Amaro Filho conta a trajetória de João Sagatio, chefe-eletricista de cinema que trabalhou na Vera Cruz.

O Cine PE, que começou na sexta (29), exibirá 39 filmes, entre longas e curtas, até quinta-feira (2). Os ingressos custam R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia) e estão à venda nos Postos BR (até 15h de cada dia) e nas bilheterias do Centro de Convenções de Pernambuco (a partir das 17h)

* A repórter viajou a convite do Cine PE - Festival do Audiovisual

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